Sororidade: 11 reflexões contidas em filmes & otageekcast #17

Atualizado: Mai 9

O significado de sororidade ganhou destaque nos primeiros meses de 2020, ocupando conversas nas ruas, redes sociais, programas de televisão, entre outros meios. Sua busca pelo Google aumentou em 250% e apresentou diversos resultados: o que é, o conceito, como praticar, sua importância, etc.

Irmandade, união, solidariedade, proteção, empatia, colaboratividade, compreensão… são citados vários sentimentos que mulheres deveriam ter umas em relação às outras, em prol de se edificar ao que se conceitua como sororidade.

É como dizem: é fácil falar, o difícil é fazer.


Como praticar a sororidade e desconstruir tantas concepções machistas, patriarcais e sexistas, ensinados às mulheres desde o primeiro momento em que são condicionadas ao gênero feminino?

Não é um processo fácil, muito menos rápido, e quanto mais informações, pesquisas, discussões e exemplos existirem sobre essa concepção, mais se enxergará sua importância e prática. Assim sendo, há alguns filmes e séries que, apesar de não terem citado a palavra diretamente, de formas sutilmente implícitas e por vezes explícitas, trazem nas cenas referências e práticas da construção da sororidade.

Malhação - Viva a Diferença


Considerada um marco histórico por pesquisadores, críticos e até mesmo telespectadores, uma espécie de revolução na teledramaturgia de uma das maiores produtoras de telenovelas do mundo: Rede Globo. A 25ª temporada de Malhação, que recebeu o subtítulo de "Viva a Diferença" e foi ganhadora do Emmy Kids Internacional de 2017, trocou o núcleo protagonista tradicional e clichê dos casais de mocinhos e dos maléficos vilões, vigentes nas 24 temporadas anteriores, para cinco jovens mulheres que desempenharam os papéis de protagonistas.



A ideia de rivalidade e disputa entre as jovens, dominante nas temporadas anteriores, foi substituída pela abordagem de temas como a colaboração, empatia, cumplicidade e amizade entre as personagens.


Apresentando o universo de cinco garotas em todas as suas complexidades, a trama torna as adversidades vividas por elas os verdadeiros vilões da narrativa. Elas não eram mocinhas clichês e não existia uma polarização entre perfeitas ou imperfeitas: todas cometiam erros, e, por trás de cada atitude, havia uma história a ser contada.


O enredo expõe de forma minuciosa como suas bolhas sociais tão distintas se entrelaçam, e assim as unem ao invés de se separá-las. Isso só foi possível porque as adolescentes deixavam seus impasses pessoais de lado para ouvir antes de falar, compreender antes de ser compreendida, se colocar no lugar da outra antes de julgar e entender o meio ao qual a outra pertencia.


E assim se edificou a sororidade entre elas, transbordando-a em todos os personagens da trama, desconstruindo bolhas sociais e propiciando uma revolução sociocultural na narrativa.

A história das Fives em "Viva a diferença" é um dos conteúdos recomendados para que se entenda como se dá a prática e a construção da sororidade, partindo de pequenas atitudes até que se chegue a grandes ações realizadas diariamente.


Ah! A série está sendo exibida em edição especial na emissora desde 06/04, e para aqueles que gostam de maratona vários episódios, a temporada está disponível na plataforma Globo play. E é uma maratona e tanto. São 213 episódios!


Sim! 213 e episódios!😮😮😮😮😮


É, eu sei, a temporada é muito grande. Mas garanto que quem quiser assistir não irá se arrepender. Porém, para aqueles que desejam produções menores, o universo cinematográfico oferece maravilhosas obras que de maneiras sutis e implícitas transmitem referências e ilustram o significado e a presença da sororidade.


Adoráveis mulheres




Uns dos indicados ao Oscar 2020, dirigido por Greta Gerwig, apresentando uma nova versão de uma adaptação literária. Nesse filme, é notável o elemento do empoderamento feminino na perspectiva daquela época, englobando principalmente os padrões estabelecidos às mulheres em relação ao casamento. Segundo as protagonistas, o matrimônio é um acordo econômico, visto que a possibilidade de ascensão econômica própria era mínima naquele período, e caso conquistada seria anulada pelo casamento, pois os esposos tornavam-se os responsáveis legais pelos bens da esposa.


Ao decorrer da história, elas vivem os conflitos da passagem da infância para a vida adulta, na qual cada uma optou por um caminho diferente, assim como também conviviam diariamente com os benefícios e as dificuldades de cada escolha.


Mas como impedir que suas escolhas gerassem conflitos e interferissem nos sonhos das demais? Não era apenas uma delas que amava Laurie, Jo não era a única a desejar ir para a Europa e ter um futuro profissional promissor, e um casamento com um homem de bens não era uma concepção só de Amy.


É nesse contexto que a sororidade impera de maneira bem tênue: respeitam-se e apoiam as escolhas umas das outras, dando-lhes a devida importância. A união entre elas prevaleceu acima de tudo. Outro fator importante é que ao final do filme cada uma conquistou pelo menos uma coisa que muito almejava. Até mesmo a jovem Beth, que tinha sonhos em relação à música e não conseguiu alcançá-los pela doença terminal, partiu realizando um dos seus maiores anseios: seus pais e irmãs unidas mesmo que para um adeus tardio.


Reflexão - 1: O livre arbítrio da escolha, uma liberdade que muitas mulheres ainda

não conquistaram totalmente. Não permita

que rivalidades e fatores culturais a impeça de respeitar e apoiar mulheres em sua jornada e conquistas pessoais: todas nós merecemos o direito de ESCOLHER o próprio destino.


O estranho que nós amamos


Considerado uma premiação memorável na 70ª edição do Festival de Cannes: Sofia Coppola foi consagrada pela direção do longa, sendo a segunda mulher na história do festival a conquistar esse mérito.


A narrativa é carregada de fatos históricos, e em especial frisa que as sete personagens estavam excluídas do mundo externo e enclausuradas àquele internato não somente pela guerra, como também pelas regras e padrões que eram estabelecidos às mulheres, desde afazeres domésticos até questões sexuais. Porém, com a chegada do cabo John McBurney ferido, rompe-se de imediato a rotina entediante da casa, o que afeta cada uma das mulheres de maneiras diferentes. Isso desequilibra a harmonia e a organização entre as mesmas, além da notável tensão sexual entre o forasteiro e algumas mulheres da casa.


É evidente como John tenta manipulá-las, fazendo se sentirem únicas para ele de acordo com o anseio que o mesmo despertava nelas, que ia desde sentimentos fraternais a interesses sexuais. Inicialmente todas pareciam frágeis e influenciáveis às investidas do cabo, afinal, há muito não tinham contato com o meio externo e muito menos com o sexo oposto. Era algo novo, e por isso todas de alguma maneira tentaram agradá-lo e começaram a competir entre si.


Todavia, não demorou muito para o forasteiro revelar-se um perigo para todas elas, e diante deste risco eminente as mulheres se unem, esquecem os impasses pessoais que tiveram e arquitetam uma forma de expulsá-lo. De maneira implícita, a narrativa explora como ações e atitudes “naturalizadas de cunho masculino” (a sedução, o galanteio, a manipulação) são capazes de afetar negativamente a harmonia entre mulheres, provocando entre elas a competição amorosa e estética.

Esse desfecho pode levar a diversas interpretações, é na sutileza que se revela a sororidade.

Reflexão - 2: Em circunstâncias atuais, em uma situação amorosa similar a essa, mulheres dão apoio a quem? E a quem culpam ? O que aconteceria se não tivessem se apoiado ou confiado uma nas outras?


Reflexão - 3: Mulheres... são tantas personalidades e características, existem os impasses pessoais, desentendimentos e divergências de pensamentos. Entretanto, esses fatores não devem se tornar barreiras que impeçam mulheres de confiarem e protegerem umas às outras!


As sufragistas


Dirigido por Sarah Gavron e lançado em 2015, o filme tem um viés feminista e político, trazendo consigo registros históricos que possivelmente não se encontram em livros didáticos do ensino obrigatório. Cada cena esboça o que todas as mulheres passavam diante de uma sociedade machista e patriarcal, em especial a submissão das sufragistas em prol de um bem coletivo.


E é nessa entrelinha que está a sororidade: um constante sentimento pelo coletivo. Este, presente nas personagens sufragistas que mal se conheciam no contexto da história, muitas possuindo até mesmo ideias divergentes, mas eram ligadas pela empatia, afinal sofriam as mesmas determinações sociais. E diante dessas circunstâncias se uniram em busca de um propósito: o voto. Aquelas mulheres acreditavam ser esse um dos meios de quebrar algumas correntes que as prendiam. Salienta-se que esse sentimento de empatia, em particular a colaboratividade, transbordava: não lutavam por somente seus direitos, mas pelo de todas mesmo que muitas fossem contra suas ações.


Reflexão - 4: Dê o valor devido à luta, à conquista e ao sucesso de outras mulheres, e se inspire em suas ações. Afinal, a vitória dela também pode ser a sua. Quando uma mulher vence, todas vencem juntas!


Reflexão - 5:"Estamos em todos os lares, somos metade da raça humana. Não há como deter todas nós." - Maud Watts Sufragista

"Pode perder a vida antes que tudo isso acabe!"! - Steed

"Nós venceremos! "- Maud Watts Sufragista

Somos muitas, o que nos falta é união!


Vingadores: Guerra Infinita


Um dos campeões de bilheteria, lançado em 2018, dirigido por Joe Russo e Anthony Russo. Apesar de possuir um viés para entretenimento, transmite uma mensagem implícita de sororidade.


Muito além do filme, na realidade em que vivemos, imagine no que a frase "ela não está sozinha" e principalmente a prática da mesma impactaria, se as mulheres não permitissem que julgamentos patriarcais e machistas as impedissem de lutar, apoiar e proteger outras mulheres!


Reflexão - 6: Desconstrua o mito da rivalidade, nós estamos do mesmo lado e propícias às mesmas circunstâncias. Afinal, naturalmente nunca estivemos, não estamos e nem estaremos sozinhas.



Vingadores: Ultimato


Assim como seu antecessor, o filme traz ao final uma mensagem implícita da sororidade.



Muito mais que uma aliança entre mulheres que lutam por um propósito em comum, uma cena para contestar velhas e incorretas afirmações: “muita mulher junto dá briga”, “mulher não sabe trabalhar junta”. Tais frases não refletem a verdade, seja na ficção e principalmente na vida real.


Reflexão - 7: Mulheres sabem sim trabalhar em conjunto e prosperar! Não enxergue outra mulher como oponente, pois juntas trarão resultados melhores.


Histórias Cruzadas


Lançado em 2011 e dirigido por Tate Taylor, o filme traz várias discussões, sendo uma das mais explícitas a segregação racial e os direitos civis de negros e brancos. Contudo, é válido lembrar que mulheres protagonizam esse longa, e a sororidade é algo explicitamente manifesto.



As regras sociais, os padrões de comportamento e ações que mulheres deveriam seguir para serem consideradas ideais aos olhos da sociedade: delicadas, submissas, do lar e boas esposas. E esse último supostamente deveria ser o maior sonho de qualquer jovem: o casamento.

As que pensavam diferente e agiam contrárias a essas concepções, sofriam pressões sociais.


Eugênia era julgada por optar pelos estudos a um casamento promissor: sua mãe não tinha orgulho de suas conquistas profissionais, e os homens dificilmente aceitariam seu posicionamento. Se esse cenário soa um tanto aterrorizante, torna-se cruel e desumano o contexto das mulheres negras: dificilmente teriam acesso a um ensino de qualidade, muito menos uma graduação.



Sem voz ativa e mínima possibilidade de ascensão social, reconhecimento era algo extinto, mal podiam criar os próprios filhos, eram as domésticas e mães pretas em residências de brancos e recebiam miseravelmente. Em sua maioria, eram humilhadas pelas suas patroas: mulheres brancas.


O filme revela como o racismo e disparidades sociais e econômicas fortalecem os conflitos entre mulheres, afetando de forma negativa a acessibilidade às oportunidades e os direitos que deveriam ser iguais para todas.


Diante de tantas ações cruéis de mulheres brancas para com as negras, Eugênia, movida principalmente pelo afeto à antiga mãe preta e as atitudes racistas de sua amiga, decide escrever sobre uma realidade que possivelmente jamais experimentaria: decide abrir espaço para a voz e a visibilidade de mulheres que não possuíam os mesmos direitos que ela.



Empatia, ouvir e colocar-se no lugar da outra... não existia entre ambas nenhuma relação afetiva, entretanto, unidas desconstruíram os muros de preconceitos sociais e julgamentos entre elas. Ao final do longa, temos tês mulheres iguais como indivíduos, que buscavam sonhos diferentes mas com o mesmo propósito: serem aceitas e reconhecidas pela sociedade.


Eugênia conquista a compreensão e o orgulho da mãe, além de receber uma proposta promissora de emprego. Já Aibileen, Minny e suas companheiras finalmente, suas vozes foram ouvidas, assim como representaram o lugar de fala de muitos negros, homens e mulheres, afetando e instigando mudanças no meio social em que viviam.


Infelizmente, o filme é fiel a uma triste realidade atual: as oportunidades não são acessíveis a todas. Eugenia é reconhecida socialmente e legalmente, já Aibileen foi

condenada socialmente pelo que fez, e legalmente jamais seria considerada uma escritora.


Isso se justifica muito mais do que pelo fato de não ter acesso ao ensino superior e pela questão financeira: suas antecessoras foram domésticas e até escravas e o direito de falar e lutar pela igualdade era praticamente um crime, afinal era uma mulher negra.


Reflexão - 8: Mulheres são diferentes em origens e pertencimentos e têm questões e necessidades diferentes, que precisam ser levadas em consideração pelos movimentos feministas. Ter isso em mente, e sempre que possível fazer algo para mudar essa realidade, é um dos mais belos e honrados atos de sororidade.


Reflexão - 9: "Eu não serei livre enquanto houver mulheres que não são, mesmo que suas algemas sejam muito diferentes das minhas" — Audre Lorde


Estrelas além do tempo


Lançado em 2016 e dirigido por Theodore Melfi, o longa "Estrelas Além do Tempo" traz uma narrativa que ocorre na mesma época que o filme "História Cruzadas", apenas em locais diferentes. E veja só: três mulheres geniais, qualificadas e que foram fundamentais para a história espacial dos Estados Unidos, não receberam o devido reconhecimento e passaram por várias dificuldades e restrições por serem mulheres e negras.


Se para mulheres brancas e estudadas era uma provação tentar se impor e ser reconhecida em um local de trabalho predominantemente masculino e machista, tudo se tornava ainda mais complexo para mulheres negras que nitidamente já lutaram o dobro para conseguir os estudos, e ainda mais para se manter na profissão. Não é por uma questão de qualificação, e sim de racismo.


As três protagonistas se apoiam e, unidas, sempre vibram pela conquista da outra. Entretanto, Dorothy pratica a sororidade em circunstâncias nas quais seria totalmente compreensível se fazer o oposto: dedicara anos pela sua profissão e suas funções na NASA e há meses humilhava-se para solicitar uma promoção ou por alguma oportunidade de crescimento que era seu por direito.


Finalmente, chega o momento da oportunidade tão esperada, provinda de seu mérito e esforço, e não existiria outra chance como esta. Porém, sua ascensão causaria posteriormente a demissão de várias mulheres que assim como ela lutaram muito para conquistar e se manter naquele emprego. Então ela simplesmente nega sem exitar, o que pressionou seus superiores a promover todas.

Sua atitude louvável nos permite visualizar umas das mais belas cenas sobre sororidade: uma por todas, e todas por uma!



Reflexão 10: Motive, encoraje, seja uma mulher que levanta outras mulheres.


Reflexão 11: Muitos historiadores não deram o devido reconhecimento às mulheres nos registros históricos, muitos fatos foram silenciados, omitidos, alterados e até mesmo apagados. Por isso, pesquisem, procurem, reconheçam, valorizem e divulguem as descobertas e conquistas de outras mulheres.


Perceba que a Sonoridade surge em diversas situações, das mais simples às mais inesperadas e complexas, não há uma fórmula ou regra específica, ela apenas parte de um sentimento primordial: a empatia!

Mulheres estão sujeitas às mesmas circunstâncias, determinações e regras sociais. Estamos do mesmo lado, só precisamos acender a Sororidade em nós.


Enfim, não há muitos, mais há uma quantidade significativa de filmes e séries que trabalham em suas personagens ou em cenas específicas a temática em questão.


Que tal agora ouvir o episódio 17 do nosso Podcast? Onde discutimos mais a fundo sobre a Sororidade na cultura pop em colaboração a Letícia do coletivo Mulheres Jornalistas e a Duda do podcast Além dos Ecrãs.


Apresentação: Nathy, Bruna e Leda.


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Ou se preferir escute direto através do nosso player no Castbox!


Pesquisem, assistam, e coloquem aqui nos comentários, afinal precisamos falar e praticar a Sororidade.




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