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O universo segundo Jason Aaron


Jason Aaron é um dos nomes mais poderosos e falados do universo das HQs recentemente. Com o fim da publicação do crossover Guerra dos Reinos no Brasil e da iminente conclusão de sua fase na revista do Deus do Trovão, no último arco do Rei Thor, vamos tirar um tempo para falar do roteirista Jason Aaron e de como ele impactou os quadrinhos nos últimos anos. Então bora!



Primeiro, uma contextualização: Jason Aaron, para quem não conhece, é um roteirista de HQs e, nos últimos anos, foi crescendo até se tornar um dos mais queridos autores pelos fãs. Após fazer sucesso na linha Vertigo, da DC, Jason se tornou um dos principais nomes da Marvel com a revista do Deus do Trovão, passagem que culminou no evento Guerra dos Reinos, recentemente publicado no Brasil. Agora, sua aclamada passagem pelo Thor está chegando ao fim em nosso país, e nos cabe falar um pouco desse criador.


Os primeiros anos



Jason Aaron começou sua carreira em 2001, quando conseguiu a chance de escrever uma curta história do Wolverine para a Marvel ao vencer um concurso de caça-talentos. Nos anos seguintes, lutou para fazer nome na indústria. Sua grande chance começou na DC, ao escrever para a Vertigo, o selo de histórias (em geral) independentes e adultas da editora. Ele escreveu então para a minissérie The Other Side (que infelizmente não foi publicada no Brasil), a qual conta uma história passada na Guerra do Vietnã.


The Other Side chamou tanta atenção que foi indicada ao Prêmio Eisner, o “Oscar dos Quadrinhos” (a premiação máxima da mídia), na categoria de melhor minissérie. Isso aconteceu em 2006, quando a carreira de Aaron ainda começava. Mas o que destacou de fato o trabalho de Jason foi, em 2007, a série Escalpo.


Escalpo



Publicada entre 2007 e 2012 no selo Vertigo, Escalpo é uma história crua e poderosa que mistura elementos de quadrinhos Western/Faroeste com quadrinhos de Histórias de Crime (ambos gêneros de HQs muito populares nos anos 50). Escalpo, porém, é um quadrinho bem mais violento e pesado, distanciando-se dos comics do mesmo gênero da década de 1950.


A trama se passa na fictícia “Rosa da Pradaria”, uma reserva indígena nos EUA. É sobre os membros da tribo nativo-americana Oglala Lakota, os problemas que vivem, violência, crime organizado, exclusão e preconceito. Tudo isso enquanto lutam para preservar sua cultura.


A história de Escalpo toma alguns elementos de inspiração da história real de Leonard Peltier, um ativista dos direitos indígenas que, em 1975, foi acusado de matar dois agentes do FBI em um tiroteio em uma reserva indígena. Leonard, membro da tribo Sioux, cumpre hoje 2 prisões perpétuas mesmo sem provas de que é culpado pelos assassinatos.


Jason Aaron também afirmou que, originalmente, a história seria sobre o Escalpador, um personagem antigo da continuidade DC que fazia parte do núcleo de histórias western da editora nos anos 70. Porém, conforme escrevia, Aaron viu que sua história era algo novo e criou todos os personagens do zero.


Escalpo é um marco das HQs desse século e, por isso, não vou dar spoilers. A HQ é muito bem aceita por sua natureza brutal e real, além de fugir de estereótipos dentro dos quais o povo indígena geralmente é retratado na grande mídia. A arte do quadrinho é feita por R. M. Guéra, e seu estilo deixa a história mais bonita e sombria.


Escalpo durou 60 edições e, em 2011, foi indicada ao prêmio Eisner na categoria de melhor série. Hoje, anos após seu fim, a HQ ainda é aclamada como uma das melhores da Vertigo no século XXI. Ela pode ser comprada aqui.


Antes de Thor



Antes de começar a escrever sua aclamada passagem pelo Deus do Trovão e ainda antes de terminar Escalpo, Jason Aaron escreveu muita coisa no universo tradicional de super-heróis.


Nesse período, fim dos anos 2000 e início dos 2010, Aaron escreveu Ripclaw: Pilot Season para a editora Top Cow e voltou para a Marvel, onde escreveu novamente Wolverine, primeiro no título Wolverine: Arma X e depois, de maneira regular, em Wolverine & os X-Men.


Além disso, Jason escreveu Pantera Negra (incluindo o tie-in da megassaga Invasão Secreta, junto de David Lapham) e uma aclamada run no título do Motoqueiro Fantasma. Para a DC, escreveu a edição do Pinguim para o Manicômio do Coringa.


Todas essas histórias são interessantes e, apesar de não possuírem o mesmo peso de Escalpo e de sua fase em Thor, vale a pena conferir.


O Carniceiro dos Deuses



E vamos até aquele que é o ponto máximo de sua carreira: sua passagem em Thor!


Em 2012, Jason Aaron entrou no título nórdico da Marvel na revista 'Thor: O Deus do Trovão'. Naquela época, o Thor vinha de uma ótima fase pelas mãos de J. Michael Straczynski, Olivier Coipel e Marko Djurdjevic (além de outros nomes após o fim da fase Straczynki), que eu também fortemente recomendo aos leitores. Aliás, o senhor do trovão é o personagem com o maior número de fases clássicas nesse século, mas vocês ainda não estão prontos para essa conversa...


Mesmo assim, os fãs queriam algo novo. Muito provavelmente isso vem da vontade de alguns de ler uma versão do personagem que se distanciasse daquela apresentada nos filmes do MCU (os quais eu não estou aqui pra criticar, já que adoro o arco do personagem nos filmes). É aí que o Jason entrou.


A proposta de Aaron no título do trovão era redefinir as coisas: mostrar um Thor mais cru, mais sombrio e ligado a algumas raízes nórdicas. Esse Thor não é só um deus do Trovão, mas também um deus dos Vikings, e isso fez a diferença para o personagem.


As 12 primeiras edições do título, os arcos Carniceiro dos Deuses e Bomba Divina (sendo um continuação do outro e, geralmente, creditados apenas como Carniceiro dos Deuses) chegaram com tudo, mostrando elementos que você não esperaria numa história do Thor. Podemos dizer que a história chega como um trovão.


Na história, vemos Thor ir à um planeta distante ao ouvir uma oração pedindo ajuda. Como um bom deus, ele vai até o local e ajuda esse povo desconhecido. Por curiosidade, então, ele pergunta aos nativos se eles não possuem deuses próprios naquele mundo e descobre que eles não têm deuses ou, se já tiveram, não podem mais contar com eles. Assim, o senhor do trovão vai investigar e o que ele descobre não é nada bonito: os deuses daquele local morreram, foram assassinados brutalmente.


Porém, ao ver os corpos dos deuses (ainda preservados pois, como seres divinos, pouco se deterioraram durante os séculos), Odinson se lembra que já viu algo parecido há muito tempo: o jovem Thor, séculos atrás, quando ainda era um jovem arrogante que não conseguia levantar o Mjolnir e guerreava e comemorava junto aos Vikings de Midgard, lutou contra um ser empenhado a matar deuses: Gorr, o Carniceiro dos Deuses.


Sem dar muitos spoilers, Gorr queria eliminar todas as divindades do universo pois achava que elas eram a causa de todo o mal (e não, ele não tem nada a ver com Kratos, de God of War). Gorr tinha seus motivos e suas razões (mas, para descobrir, você terá de ler a história, vamos deixar o suspense para leitores novos, ein?) e estava munido de uma arma poderosíssima, a Necrolâmina, a espada matadora de deuses.


No passado, Thor julgava ter matado Gorr após seu combate, mas agora percebe que o Carniceiro está vivo e tem de enfrentá-lo novamente. Enquanto isso, em meio à suas investigações, ele vai descobrindo a quantidade de vítimas que Gorr já fez na comunidade divina. Alheio ao Thor de nossa linha temporal e ao jovem Thor do passado, vamos um Rei Thor velho de uma Asgard destruída se preparando para o confronto final com Gorr.


A história, de maneira fluida, é contada em 3 linhas temporais por meio de 3 versões do Asgardiano que, como você já pode imaginar, precisam interagir (no maior estilo da série Dark) para terminar o combate.


Carniceiro dos Deuses é lindamente desenhado por Esad Ribic (que trabalhou na minissérie Loki e no crossover Guerras Secretas de 2015), cujo estilo realista acerta em cheio no clima da trama.


Carniceiro, desde sua publicação, é colocada por fãs e críticos junto de clássicos como A queda de Murdock e A última Caçada de Kraven como uma das melhores histórias da Marvel, além de sempre figurar em inúmeras listas de melhores HQs já feitas. E Gorr, juntamente com os membros da Corte das Corujas (Batman), costuma ser lembrado como um dos melhores vilões criados nos últimos anos. Na minha humilde opinião, Carniceiro dos Deuses é a melhor história de heróis dos últimos 10 anos.


Deusa do Trovão



Após esse arco, Aaron continuou no título com outras grandes histórias. Um de seus maiores feitos foi trazer de volta o vilão Malekith, criado na também aclamada fase de Walt Simonson, nos anos 80. Aliás, nos quadrinhos, Malekith se difere muito de sua malfadada versão do infame filme Thor: o Mundo Sombrio.


Esse provavelmente é um dos motivos que fizeram Jason Aaron se tornar tão importante no mundo das HQs: misturar elementos novos e resgatar elementos antigos. Ao mesmo tempo que antigas tramas e histórias eram trazidas por ele, novos personagens, acontecimentos e perspectivas foram adicionados. Mas nenhuma novidade foi tão grande quanto a Deusa do Trovão.


O nome de Aaron em sua passagem pelo Thor foi se tornando tão aclamado que, em 2014, o escritor, ao lado do artista brasileiro Mike Deodato Jr., produziu a megassaga Pecado Original.


No evento, entre outros acontecimentos, vemos Thor, por alguma razão, se tornar indigno de levantar seu martelo, enquanto uma Deusa do Trovão toma seu lugar. Posteriormente, durante sua fase na revista da personagem, é revelado que a deusa é Jane Foster, antigo amor de Odinson. Jane, além disso, está com câncer e, a cada vez que se transforma em Thor, seu corpo humano fica mais perto da morte.


A nova dinâmica levou à criação de duas ótimas revistas: Thor, contando as histórias de Jane como a nova senhora do trovão, sua vida dupla e seu papel em Asgard enquanto luta contra ameaças como a armada Shiar e a critura Mangog; e o título do Thor Indigno, contando a história de Odinson sem seu martelo e de seu estado um tanto quanto neurótico por isso.


O comportamento errático do indigno Odinson, por exemplo, permitiu que ele fosse manipulado pelo maligno Capitão América da Hydra no arco Império Secreto (e posso afirmar: apesar de ser um quadrinho bizarro, a maioria esmagadora das pessoas que criticam a história nunca leram a HQ). Império Secreto não é uma história escrita por Aaron, e sim por Nick Spencer, o que mostra como o universo arquitetado por Aaron já era completamente relevante para a Marvel em geral.


A Deusa do Trovão, por outro lado, se tornou parte principal da All-New All-Different Marvel, iniciativa que buscava trazer novos ares ao universo em quadrinhos e fez vários de seus principais heróis “passarem o manto adiante” para outras versões dos personagens (como a X-23 se tornando a Wolverine e o Falcão se tornando o Capitão América).


Apesar de contar muitas coisas boas, essa iniciativa foi duramente criticada por fãs que não queriam ver seus heróis clássicos “substituídos” (além do fato de que a All-New All-Different trouxe muita diversidade, o que geralmente causa chilique no nerd preconceituoso). Mas não se engane: as histórias da Jane Foster Thor são ótimas e consideradas clássicos modernos por críticos sérios de HQs.


Uma prova disso é que a personagem irá aparecer no quarto filme do deus do trovão, Thor: Love and Thunder, dirigido por Taika Waititi e com Natalie Portman retornando para reprisar o papel de Jane. Isso nos mostra o peso e a influência da fase Aaron.


A Guerra dos Reinos



Toda a run de Jason no título do Thor nos levou até a Guerra dos Reinos. A megassaga de 2019, escrita por ele, é a convergência de tudo que o autor foi plantando desde 2012.


Na HQ, vemos Malekith atacando a Terra após conquistar todos os outros reinos da Árvore do Mundo. Após arrasar e conquistar todos os mundos da mitologia nórdica, o Elfo Sombrio vem para consumar sua vingança contra Thor aqui.


Descrita pelo próprio Aaron como uma mistura de Vingadores: Ultimato com Game of Thrones (dizendo isso como uma brincadeira, já que a HQ começou a ser publicada quando essas duas histórias estavam para acabar), Guerra dos Reinos não se sustenta como um crossover para quem não leu a fase de Jason Aaron no Thor, sendo apenas uma história legal. Mas para quem acompanhou o run do autor no título, Guerra dos Reinos é um ótimo final.


Não vou entrar em muitos detalhes para não entregar spoilers, mas o final da megassaga é bastante interessante e conta com um dos melhores momentos de toda a fase Aaron na vida de Thor.


Guerra dos Reinos acabou de ser publicada no Brasil e pode ser adquirida aqui. A passagem do roteirista pela revista do deus do trovão acabou com O Crepúsculo do Deus do Trovão, uma história focada no velho Rei Thor, aquele mesmo de O Carniceiro dos Deuses, enfrentando, milênios no futuro, seu irmão Loki em posse da Necrolâmina (aquela mesma, que mata deuses).


E, como na história do Carniceiro dos Deuses, Esad Ribic retorna para ilustrar o fim desse épico orquestrado por Aaron. A história do Rei Thor está sendo publicada agora no Brasil (e pode ser comprada aqui), por isso esse é um bom momento para falar dessa fase histórica.


O futuro



Não é fácil que um roteirista faça tanto sucesso assim em suas criações. Não é todo dia que vemos uma nova run de um personagem se tornar um de seus maiores clássicos. Jason Aaron conseguiu mudar a forma como os leitores enxergam o Deus do Trovão e expandiu sua mitologia de uma maneira que mexeu com a cultura pop.


Além disso, inúmeros novos personagens foram criados por ele nesse período, sendo o meu preferido Thori, o raivoso e divertido cão de Thor.



Enquanto escrevia a revista do trovão, Aaron também escreveu uma ótima run para o Doutor Estranho (ao lado de Chris Bachalo) e uma espetacular fase para Conan, o Bárbaro (junto de Mahmud Asrar). Atualmente ele é o autor da revista dos Vingadores (na qual, de alguma maneira, ainda trabalha com Thor).


Mas talvez um aspecto interessante a ser falado é que Aaron abriu caminhos para novos escritores. A Necrolâmina de Gorr em o Carniceiro dos Deuses, por exemplo, foi usada e explicada por Donny Cates em sua fase na revista do Venom.


Cates vem tomando grande reconhecimento nos últimos tempos e sua influência na Marvel vem se tornando cada vez maior. Em suas histórias, ele explicou a origem da Necrolâmina como uma arma pertencente à Knull, o Deus dos Simbiontes. A próxima megassaga da editora, King in Black, irá sair ainda em 2020 e vai contar a história de Knull chegando à Terra, provavelmente usando sua espada para causar muita destruição.


O que quero dizer é que, mesmo com o fim de sua fase em Thor e na conclusão de visão criativa para o universo Marvel, a influência de Aaron continua a se sentir por toda a editora, algo raro de acontecer.


Minhas indicações de leitura são Escalpo, Thor: O Carniceiro dos Deuses e A vida e morte de Conan. E saiba que, se você ver o nome de Jason Aaron em alguma história, provavelmente ela é muito boa.


É isso, pessoal, boa leitura e que Thor o proteja!



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