Trilogia "O Poderoso Chefão" e "Parasita": curiosidades em comum

Atualizado: Jun 3

Uns dos mais renomados clássicos do cinema, dirigido pelo grande diretor Francis Ford Coppola, "O poderoso Chefão", completará meio século em 2 anos. Mesmo com o primeiro filme da sequência tendo ocorrido há tanto tempo, ele ainda possui seu destaque em se tratando de filmes memoráveis.

Um bom cinéfilo, amante ou estudante de cinema, dificilmente irá deixar de apreciar tão grande obra, e um dos motivos que a tornam tão fascinante são os estilos de montagem utilizados na construção do filme, tendo especial destaque a montagem paralela.

Curiosamente, a mesma também se faz presente no filme Parasita, que quebrou paradigmas no OSCAR 2020 ao ser um filme estrangeiro ganhador de quatro categorias.


Vamos ao conceito


A montagem paralela caracteriza-se pela ocorrência de duas situações em um filme, não ocorrendo entre essas nenhuma relação de causa-consequência ou simultaneidade. Devem ser, ainda, separadas por uma distância temporal, provocando efeitos de contraste e comparação.

Em outras palavras, trata-se de uma significação simbólica construída através do uso de personagens e ambientes, gerando uma relação entre cenas e planos diferentes. Ao serem emparelhados, eles acabam por instigar os telespectadores a fazer comparações e identificar similaridades e distinções entre os elementos. Mas vale lembrar que tudo dependerá da interpretação do público.


A trilogia "O Poderoso Chefão"

Com uma narração conjunta cheia de significados e simbolismos, tendo nos três filmes blocos de início e fim semelhantes, as festas iniciais:


Na ocasião acima, é apresentada uma festa com vários aspectos tradicionais italianos. No primeiro filme, além de tentar sempre manter as tradições e alianças italianas, Don Vito mantinha toda a família unida e comandava os negócios da Máfia.

Pela forma como conduzia os negócios e protegia as mulheres de sua família, ele possuía não só o temor, mas também o respeito e o amor de muitos. Isso é enfatizado por todo o contexto da festa, como demonstrado na foto contendo apenas familiares.


Já no segundo longa, Michael, filho mais novo de Vito, está à frente dos negócios do pai. Ele os expandiu, porém acabou deixando a família em segundo plano. Além de tudo, os perigos da máfia começaram a afetar a união e a segurança familiar.

Na festa da imagem acima, há pouco ou quase nada das tradições italianas. O evento era para celebrar a primeira eucaristia do filho do protagonista, entretanto teve como foco a aliança com o senador e os negócios de Michael. A foto que é tirada na comemoração ilustra bem o afastamento familiar: contém somente Michael, sua esposa Kay e o senador.


Enfim, no terceiro filme, há a tentativa do resgate de uma festa tradicionalmente italiana e de uma foto verdadeiramente em família. Entretanto, ela se mostra desestruturada e não atende às “regras tradicionais” por conter filhos bastardos e mulheres divorciadas.

Outro detalhe é o centro da foto: ao invés de conter o patriarca, contém o bispo, com o qual o protagonista está realizando negócios duvidosos.


A trilogia tem como um dos objetivos de narrativa fazer uma comparação entre Vito Corleone, como ele se tornou o grande Don e como lidava com a família e os negócios mafiosos em contraste com o seu sucessor e filho Michael, que lidou com os mesmos fatores de uma forma completamente diferente.

Há diversas cenas que nos fazem comparar suas ações, atitudes e escolhas, como as citadas acima, mostrando como em sua maioria elas eram conflitantes.


Isso acabou por resultar em finais distintos para os dois:


Vito Corleone morre no primeiro longa, em uma área toda verde, brincando com o neto e sendo amado e respeitado por muitos.


Já Michael morre em um ambiente árido, sem vida e solitário, tendo apenas a companhia dos cachorros.


Parasita

Em "Parasita" temos os abismos sociais entre dois mundos: ricos e pobres. De várias formas, o longa vem a nos mostrar essas desigualdades. Todavia, há duas situações que enfatizam mais esse fator, implicando em comparações:


A família Ki-taek mora em um porão pequeno e muito simples, desprovido de conforto. Estão todos sentados discutindo sobre o sustento da família.


Aqui estão todos novamente sentados, em uma sala ampla, talvez maior que sua propriedade inteira, onde há conforto, comida e bebida farta. Eles discutiam sobre como seria se fossem donos da casa.


Perceba as disparidades entre os dois ambientes e as similaridades entre os assuntos abordados: as pessoas são as mesmas e os diálogos nas duas situações abordam questões socioeconômicas. As duas cenas implicam em realizar um emparelhamento que só reforça as desigualdades entre os dois níveis sociais, assim como fortalecem a ideia de que dificilmente um grupo alcançará o outro.

As paisagem que temos diante de ambos os ambientes enfatizam ainda mais as disparidades:



Diante de uma pequena janela de vidro,

suja e com grades enferrujadas, pouca é a incidência de luz...




Para se ver a rua, se faz necessário olhar para cima, e através de vidros e grades tem-se como primeira vista o chão imundo, possivelmente com cheiro de urina.




Já na mansão ...

A vista da janela para fora se tornou uma imensa parede de vidro, sem sujeira e sem grades, há incidência de muita luz. Basta apenas olhar para frente e apreciar a paisagem: jardim muito verde e bem cuidado, o ar lá fora é fresco e puro e o céu parece mais azul e bonito.


Em ambos os filmes, as cenas e planos citados acima possuem uma distância temporal e simultânea, construindo a relação simbólica entre os dois momentos.


Outros elementos cinematográficos que ambas as produções compartilham são as alegorias cinematográficas . Em "O Poderoso Chefão", dentre várias alegorias temos a laranja que aparece sempre que alguém irá morrer ou matar alguém. Esta significação simbólica está ligada diretamente há uma espécie de laranja da Sicília. Já no filme coreano, destaca-se a constante elevação dos ambientes quando se trata dos ricos e locais de baixo relevo aos pobres. Em destaque temos as escadas, o objeto usado para enfatizar esta distância, ou seja: ricos no topo, pobres na base.


Oque achou dessas curiosidades? Já havia percebido?

Que tal fazer sua própria análise a partir do post? Até poque sempre vale a pena ver de novo obras como essas!

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