• Isabelle de Paula

"Uma Vida Pequena" de Hanya Yanagihara


Comecei a ler Uma Vida Pequena, de Hanya Yanagihara, totalmente alheia ao que me aguardava. O livro foi um sucesso em 2015 – seu ano de lançamento – recebendo elogios da crítica, prêmios e fazendo o público se dividir entre admiradores e questionadores.



No começo, fui apresentada a um grupo de quatro amigos próximos e totalmente diferentes um do outro, que se mudam de Massachusetts para Nova York em busca de oportunidades e uma vida melhor: JB, um pintor que sonha em prosperar, ama sua família e é amado; Malcolm, um arquiteto que ainda não encontrou seu objetivo e se sente desprezado pelos pais; Willem, um aspirante a ator generoso que corre atrás de seu sonho e Jude, um advogado brilhante e misterioso.


Primeiro, eu gostaria de avisar que esse livro não tem uma leitura agradável. Porém, isso não significa que é um livro ruim, muito pelo contrário, apenas não é um livro para todo mundo.



Não há menção a acontecimentos históricos, personalidades políticas e culturais ou coisa alguma que poderia colocar a narrativa em um ano especifico, tornando o livro eternamente no presente. Em sua maior parte é narrado em terceira pessoa, porém, transita para a segunda e até mesmo para a primeira apenas nas partes de um personagem específico. Viajamos no tempo em uma narrativa não linear: estamos no presente, na adolescência, acompanhando a vida acadêmica daqueles quatro amigos e, de um capítulo para outro, continuamos no presente, porém, agora na vida adulta dos mesmos e, em diversos momentos, voltamos para o passado.


O sofrimento exposto no livro é tão demasiado que a leitura chega a ser quase sádica. Yanagihara faz um trabalho importante e admirável retratando como o trauma de uma vitima de abuso sexual, psicológico e físico é atemporal, como é a vida de uma pessoa com transtornos mentais e sua angustiante luta para sobreviver dia após dia, sem romantizar e/ou diminuir a situação.


“Uma Vida Pequena” não é um livro para todo mundo, não é um livro que eu colocaria em uma lista de recomendações. É um livro que precisa ser lido com a mente aberta e o coração preparado, um livro que pede por empatia e paciência, um livro que pode te transformar... são 784 angustiantes páginas. Dizer que não tem felicidade nessa história seria um exagero, mas a leitura é sofrida e tenho de deixar isso claro.


Os assuntos sensíveis abordados dos quais preciso avisar são pedofilia, prostituição infantil, estupro, auto-mutilação, violência doméstica, violência psicológica e suicídio. Coisas que temos ciência de que, infelizmente, acontecem. Mas devo admitir... em meio à leitura, me vi próxima à incredulidade e lembrar que tais coisas de fato existem foi desesperador.


Não posso dizer que esse foi o melhor livro que já li, não me diverti lendo e não leria novamente, mas posso dizer sinceramente que compensou – aprendi muito com essa leitura e tenho certeza que aprendi coisas das quais ainda não me toquei. As que posso citar são: o valor de uma amizade, o impacto que uma pessoa pode ter na vida de outra, a construção da confiança, a cautela necessária que temos de ter com os outros e muitas vezes pecamos, a importância em ouvir o que alguém tem para falar, morais, preferências, objetivos e privilégios.


Frequentemente esqueço os nomes de personagens dos livros que li, confundo o enredo e sou obrigada a refrescar minha memória. Todavia, acho que isso não vai acontecer com "Uma Vida Pequena", pois sinto que esses personagens e suas histórias são difíceis de esquecer.


"Você pode não entender agora, mas um dia entenderá: o único segredo da amizade, acredito eu, é encontrar pessoas melhores que você, não mais inteligentes, não mais bacanas, mas sim mais bondosas, mais generosas e mais piedosas, e tentar dar ouvidos a elas quando dizem algo sobre você, não importa o quanto seja ruim, ou bom, e confiar nelas, o que é a coisa mais difícil. Mas também a melhor."


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