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Review – HQ Carnificina Absoluta


Escrita por Donny Cates e desenhada por Ryan Stegman, a minissérie Carnificina Absoluta da Marvel acabou de ser publicada nas bancas do Brasil. Então vamos aproveitar a publicação da obra para falar sobre esse evento dos quadrinhos. Ah, e esse texto CONTÊM SPOILERS. Sem mais delongas, vamos para o banho de sangue!



Primeiramente, vamos começar com uma recapitulação... Cletus Kassady é um personagem criado no início dos anos 90 como um dos vilões mais psicóticos do Homem-Aranha. Assassino serial e responsável por inúmeros crimes, ele foi colega de cela de Eddie Brock, o Venom, que lá se multiplicou, dando origem a um novo simbionte. Cletus recebeu o “filho” da criatura, tornando-se o vilão Carnificina, uma versão ainda mais letal, violenta e “surtada” que Venom.



Com os anos, Carnificina se tornou um dos vilões principais do Aranha. Ainda nos anos 90, uma clássica história do personagem foi publicada, Maximum Carnage, ou Carnificina Máxima. O título da nova saga, Carnificina Absoluta (Absolute Carnage), é claramente uma referência à história noventista. Em Carnificina Máxima, o vilão usa aliados superpoderosos para criar uma destruição máxima na cidade de Nova Iorque, sendo detido pelos esforços combinado de Homem-Aranha e Venom. E essa HQ ainda rendeu um jogo de videogame na época.


Recentemente, Cletus morreu e seu simbionte acabou parando nas mãos de Norman Osborn, o Duende Verde. Na história publicada em The Amazing Spider Man #800, Norman mescla Carnificina com seus poderes de Duende, se tornando o Duende Vermelho. Após a luta, Osborn sofreu um colapso nervoso e começou a acreditar ser Cletus Kassady.



E isso nos leva até a fase Donny Cates.


Venom de Donny Cates


Em 2018, o jovem escritor Donny Cates e o desenhista Ryan Stegman se uniram na nova revista do Venom. Eddie Brock tinha acabado de se tornar novamente o portador do simbionte e a dupla de autores levou o personagem ao topo. A passagem deles no título é considerada uma das melhores publicações recentes da Marvel, cheia de ação e, claro, elementos de terror.


Os autores conseguiram um “buzz” de atenção ao falar que seu título era melhor que o clássico Watchmen. Claro, isso é uma brincadeira. Mesmo assim, a run deles no personagem realmente é muito boa. E tudo que eles começaram a construir em 2018 culminou na minissérie Carnificina Absoluta.


Em Venom, Eddie descobre que já havia simbiontes na terra antes mesmo do Homem-Aranha trazer o seu em Guerras Secretas (por exemplo, a S.H.I.E.L.D. tinha usado um grupo dessas criaturas em um programa secreto de criação de supersoldados na Guerra do Vietnã).


Alem disso, também descobrimos que muito do que sabíamos sobre os simbiontes não era exatamente verdade: Cates não se importa em usar retcons para mudar origens e acontecimentos já estabelecidos na cronologia da editora. Isso tinha tudo para ser algo ruim, mas não é, sendo na verdade algo que proporciona muita dinâmica para a história.


Uma dessas mudanças é a origem dos simbiontes. Descobrimos que eles foram criados por Knull, um deus sombrio mais antigo que o tempo. Knull é extremamente perigoso e está sendo mantido prisioneiro há séculos. Lembra da Necrolâmina, a espada matadora de deuses a respeito da qual falamos no texto sobre Jason Aaron? Então, Cates explica a Necrolâmina como algo criado por Knull. Não é legal quando dois autores se complementam?



Eddie luta contra Grendel, um dragão simbionte que estava na Terra há séculos ( inclusive usado pela S.H.I.E.L.D. no programa secreto do qual falamos anteriormente) e vence. Nessas primeiras histórias de Cates, o Venom acaba “desbloqueando” novos poderes, como asas. Enquanto isso, Knull continua dormindo, aprisionado. Mesmo assim, ele possui aliados (que usam um espiral na testa, os diferenciando).


Outro ponto importante aqui é Brock descobrindo que tem um filho. Ele não conhecia o garoto, Dylan, e não tem coragem de contar para ele que é seu pai. Sendo a única família do adolescente, Eddie se apresenta como um irmão mais velho e começa a cuidar dele.


Tudo ia bem (na verdade, tudo ia mal), quando uma seita fanática de adoradores de Knull ressuscitou Cletus Kassidy usando um fragmento de Grendel e o transformou novamente em Carnificina, criando uma ligação do psicótico vilão com o Deus dos Simbiontes. Cletus agora quer acordar e libertar seu senhor e, por isso, vai começar uma Carnificina Absoluta.


A minissérie


Publicada no Brasil em 3 edições mensais, Carnificina Absoluta mostra Carnificina em busca dos códices que os simbiontes deixam eu seu hospedeiro. Um códex é um pedaço de DNA que um simbionte deixa na pessoa mesmo após sair de seu corpo. E para retirar um desses, é preciso matar a pessoa (de preferência, arrancando sua espinha). Quando, assim, conseguir todos os códices, Carnificina vai estar poderoso o suficiente para acordar Knull.


Dessa forma, para proteger os alvos do Cletus (uma grande lista que inclui ele mesmo, Homem-Aranha, Normie Osborn – o neto do Duende Verde – e Dylan, seu filho, que nasceu com o códex em seus genes), Brock precisa de aliados de peso. Então ele se junta ao relutante Aranha e ao Criador.


Criador é a versão maligna e deformada de Reed Richards, o Senhor Fantástico, vinda do Universo Ultimate. Esse Reed cria uma máquina capaz de retirar o códex da pessoa sem causar sua morte. Todavia, relutantes em deixar os jovens Normie ou Dylan testarem o invento, Peter e Brock vão atrás de alguém para ser a primeira cobaia da invenção: Norman Osborn, preso no Instituto Ravencroft e acreditando ser, na realidade, o próprio Cletus. Porém, quando eles estão na prisão, Carnificina ataca.



Mas não é um Carnificina simples. Agora ele está bem mais poderoso, inteligente e psicótico. Além de tudo, possui um exército de outros Carnificinas. Cletus já roubou o códex de alguns coitados, incluindo ex-hospedeiros mortos, tornando-se muito forte. Peter e Eddie mal escapam com vida, não conseguindo resgatar Norman, que se torna um dos Carnificinas do exército da criatura.


O exército de Carnificinas ataca por toda a cidade em busca de códices (algo também explorado nos spin-offs da minissérie). Eddie mal salva a vida de Mac Gargan, o Escorpião, que foi por um tempo um hospedeiro do Venom. Ele sobrevive gravemente ferido. E no processo, o Homem-Aranha Miles Morales, que estava ajudando Brock, é infectado, tornando-se um dos Carnificinas.



Peter Parker, por outro lado, reúne heróis que já foram infectados por simbiontes para os salvar na máquina do Criador. Esses heróis são o Coisa, Capitão América e Wolverine. E Bruce Banner, mesmo nunca tendo sido portador de um simbionte, está lá para ajudar a operar a máquina que retira os códices. Mas quando todos os heróis estão em animação dentro da máquina, Carnificina chega.


Julgando Eddie fraco demais para vencer Carnificina, Venom infecta Banner, criando assim o primeiro Venom-Hulk. Os dois lutam, mas mesmo assim Carnificina consegue vencer e roubar o simbionte de Bruce. Agora, Cletus fica mais poderoso que nunca.



Porém, esse não é o único conflito. Os heróis acordaram do procedimento e já estão lutando contra o exército de simbiontes. Enquanto isso, Peter Parker enfrenta Norman Osborn para proteger as crianças. Peter derruba Norman, mas cai junto. O fragmento do Carnificina de Norman sai de seu corpo para atacar Dylan e Normie, mas, de maneira inexplicável, Dylan usa um poder secreto para destroçar o alienígena, desmaiando depois também. Não fica claro ainda, mas esse momento leva a crer que o poder do garoto veio com o códex de simbionte impresso em seu DNA.


Todavia, em Carnificina Absoluta, o “herói” e protagonista é Venom. Sem seu simbionte, Eddie aproveita a distração de mais heróis chegando para auxiliar na luta e absorve os códices armazenados na máquina do Criador, transformando-se novamente no anti-herói.


A diferença é que ele absorveu códices que pertenceram a outros e, com isso, absorveu também um pouquinho das táticas e personalidades de cada usuário anterior. Por exemplo, ele sente o lado tático e militar do simbionte que esteve com o Capitão América. Isso o deixa bem mais poderoso.


Tudo se resume ao conflito entre Carnificina e Venom. É como se cada um tivesse (mais ou menos) a metade dos códices. Para salvar Dylan, assim, Eddie cria uma Necrolâmina e mata Carnificina. Ao fazer isso, revela ao filho sua paternidade e acaba absorvendo partes dos simbiontes de Cletus e acordando Knull. Para proteger a criança, Venom despertou então o deus dos simbiontes.


Agora ele está vindo para cá, e ninguém na Terra está preparado para isso. Assim acaba Carnificina Absoluta.


E vale a pena ler?


Carnificina Absoluta é uma ótima história. Muito porque, em um tempo no qual todo mundo buscar criar histórias realistas e pé no chão, distanciando-se da real essência dos quadrinhos de super-heróis, Absolute Carnage não tem vergonha de ser quem é: uma história de porrada, loucura e ação desenfreada. É divertida, com toques de violência e terror.


Nem tudo, porém, é raso: o desenvolvimento de Eddie Brock como pessoa em toda a fase Cates/Stegman é sensacional. A forma como o personagem encara questões relativas à paternidade tem sim seu peso e profundidade (tudo mesclado com monstros, deuses sombrios e "porradaria").


Um dos maiores trunfos do trabalho da dupla é fazer tudo isso sem parecer presunçoso (o que é interessante vindo de pessoas as quais disseram fazer um trabalho melhor que Watchmen). A arte de Stegman, inclusive, reflete isso: sabe ser detalhada e sombria onde precisa, e forçada e estilizada/divertida em outros momentos. Outro ponto positivo para Absolute Carnage são as cores maravilhosas de Frank Martin. A arte-final do quadrinho é feita por JP Mayer, Jay Leisten e o próprio Stegman.



Um termo bem usado para esse tipo de HQ de ação maluca é “massavéio”, e podemos dizer que Donny Cates e Ryan Stegman fazem um massavéio de qualidade (algo que nem sempre podemos dizer sobre tentativas de outros autores de fazer essas histórias com ação e aventura malucas meio heavy metal).


É como se a dupla pegasse todas as “tosqueiras” que faziam sucesso nos anos 90 e fizesse sua versão bem escrita e bem desenhada. Carnificina Absoluta é divertida e é uma boa indicação para quem gosta desse tipo de leitura.


Absolute Carnage foi publicado originalmente dos EUA em 2019, ano em que a Marvel completou 80 anos (outro grande evento saiu no mesmo ano, o Guerra dos Reinos de Jason Aaron, além do quadrinho especial Marvel Comics #1000).


A continuação dessa história, King in Black, começa a ser publicada em Dezembro e será o clímax de toda a run Cates/Stegman no “venonverso”, mostrando Knull finalmente chegando na Terra.


Carnificina Absoluta pode ser comprado aqui.


É isso, pessoal! Continuem lendo quadrinhos e até o próximo texto!



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