• Isabelle de Paula

O problema com a representatividade bissexual na mídia


Setembro é considerado o Mês da Visibilidade Bissexual, sendo o dia 23 o Dia da Celebração Bissexual. A bissexualidade foge do conceito de monossexualidade – orientação sexual que se caracteriza pela atração exclusiva por um gênero – e é constantemente mal interpretada, estereotipada e apagada, até mesmo dentro da comunidade LGBT+.



Existe o falso conceito de que a bissexualidade seria 50% de atração por mulheres e 50% de atração por homens, quando, na realidade, a bissexualidade é a capacidade de sentir atração romântica e/ou sexual por mais de um gênero e, como disse a ativista estadunidense dos direitos bissexuais Robyn Ochs,“não precisamente ao mesmo tempo, da mesma forma ou nos mesmos níveis”.


A bissexualidade é também invalidada ao ser colocada como uma “confusão”, como se uma pessoa, ao se identificar como bissexual, estivesse apenas passando por uma fase e indecisa se gosta de uma coisa ou de outra. Ademais, há os que digam que pessoas bissexuais são mais propensas à traição por terem “mais opções”. Tal comentário não passa de discriminação.


Os estereótipos e o apagamento da bissexualidade também se fazem presentes na mídia.


Exemplo disso é o seriado “Faking It”, em que os personagens, ao saberem que o garoto novo na universidade era bissexual, tiveram atitudes e falas completamente preconceituosas.


“O rótulo “bi” é apenas um passo para o processo de se assumir”.


E, como era esperado, o seriado não aproveitou isso como uma oportunidade de quebrar estereótipos, o que, consequentemente, apenas os espalha e reforça.


Outro grande exemplo de má representação e invisibilidade da bissexualidade na mídia é a famosa série musical “Glee”. A personagem Brittany tem relacionamentos ao longo da série com homens e um relacionamento com uma mulher, Santana, que até mesmo se assume lésbica em certo momento da história. Porém, Brittany nunca tem um momento de se assumir como sua parceira.


Brittany e Artie / Brittany e Sam / Brittany e Santana.


Ademais, na única vez em que Brittany é colocada como bissexual na série, não é feito nada além de outro desserviço. Já na 5ª temporada, em uma conversa com um novo interesse amoroso, Santana menciona que sua ex-namorada (Brittany) é bissexual. Após isso, a interlocutora Dani diz a Santana que sua separação foi “provavelmente para um bem maior” e que ela precisa de uma “deusa 100% sáfica/lésbica”, como se uma mulher bissexual não gostasse "100%" de mulheres e não fosse boa o suficiente para ela.


"Eu acho que você precisa de uma... deusa 100% sáfica/lésbica"


Mesmo antes, no episódio 14 da 2ª temporada, o personagem Kurt, que é assumidamente gay, trata a bissexualidade como uma confusão quando Blaine compartilha com ele a possibilidade de ser bi.


Kurt: Bissexualidade é uma mentira que garotos gays contam no colégio para andar de mãos dadas com garotas no corredor e se sentirem normais.
Blaine: Por que você está tão bravo?
Kurt: Porque eu admiro você! Eu admiro o quão orgulhoso você é de quem você é. Eu sei o que é estar no armário, e você está prestes a entrar nele de volta na ponta dos pés.

E, por incrível que pareça, esses são apenas alguns exemplos de todos os momentos em que Glee apaga e estereotipa a bissexualidade.


Segundo uma pesquisa feita pela organização estadunidense GLAAD (Gay & Lesbian Alliance Against Defamation) em 2016-2017, mulheres bissexuais são mais retratadas na mídia do que os homens. No levantamento mostra que 4,8% de personagens na televisão dos EUA são considerados LGBT+ e 30% desses são bissexuais, sendo 64 mulheres e 19 homens.


Porém, isso não é motivo para comemorar, considerando que, na maioria das vezes, essas personagens são usadas para reforçar o estereótipo de promiscuidade da bissexualidade e/ou são demasiadamente fetichizadas.


Um bom exemplo é a Callie em Grey's Anatomy. A personagem engravida de um homem (Sloan) após terminar com sua parceira (Arizona) e logo depois reata com a mesma, o que reforça o estereótipo de promiscuidade e indecisão.


Sloan, Callie e Arizona.


É difícil contar quantos personagens visivelmente bissexuais não possuem sua sexualidade confirmada, e isso acontece principalmente em seriados de televisão. Alguns exemplos são Ambrose de Chilling Adventures Of Sabrina, Annalise de How To Get Away With Murder, Eleanor de The Good Place e Casey de Atypical. Qual será o medo de usar a palavra "bissexual"?


E você pode se perguntar qual é a necessidade da utilização de "rótulos", porém, a resposta é muito simples... coisas desse tipo contribuem para a invisibilidade do B na sigla LGBT+.


Uma representação digna e correta de bissexuais está na série de comédia policial Brooklyn Nine-Nine. A séria tinha mostrado a detetive durona e reservada Rosa Diaz apenas em relacionamentos com homens, porém, ela se assume como bissexual no 10º episódio da 5ª temporada da série, e revela que está em um relacionamento com uma mulher.


"Eu sou bi"


E fica melhor ainda! A atriz que interpreta Diaz, Stephanie Beatriz, é uma mulher assumidamente bissexual e teve papel importante na construção do episódio em que sua personagem se assume.


Eu sugeri que essa palavra fosse muito importante para ela e que também seria muito importante para a comunidade bi ter a palavra dita na televisão. Não apenas uma sugestão de que agora ela namora garotas, mas uma clareza sobre essa personagem”. disse Stephanie em entrevista à Entertainment Weekly.

A representatividade na mídia é de extrema importância. Sentir-se visto e compreendido pode causar grande impacto na vida de um indivíduo. Ao mesmo tempo, uma representatividade feita de forma consciente cumpre seu papel de lembrar a sociedade da existência de tais grupos e que eles buscam não apenas tolerância, mas aceitação.


A bissexualidade existe. A bissexualidade não é uma fase, não é uma dúvida, não é uma divisão.


Feliz mês da visibilidade bissexual.



Quer saber mais sobre o universo GEEK? Então siga o Otageek no Twitter, no Facebook e no Instagram.

O Otageek é um portal de jornalismo cultural independente que produz conteúdo sobre cultura pop com uma abordagem mais próxima do Jornalismo e distante dos clickbaits e fake news.

© 2020 - Otageek BR . All Rights Reserved.