Review | I May Destroy You - Primeiras Impressões

Atualizado: Ago 28


Após o sucesso de Chewing Gun, Michaela Coel faz seu retorno em uma nova série para falar sobre uma fase dolorosa do seu passado, mas sem deixar seu humor cativante de lado.



Atenção! O review abaixo será sem spoilers!


Se em Chewing Gum Michaela usou da sua experiência como adolescente religiosa para falar do despertar da sexualidade, em I May Destroy You ela trata do abuso sexual que sofreu durante o período de produção da série anterior.


Em entrevista para o Estadão via Zoom, direto de Londres, Coel disse: "Jamais senti medo ou senti que não deveria contar essa história."



Era uma noite de muito trabalho, com prazo apertado para entregar um dos episódios de Chewing Gum , e Coel chegou a escrever por 40 horas seguidas, "sem fazer xixi ou levantar, até as pernas ficarem inchadas". Porém, naquela noite, ela decidiu fazer uma pausa e encontrar amigos. De volta à sua escrivaninha, sentindo-se meio fora de órbita, teve um flash de um homem desconhecido. A cena aparece quase sem diferenças em I May Destroy You, em que ela interpreta Arabella. Em vez de roteirista, a personagem é a escritora de um livro de sucesso que tenta dar um segundo passo em sua carreira.


Mesmo tocando em um assunto doloroso, a série não é drama por completo. Há também muito humor. "Em cada elemento de dor, o humor simplesmente aparece, sem convite. É parte de mim. Não sei como escrever sem um pouco de humor."


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Coel e toda a produção se preocuparam em explorar a visão contemporânea das nossas relações sexuais, e como o consentimento é algo chave para diferir entre um abuso e uma relação sexual. Vale destacar que isso independe da situação ou dos indivíduos envolvidos. Outro aspecto trabalhado na série é o da liberdade sexual, como é visto nas relações entre os personagens coadjuvantes da trama e com a própria Arabella.



Todo o elenco está ótimo em seus papéis. Michaela é roteirista e showrunner da série, enquanto a direção fica a cargo do diretor Sam Miller. A produção tem uma fotografia com tons frios e vívidos, que ao mesmo tempo conseguem sustentar a ambientação da série.


A estrutura narrativa da produção é fragmentada, e a visão que temos como espectador é a mesma da protagonista. À medida em que Arabella vai se recordando da noite do abuso, nós vamos conhecendo melhor a personagem e conseguimos acompanhá-la durante sua jornada. Acompanhamos também flashbacks que mostram outros aspectos da vida de Arabella que, como a maioria dos jovens/adultos, gosta de se divertir com seus amigos.


O piloto da série fica responsável por nos apresentar a ponta do Iceberg na vida da protagonista e seus amigos: Kwame (Paapa Essiedu), ator amigo de Coel na vida, que a acompanhou durante todo o processo de corpo de delito e terapia após o abuso. Na série, Kwame começa como um cara bastante livre, aberto sexualmente, divertido e confiante. Porém, após um episódio traumático, sua vida muda e o seu plot na série passa a girar em torno de sua reação ao trauma e o impacto que este teve em sua vida. Terry (Weruche Opia), outra amiga de Arabella, interpreta uma atriz aspirante que está buscando seu espaço no mundo do entretenimento. Além disso temos Ben (Stephen Wight), que divide apartamento com Arabella e Terry.



Coel foi muito perspicaz em fazer leves alterações entre sua personagem e sua própria vida. Enquanto em Chewing Gun ela quebra a quarta parede com o telespectador e cria uma ambientação de proximidade do público, como a da série Fleabag, em I May Destroy You ela traz momentos reais, como a interação com fãs que pedem fotos quando a veem na rua. Assim, ela retrata a dificuldade da personagem em se manter anônima como figura pública, o que não tem muita diferença da vida pessoal de Coel.


Toda a atmosfera é muito realista. Então, se você é sensível a cenas de abuso sexual, a série pode te chocar. Ao contrário de outras produções que abordam abusos, nas quais geralmente o ponto de vista não é da vítima e a trama é focada na investigação do ato, "I May Destroy You" tem seu foco na perspectiva da pessoa violentada. Não podemos esquecer que a série dá voz a histórias que muitas vezes não são contadas e a vítima é invisibilizada. Como a própria Coel já disse em entrevistas, a série não substitui o processo de terapia, mas empodera e representa milhares de pessoas que são vítimas de abusos sexuais diariamente em todo o mundo.


Michaela Coel pode ser o espelho para muitas meninas negras, de famílias de imigrantes e classe trabalhadora. Ainda, quem sabe, ajudar as pessoas a se sentir menos sozinhas, ainda mais nesse momento. "Eu sinto estar falando para as partes de nós que sabem que em algum momento de nossas vidas fomos injustiçados", disse. "Alguém nos roubou nosso consentimento, ou tirou vantagem, nos explorou. Quero encorajar todos que se sentem assim a encontrar uma maneira de dormir à noite - porque, às vezes, a dor e a raiva podem impedir. Algo em mim espera que as pessoas entendam que elas merecem uma boa noite de sono e que devem buscar isso acima de tudo."


Confira o trailer de I May Destroy You abaixo:



I May Destroy You é uma grande declaração de que o humor vive mesmo na tragédia e ressalta que a vítima nunca é a culpada. Apagar o que houve no passado não é possível, mas viver o presente cercado de pessoas que te amam e te apoiam é um bom primeiro passo para lidar com a dor do trauma.


A série atualmente se encontra em exibição no serviço HBO MAX e contará com 12 episódios. À medida que os episódios forem liberados, realizaremos a crítica individual de cada um (dessa vez com spoilers).


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