• Lucas Almeida

O passado e o presente na musicalidade dos Selvagens à procura de lei

Atualizado: Abr 19


O passado e o presente na musicalidade dos Selvagens à procura de lei

Através da banda formada em 2009 na cidade de Fortaleza, os cearenses entraram na cena musical com uma influência fortíssima do Indie Rock dos anos 2000. Com letras românticas e outras mais politizadas, os meninos encontraram seu próprio estilo, pautado em testar mudanças sonoras a cada álbum.


"Selvagens à procura de lei" é formada pelo guitarrista Rafael Martins, baixista Caio Evangelista, baterista Nicholas Magalhães (Nicão) e guitarrista Gabriel Aragão. Todos os integrantes tocam seus devidos instrumentos, porém todos cantam. Além dos vocais isolados, a união de todas as vozes dá às músicas uma força excepcional e uma sintonia perfeita.


E por falar nos vocais... é uma das características nas quais a banda tem tido êxito por todos esses anos. Os quatro integrantes tem tons de vozes completamente diferentes, mas que se completam. Gabriel Aragão, guitarrista e o vocalista mais presente nas canções, apresenta um vocal mais agudo e limpo. Estando presente em boa parte das canções, ele consegue transitar das músicas mais românticas até as mais pesadas da banda. Já Caio Evangelista, baterista e vocalista em algumas canções especificas, possui a voz mais grave do grupo, podendo lembrar o timbre de Tim Maia. Nessas canções (muitas delas com uma letra mais romântica), o baterista nos mostra uma pegada mais “doce”, como se estivesse gritando ao mundo os seus sentimentos.


Aprendendo a mentir

O primeiro álbum, denominado “Aprendendo a mentir”, foi lançado em 2011 e possui uma pegada agressiva, guitarras presentes e um ritmo acelerado do começo ao fim. Ele nos passa um ar despretensioso, por se tratar de jovens que traziam letras e sonoridade meio fora do padrão. Para ilustrar melhor, podemos dizer que o disco mantém uma forte ligação com os primeiros álbuns de bandas como Arctic Monkeys e The Fratellis, ou seja, as guitarras são sujas, há inúmeros riffs, versos acelerados e uma sonoridade sempre alta.


Porém, o álbum ganha ainda mais destaque em seu final, em “Mais um palhaço no seu carnaval”, com uma sonoridade mais densa, um ritmo menos acelerado e uma canção mais “séria”. A música diminui o volume das guitarras e traz a força da voz de Gabriel em seu refrão. Dessa forma, mostra de vez a qualidade e identidade musical da banda, bem como desperta no público a curiosidade a respeito do que viria a seguir.


Selvagens à procura de lei

Dois anos mais tarde, a banda apareceu com o álbum “Selvagens à procura de lei”. Bem, as músicas permaneceram com guitarras presentes, mas dessa vez alternaram entre ritmos lentos e acelerados, seja dentro das próprias canções ou entre canções diferentes. As letras, que já falavam diretamente com os jovens da época desde o álbum anterior, dessa vez se conectariam ainda mais com eles através de mensagens politizadas mais explícitas e com um “ar” de protesto. Nessa temática, o lançamento de maior sucesso foi o single “Brasileiro”, que aborda vários aspectos sociais e políticos, como a desigualdade social e o enfrentamento das dificuldades pelo nosso povo. A música acabou então criando uma conexão com os manifestos do ano anterior, proporcionando à banda um reconhecimento que até então eles não tinham.


Podemos destacar ainda a maior presença de canções com sonoridade mais lenta e baladas românticas. Músicas como “Crescer dói”, “Amor existe, mas não querem que você acredite” e “Sr. Coronel” trouxeram uma pegada mais melancólica e triste ao álbum. Com letras bem escritas e a inclusão do piano tocado por Gabriel, ainda se tornaram mais ricas e encantadoras de se ouvir.


Merece maior destaque a música “Mar fechado”, a qual considerei uma experiência sublime. Ela é cantada apenas pelo guitarrista Rafael Martins, que traz um misto de tristeza e perfeição do começo ao fim. Além de cantá-la sozinho, ele preenche a canção exclusivamente com solos do meio ao final, sendo estes também longos e melancólicos: a guitarra parece dizer com acordes o que até então estava sendo dito com palavras.


Outro fator super positivo no álbum é a música “Despedida”, cujo refrão foi cantado apenas pelo baterista Nicholas Magalhâes. Como falado antes, o baterista obtém uma voz grave que se distancia completamente dos demais integrantes da banda, o que acrescenta uma força gigante ao refrão e coloca "Despedida" como uma das mais ouvidas até hoje pelos fãs da banda.


Praieiro

Em 2016 é lançado “Praieiro”, um álbum com uma pegada mais alegre e dançante. Após transitar pelo indie rock, os Selvagens viriam agora com uma sonoridade mais tropical e divertida. Dessa forma, trouxeram refrões chamativos com o intuito de colocá-los de vez na cabeça de todos os ouvintes. Dito isso, não ache que o álbum seja ruim... está muito longe disso! O álbum é um autodescobrimento da banda, seja na textura instrumental ou nas letras.


Em “Tarde livre”, o primeiro single do álbum, podemos nos deliciar com um refrão empolgante e entender um pouco dessa transição de estilos. A música, que se inicia calma e com poucos instrumentos, aos poucos começa a incluir os demais instrumentos e ganha força total no pré-refrão, deixando o ritmo mais acelerado e incluindo as vozes de todos os integrantes.


O álbum surfa em vários estilos musicais, que se misturam ao próprio rock já tocado pela banda. Na canção “Guetos Urbanos” temos uma demonstração da inclusão do Reggae com o apelo político característico da banda. Já em “O Amor É um Rock 2” temos uma homenagem a Raul Seixas abertamente dita na música, com uma guitarra mais seca e versos mais acelerados bem diferentes do restante do álbum.


O disco concretiza essa liberdade que os meninos tinham de experimentar novos sons e se arriscar na inclusão de novos estilos, mas sem descaracterizar sua identidade musical já estabelecida. Ou seja, por mais que o peso das guitarras e o som acelerado tenha diminuído, ao escutar o disco percebemos nitidamente os Selvagens à procura de lei.


Paraíso Portátil

Já em 2019, eles mudam completamente a sonoridade e vão surfar de vez no pop. “Paraíso Portátil” se contrapõe completamente ao último disco, sendo um álbum melancólico, com uma pegada psicodélica e tocando em temas mais profundos. O disco tem o desejo de fazer com que as pessoas olhem mais para dentro de si.


Sendo assim, no decorrer dele temos assuntos como: ansiedade, sonhos, humanidade e depressão. O álbum é diferente dos antigos, ou seja, ele não vem com o intuito de mudar o mundo, de ir para as ruas, de confrontar pessoas que pensam diferente de você. O disco é voltado para o interior das pessoas, o olhar para dentro, o se encontrar e se conectar nesse mundo, o se ajudar em primeiro lugar.


Músicas como “Sem você eu não presto”, “Sede ao pote”, “Eu não sou desse mundo”, “Miragem” e “Sentinelas” mostram a necessidade de um recomeço, o desejo de fazer muitas coisas ao mesmo tempo e ajudar as pessoas, os sonhos do passado e as frustrações do futuro.


Estradas e amigos


Com todos esses anos de estrada, os Selvagens estiveram presentes em alguns festivais nacionais e internacionais. Eles participaram do Lollapalooza de 2014 e 2017, chegando a dividir o palco com The killers, Pearl Jam e Imagine Dragons.


Os meninos também já dividiram os palcos e construíram algumas amizades no decorrer desses anos com alguns nomes relevantes do Rock nacional. Bandas como Titãs e Capital Inicial foram algumas delas! Além do mais, Dinho Ouro Preto (Vocalista do Capital Inicial) já declarou abertamente o seu carinho e admiração pela qualidade musical da banda, colocando-os como um dos destaques da nova safra do rock nacional.




“É a banda que mais me deixou de boca aberta nos últimos tempos. To vendo se faço uma produção, uma apadrinhada, por que precisa de renovação no rock brasileiro”

Pois bem, “Selvagens à procura de lei” se concretiza como uma banda camaleoa dentro do cenário musical brasileiro, tendo começado com suas influências pessoais até encontrar sua própria sonoridade musical. Os caras fizeram a junção de tudo isso, tornando novo cada álbum lançado, mas ainda assim temos a certeza de que são os mesmos “Selvagens” de sempre.

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