• Yuro

Relembrando Chadwick Boseman

Atualizado: Set 1


No último dia 28, o mundo foi pego de surpresa com a prematura morte de Chadwick Boseman.



O carismático ator se foi, com apenas 43 anos, vítima de um câncer, deixando uma legião de fãs e admiradores estarrecidos. Reconhecido pelo grande público como Pantera Negra nos filmes do MCU, Chadwick era uma figura amada em toda a comunidade nerd. Então nada melhor do que celebrar sua vida, importância e influência. Temos que lembrar das coisas boas enquanto tentamos deixar a tristeza passar.



Além do Pantera, Chadwick participou de outros grandes filmes, como 42, no papel de Jackie Robinson e Get on Up, representando o rei da Funk Music, James Brown. No MCU, participou dos filmes mais lucrativos da história do cinema. Porém, mais que personagens, Boseman era uma grande pessoa, um desses poucos atores que são heróis na vida real.


Boseman participou de 4 filmes do Universo Cinematográfico Marvel no papel de T’Challa, o Rei de Wakanda, país fictício africano, e Pantera Negra, o líder guerreiro e protetor do reino. Chadwick surgiu no MCU no filme Capitão América: Guerra Civil, estrelou o filme homônimo do personagem e depois participou de Vingadores: Guerra Infinita e Vingadores: Ultimato.



Bom, mas por ser encarregado da minha coluna de quadrinhos, queria trazer aqui um pouco da importância do personagem Pantera Negra e de como a atuação de Boseman fez a diferença para milhões de pessoas, transformando o filme do Pantera em algo mais do que um filme de herói.


Criado por Stan Lee e Jack Kirby, Pantera Negra surgiu no número 52 da revista do Quarteto Fantástico, ainda em 1966, em plena Era de Prata dos quadrinhos. A fase Lee/Kirby na revista dos “Quatro Fantásticos” é uma das melhores runs em quadrinhos, além de ser considerada, ainda, a melhor fase dos personagens.



Só para vocês terem noção, Skrulls, Doutor Destino, Quarteto Terrível, Adam Warlock, Inumanos e Galactus surgiram nessa aclamada passagem.


Mas o Pantera Negra era mais que um mero coadjuvante e logo mais tomou destaque em um primeiro arco solo, na revista Jungle Action, considerada por muitos a primeira Graphic Novel da Marvel em um tempo no qual o termo ainda nem existia.



Todavia, antes disso, melhor pensar na importância do personagem: T’Challa é o primeiro super-herói africano em uma grande editora. O primeiro super-herói negro a receber um tratamento especial seja na Marvel ou na DC. Se hoje ainda vemos que o número de heróis brancos é muito maior que o de negros, imagine nos anos 60. E se você nunca pensou sobre a importância da representatividade, é porque provavelmente já é bem representado desde sempre.


O visual original do Pantera é diferente do que conhecemos hoje em dia. Nos esboços originais do Jack Kirby, o personagem mostrava o rosto e a cor da pele livremente, além de vestimentas mais coloridas e com mais referências a trajes africanos. A ideia era destacar a representatividade e o orgulho do personagem, algo muito à frente de seu tempo.



Infelizmente, os editores que trabalhavam na Marvel no momento, que na época eram alheios às criações de Lee e Kirby, optaram por um uniforme todo escuro que não mostrasse a pele do personagem, uma decisão que dava mais valor à voz do preconceito que à visão progressista dos criadores. Mas o personagem foi publicado da maneira que conhecemos e a dupla Stan e Jack trabalharam para deixá-lo o mais ligado à sua herança africana possível.


Vale lembrar que, também em 66, foi criado o Partido dos Panteras Negras nos EUA, organização revolucionária que lutava pelo direito civil dos negros e que combatia o preconceito no país.



O tropo do herói da selva era muito forte na Era de Ouro dos quadrinhos (final dos anos 30, anos 40 e início dos 50), com personagens como o Fantasma, Ka-Zar e diversas heroínas. Em geral, tratavam-se de personagens brancos, incrivelmente. Muito dessa ideia veio com Tarzan nas revistas pulp antes de chegar nos quadrinhos. E como muito da Era de Prata era uma versão revisitada da Era de Ouro, o Pantera foi uma maneira de aproveitar essa ideia. Mas com um diferencial: ele é um personagem negro e africano, o que faz muito mais sentido e dá muito mais peso e originalidade ao herói.



Desde os anos 60, T’Challa vem em um arco incrível nos quadrinhos, tendo seu reino de Wakanda evoluído ao status de paraíso natural e tecnológico (o que faz todo sentido, uma vez que Wakanda é o único país exportador do raro metal Vibranium). Além disso, o personagem se consolidou como uma figura respeitada por todos os heróis (tendo tanto respeito quanto – ou ainda mais - o Capitão América) e se tornou um Vingador essencial em diversas sagas do grupo. Ele chegou a usar a Manopla do Infinito (em um momento completamente badass, no arco de 2015, Guerras Secretas) e lutar contra racistas da Klu Klux Klan.



Sim, é isso mesmo, para quem reclama que os quadrinhos estão “forçando política”, saiba que eles sempre foram político/sociais e que T’Challa já “sentava o cacete” em racistas desde antes de você nascer. E esse é um estigma que qualquer herói negro precisa enfrentar: lutar contra monstros e aliens, como os outros, e lutar contra o racismo diariamente, algo que os heróis brancos não precisam fazer. Já começou a perceber o peso do personagem que Chadwick tinha nas costas?


Bom, mas Boseman não era só o Pantera. Era uma grande pessoa e isso é maior que qualquer aspecto fictício de sua carreira. Jamais devemos reduzir ele apenas aos filmes: ele era muito mais.



E mesmo sabendo que estava com câncer, Chadwick escondeu sua doença e tomou esse papel gigante pois sabia que isso representaria algo muito mais forte. Ele sabia que representar T’Challa faria a diferença. E fez.


Pantera Negra, o primeiro blockbuster de um herói africano, foi indicado a 3 Oscars (levando 2), sendo o primeiro filme de super-heróis indicado ao Oscar de melhor filme. E, para quem me conhece, sabe que sempre defendi que o filme DEVERIA ter ganhado a categoria, já que levava temas importantes para todo mundo, uma vez que era um blockbuster. Enquanto outros grandes filmes indicados também falavam de racismo para um público seleto (por serem filmes cult), Pantera levava esses temas e representatividade para todo mundo, pois era uma megaprodução “pipoca”.


Leia também: 
Projeto Wakanda Streamers
5 filmes baseados em quadrinhos que ganharam Oscar

Pantera Negra usou todo o seu potencial de público para fazer, além de uma boa história, algo que importava, algo que precisa ser feito há muito tempo. E não é isso que é o cinema?



Uma vez que não sou negro, só posso imaginar o tamanho da alegria de uma criança negra ao finalmente ver um herói que a representa na grande tela. Em um mundo de Batmans e Capitães América, ver um Pantera Negra levar alegria e voz para tantas crianças nos mostra que esse filme era muito mais que os outros.


Muito disso se deve ao carisma e poder de Chadwick Boseman. Sem ele, nada disso seria possível. E ele sabia disso. Além disso, mesmo doente, Boseman visitava hospitais para levar alegria a crianças que passavam pelo mesmo problema que ele, pois sabia que isso importava.


O ator usava sua voz e influência para lutar pelos direitos dos negros. Seja nas redes sociais (apoiando o importante #BlackLivesMatter) e em seus discursos em eventos e premiações, Chadwick lutou pelo fim do preconceito. E é isso que verdadeiros heróis fazem, é isso que verdadeiros reis fazem: deixam o mundo um lugar um pouco melhor.



Um gigante se foi, deixando todo o mundo mais vazio. Mas o seu legado permanece. É triste, mas é bom saber que o trabalho de Chadwick Boseman deixou o mundo melhor.

Até a DC homenageou o ator, algo muito legal. A comoção do mundo mostra o quanto ele era querido e amado. E não é pra menos, né?


E, por favor, não fique perguntando agora “como será feito Pantera Negra 2?” porque isso é muito maior que um filme. Não é tempo disso. Respeite a dor dos familiares e o legado de Boseman.


Grandes artistas dos quadrinhos deixaram homenagens ao ator, então aqui vão algumas ilustrações de Chadwick.






Obrigado por tudo, meu herói, meu rei. Vá em paz e Rest in Power.

Wakanda forever.

Chadwick Boseman forever.




Quer saber mais sobre o universo GEEK? Então siga o Otageek no Twitter,  no Facebook e no Instagram.

O Otageek é um portal de jornalismo cultural independente que produz conteúdo sobre cultura pop com uma abordagem mais próxima do Jornalismo e distante dos clickbaits e fake news.

© 2020 - Otageek BR . All Rights Reserved.