O contexto histórico de Assassin’s Creed Valhalla

Se tem uma coisa da qual ninguém pode reclamar em Assassin’s Creed é o esmero da Ubisoft em reconstruir cidades e períodos históricos com muita fidelidade, encaixando sua trama do conflito entre Assassinos e Templários com maestria dentro da história real da humanidade.

E com Assassin’s Creed Valhalla não será diferente, dessa vez levando os jogadores ao Século IX, durante a lendária Era Viking, que começou em 793.


Exploradores ou saqueadores?



Ainda não sabemos muito sobre o jogo, mas a Ubisoft já confirmou que seus eventos ocorrem, em grande parte, durante o ano de 870. É um período extenso e particularmente tumultuado da história mundial, especialmente na Grã-Bretanha, pois foi quando os ataques vikings contra a Inglaterra se tornaram muito mais frequentes e bem documentados.

Primeiramente, é importante entender o uso da palavra “viking“. De acordo com o historiador Johnni Langer, existem algumas teorias sobre o surgimento da palavra:

  • Pode ter relação com a palavra nórdica vík, utilizada para se referir a pessoas da região de Viken, na Noruega.

  • Pode ter relação com a palavra nórdica vík, também utilizada para se referir a pessoas que embarcavam em seus navios em baías.

  • Pode ter relação com a palavra nórdica víkingr, utilizada para se referir a marinheiros que cometiam atos de pirataria.

  • Pode ter relação com a palavra do inglês antigo wicing, utilizada para se referir àqueles que frequentavam portos para realizar comércio.

Os vikings habitavam, a princípio, as regiões que correspondem à atual Escandinávia: Noruega, Suécia e Dinamarca. Mas o que levou esses povos a invadirem a Inglaterra? Existem algumas especulações, sendo a principal delas um crescimento populacional da região, que teria gerado falta de alimento e uma procura por terras melhores para o plantio. Para os povos escandinavos, acostumados com o frio e com uma terra praticamente infértil, o clima ameno e os os verdes campos faziam da Inglaterra um verdadeiro paraíso.

Portanto, existe um exagero quando os vikings são definidos apenas como “exploradores”, assim como quando são definidos apenas como piratas dedicados ao saque e à pilhagem. No fim, as navegações vikings podem ter acontecido principalmente por uma questão de expansão motivada pelo aspecto mais básico do ser humano: a sobrevivência.

Além disso, é importante observar que no ano de 870 os povos nórdicos ainda seguiam suas velhas tradições religiosas, diferentemente dos saxões da Inglaterra, que eram fervorosamente cristãos. Essa divergência de credo e filosofias, além das pilhagens a igrejas costeiras, fez com que os povos nórdicos fossem pintados como selvagens barbáricos e imorais quando, no entanto, eram apenas humanos com seus defeitos e qualidades. De forma interessante, isso é retratado no trailer de Assassin’s Creed Valhalla, quando a narração trata os escandinavos como brutos sanguinários, enquanto o vídeo mostra um comportamento bem diferente.


Essa época também marca o período em que os vikings se tornaram amplamente reconhecidos como os melhores navegantes do mundo. Seus navios tecnologicamente superiores (na época) permitiam que eles se movessem rapidamente por mares agitados e passassem rapidamente da água para a terra, a fim de executar ataques devastadores. O lado explorador dos povos nórdicos acaba não sendo tão explicitado no vídeo liberado, focando-se mais em suas pilhagens e na busca por se assentar em terras inglesas.


O Grande Exército Pagão



A maior razão pela qual Assassin’s Creed Valhalla provavelmente se concentrará nos eventos do Século IX é o impacto do Grande Exército Pagão. Na verdade, os vikings se baseavam principalmente em campanhas curtas de saquear e fugir, durante os primeiros anos da Era Viking. Esse estilo aproveitava o máximo de suas habilidades superiores de navegação, focando seus ataques brutalmente eficientes em assentamentos menores e em viajantes que estavam longe demais da segurança.


Embora esse estilo de batalha tenha contribuído para fazer a fama dos vikings, não permitiu exatamente que eles vencessem facilmente grandes batalhas contra forças maiores, tampouco conquistassem grandes territórios Acredita-se que essa seja a principal razão pela qual eles formaram, por volta de 865, o que hoje é conhecido como o Grande Exército Pagão, uma coalizão de guerreiros nórdicos originalmente da Dinamarca e da Noruega.


Acredita-se que o Grande Exército Pagão tenha sido liderado por Ubbe, Hvitserk e Ivar, O Sem Ossos, supostos filhos do lendário (talvez até mitológico) Ragnar Lothbtok. Esses personagens foram retratados na série de TV Vikings, e  possivelmente serão encontrados, ou pelo menos mencionados, no game. A essa altura, todo mundo sabe que Assassins Creed tem o costume de utilizar personagens históricos, mas acontece que durante a Idade das Trevas nem tudo era bem documentado e muitas informações acabavam se contradizendo. Os estudos sobre a época divergem em diversos pontos, e não sabemos ainda como a equipe da Ubisoft irá costurar fatos, mitos e possibilidades para compor a história. 


Uma coisa é certa: Halfdan Ragnarsson, que pode ter sido a mesma pessoa que Hvitserk, certamente figurará na trama, pois historicamente ele foi o grande líder do Grande Exército Pagão em 870 e o primeiro rei viking da Nortúmbria, reino conquistado na Inglaterra.


Hvitserk, Ivar e Ubbe na série Vikings


O nome de “Pagão”, obviamente, foi dado pelos anglo-saxões na época, pois como os povos nórdicos eram politeístas – isto é, acreditavam em várias divindades – eram automaticamente considerados pagãos – aqueles que não foram batizados seguindo os preceitos do judaísmo e do cristianismo.


As campanhas do Grande Exército concentravam-se amplamente na Inglaterra, e os vikings desse exército eram conhecidos por aceitar e violar tratados de paz, o que pode ter dado a eles um elemento adicional de surpresa contra inimigos maiores e mais avançados tecnologicamente.


Os vikings tiveram várias vitórias durante esse período, mas a maré começou a mudar em algum momento nos anos 870, quando Alfredo de Wessex, que viria a subir ao trono no ano seguinte, começou a lançar contra-ataques bem-sucedidos contra os invasores. No final do Século IX, o Grande Exército Pagão foi essencialmente dissolvido e os invasores foram em grande parte dispersos ou se converteram ao catolicismo e passaram a viver na Inglaterra.

Como está inserido em um período que Assassin’s Creed Valhalla cobre, o Grande Exército Pagão provavelmente desempenhará um papel significativo na história principal do game, presumivelmente sendo a facção à qual Eivor, o protagonista, deve lealdade. Não está claro qual o papel de Eivor no exército, embora ele ou ela – dependendo do gênero que o jogador escolha – provavelmente seja de alguma estima, considerando o papel de construir seu próprio assentamento.


Alfredo e o Reino de Wessex


Rei Alfredo de Wessex no trailer do game


O Rei Alfredo é um personagem muito importante na história da Inglaterra. Quando os vikings começaram a invadir e se assentar na Inglaterra, todos os reinos anglo-saxões caíram, um após o outro. O único que sobreviveu foi Wessex, o reino governado por Alfredo. Não apenas sobreviveu, como conseguiu repelir a invasão viking e ainda construir a Inglaterra moderna. É quase certo que a trama de Assassins Creed Valhalla não só mostre a história do protagonista e do Grande Exército Pagão, mas também o desenvolvimento do maior inimigo dos vikings.


O ano de 871 é o ano em que Alfredo, conhecido historicamente como “Alfredo, O Grande”, chegou ao poder. Isso explica por que o vemos fazendo uma proclamação de guerra aos vikings no primeiro trailer de Assassin’s Creed Valhalla. Foi também neste momento que as batalhas entre os vikings e Wessex atingiram um tom febril, já que os dois lados desfrutaram de suas vitórias mais notáveis, enquanto sofreram derrotas históricas na mesma medida.


Cerco de Dumbarton


O Cerco de Dumbarton durou quatro meses em 870, e seria uma incrível abertura para Assassin’s Creed Valhalla. Todos os edifícios de Dumbarton foram destruídos pelos vikings, demonstrando o seu poder destrutivo. Após a vitória, os nórdicos supostamente exigiram 200 botes para transportarem seus homens e despojos de volta a Dublin. O Cerco foi uma grande vitória, que poderia dar aos jogadores uma sensação de poder antes de finalmente chegarem à fatídica derrota na Batalha de Edington, mais adiante no jogo. Seria um bom acontecimento para deixar Eivor confiante e dar mais peso e dramaticidade à sua derrota.


Batalha de Reading


Uma das batalhas que deve estar no jogo é a Batalha de Reading, que marca uma vitória significativa para os vikings em 871, pois provou sua capacidade de defender uma posição fortificada. A batalha seria um evento sólido para o primeiro ato do game, por construir a moral de Eivor com suas tropas, além de ser um excelente momento para se assentar na Inglaterra – afinal, a Ubisoft já garantiu que teremos assentamentos que poderão ser evoluídos em diversos níveis.


Batalha de Edington


Em 878, após os vikings dominarem quase toda a Grã-Bretanha e a liderança passar de Halfdan para Guthrum (que não era filho de Ragnar), eles sofreram uma derrota decisiva na Batalha de Edington, finalmente se rendendo a Alfredo, O Grande. A derrota fez com que os escandinavos sobreviventes se convertessem ao cristianismo e reinassem nas terras ao leste em nome do rei inglês.


Seria interessante testemunhar os efeitos de uma derrota esmagadora em Eivor, fazendo parte da construção do personagem. Considerando a cultura guerreira dos vikings, ver seu exército inteiro sofrer uma derrota e assistir como isso afeta Eivor em um nível individual seria uma perspectiva interessante para o jogo explorar. Mais do que isso, poderia representar um grande ponto de virada na trama ou até mesmo ser o seu desfecho, talvez com o protagonista descobrindo segredos que o fariam mudar de lado em meio ao conflito (Odin TEM o mal costume de acabar se revelando um grande babaca, no fim das contas).



O que é o “Valhalla” do título?


Como já citado, os vikings eram um povo politeísta, acreditando em vários deuses do que hoje conhecemos como “mitologia nórdica”. Dentre esses deuses, destacavam-se Odin e Thor. Odin era para os vikings o deus mais poderoso e sábio, considerado o criador de tudo e referido como o “Pai de Todos”. Thor era o deus do trovão e o mais adorado de toda a Escandinávia. Os vikings acreditavam que parte de seus deuses morava em Asgard, um dos nove mundos existentes em sua crença.


Como um povo guerreiro, os vikings acreditavam que morrer lutando era a maior das honrarias e a melhor das mortes. Por isso, aqueles que morriam em batalha, com sua arma em punho, seriam levados pelas valquírias para o Valhalla, o majestoso salão de Odin, onde festejariam e seriam celebrados ao lado do próprio Pai de Todos e dos outros deuses, com um banquete em sua homenagem e de outros Einherjar, nome dado a esses guerreiros caídos em combate.


Passagem de Tempo e Especulações


Ocorreram muitos eventos, conflitos e batalhas durante a época do Grande Exército Pagão e do período em que os Danes (como os anglo-saxões costumavam chamar todos os povos nórdicos) reinaram sobre parte da Grã-Bretanha. É de se esperar, portanto, que a passagem do tempo (o famoso time-skip) seja uma possibilidade em Assassins Creed Valhalla. Seria bastante possível fazer um jogo todo situado no ano de 870, mas considerando que o protagonista gerenciará um povoado, é de se esperar que o jogador possa ver o tempo passar e suas terras florescerem e se desenvolverem.


Mas qual seria o ponto de parada? A história nos mostra que Alfredo, O Grande, triunfou em seu intento, expulsou os invasores nórdicos e gerou uma linhagem que continuaria a influenciar o destino da Inglaterra. É um fato, portanto, que os invasores vikings serão derrotados em algum momento.


Supondo que Valhalla não terá uma sequência direta, podemos supor duas coisas: ou o jogo terminará em 878, com o protagonista mudando de lado e passando para o lado do Rei Alfredo, contribuindo para a derrocada do Grande Exército Pagão (não muito diferente de Uthred, protagonista da saga Crônicas Saxônicas, e da série The Last Kingdom), ou quem sabe o desfecho ocorra muito depois, no ano de 899, com Eivor abraçando completamente o Credo dos Assassinos, no ano em que Alfredo, ainda que vitorioso em suas guerras, morreu de causas misteriosas…


Fonte: O Vício


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