• Ana Laura Teodoro

Mulan e os protestos de Hong Kong | Boicote ao filme aumenta na Coreia do Sul


Grupos e organizações estudantis da Coréia do Sul iniciaram recentemente protestos contra o filme Mulan, da Disney, em apoio ao movimento pró-democracia de Hong Kong.



O remake live-action de Mulan passou a ser uma questão controversa desde que a estrela Liu Yifei, protagonista do filme, manifestou apoio à Força Policial de Hong Kong e suas ações nos protestos pró-democracia, no final de 2019. A situação em Hong Kong piorou substancialmente desde então e vários grupos na Coréia do Sul reafirmaram agora seu apoio, pedindo um boicote a Mulan.


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Em 1º de Julho, estudantes universitários e grupos cívicos de Seul realizaram um comício na The Walt Disney Company Korea. Um dos objetivos da manifestação era convencer a Disney a cancelar os planos de estreia de Mulan na Coréia do Sul. Em um comunicado, os manifestantes explicaram que a crescente aversão ao filme decorreu de sua atriz principal.


"Como alguém que contribuiu para suprimir o povo de Hong Kong, ela não pode se tornar a protagonista de Mulan". Eles ainda concluíram: "Não há espaço para um filme que feche seus olhos para a violência de Hong Kong na cena cinematográfica deste país, que apoiou o movimento democrático".

Embora os pedidos de boicote tenham começado em Agosto, a Disney permaneceu em silêncio quanto à controvérsia em torno de Mulan até que o ex-CEO da Disney, Bob Iger, expressou que a empresa permaneceria neutra em relação ao assunto. E essa postura da Disney de se curvar ao governo chinês pode ser verificada em diversas outras situações, como no momento em que se afastou e baniu o Winnie-the-Pooh de um site de Hong Kong devido a comparações do mesmo com o presidente chinês.


Além disso, um canal a cabo americano da ESPN (de propriedade da Disney) proibiu qualquer menção à política chinesa ao discutir um tweet pró-HK. A ESPN também reconheceu as reivindicações da China não apenas para Taiwan, mas também para o Mar da China Meridional ao vivo no SportsCenter. E vale ressaltar que, mesmo antes dos protestos recentes de Hong Kong, a Disney estava se curvando à censura chinesa. Por exemplo, em 2016 a Marvel (de propriedade da Disney) censurou o monge tibetano do filme “Doctor Strange” e o transformou em uma mulher branca, porque pelo roteirista do filme: “se você reconhece que o Tibete é um lugar e que ele é tibetano, corre o risco de alienar um bilhão de pessoas que pensam que isso é besteira e arrisca que o governo chinês diga ‘Ei, você conhece um dos maiores países de exibição de filmes do mundo? Não mostraremos seu filme porque você decidiu ser político'.


Nota: o Tibete é uma região que também visa a separação da China, assim como Hong Kong.



Contexto Histórico e Político


Antes de mais nada, cabe lembrar que Hong Kong foi uma colônia britânica por mais de 1 século, após uma concessão do governo chinês. Todavia, em 1984, ocorreu um acordo com a Inglaterra e o território foi devolvido à China em 1997, com a promessa de gozar de "um alto grau de autonomia, exceto em assuntos estrangeiros e de defesa", por 50 anos (ou seja, até 2047).


Entretanto, essa liberdade vem sendo questionada, pois grupos de direitos humanos acusaram o governo chinês de interferir em Hong Kong e atacar liberdades individuais. Isso pode ser verificado em um documento assinado por mais de 50 especialistas em direitos humanos de mais de 27 países, discutido até mesmo na ONU.



Entre os exemplos de autoritarismo chinês, citam-se documentos vazados os quais revelam que mais de um milhão de pessoas de grupos étnicos predominantemente muçulmanos na China foram detidas em campos de reeducação em Xinjiang (que também protesta contra a China) e designadas para trabalhos forçados em fábricas (confira mais detalhes aqui pela Anistia Internacional).


Além disso, a China violou abertamente a promessa de liberdade de imprensa de Hong Kong quando o governo de Pequim anunciou que iria expulsar todos os jornalistas dos EUA e os proibir de reportar na China, Hong Kong e Macau. E isso tudo em meio à pandemia do coronavírus, que teve início no país chinês. Como resposta, The New York Times, The Wall Street Journal e The Washington Post fizeram uma carta aberta solicitando ao Partido Comunista Chinês a revogação da medida. Mas a China respondeu negativamente.


A liberdade de expressão também foi atacada em empresas estatais chinesas (ou financiadas pelo Estado chinês) presentes em Hong Kong, criando-se uma política de medo e ameaças. A companhia aérea Cathay Pacific (patrocinada pelo Partido Comunista Chinês), por exemplo, demitiu funcionários por expressarem opiniões que irritaram as autoridades chinesas. E não foi diferente com as instituição financeiras Bank of Communications, Chiyu Banking Corporation e Wing Lung Bank, a Universidade Hong Kong Baptist, entre várias outras empresas. Acrescentando-se a isso, artistas e escritores dizem que estão sob crescente pressão para se autocensurarem - e um jornalista do Financial Times foi impedido de entrar em Hong Kong depois que organizou um evento com participação de um ativista pela independência da região.



Motivação dos Protestos


O estopim dos protestos foi o projeto da lei conhecida como Lei dos Foragidos ou Lei de Extradição, a qual permitirá às autoridades de Hong Kong, subordinadas à China, extraditar pessoas não apenas para a China continental e Taiwan, mas para qualquer país com o qual ainda não tenham um acordo de extradição. Atualmente, Hong Kong tem acordos do tipo com 20 países, incluindo o Reino Unido e os Estados Unidos. A lei foi proposta pelo chefe do Executivo de Taiwan, Carrie Lam, pertencente ao partido pró-China e eleito por um comitê eleitoral de 1200 pessoas.



A população de Hong Kong teme, portanto, que a nova lei seja usada para que a China aumente seu autoritarismo e ameace os opositores, como já vem sabidamente fazendo mesmo sem esse poderoso aparato judicial.

Outro ponto frequentemente levantado pelos manifestantes é a violência da polícia de Hong Kong, ainda que o próprio governo local afirme o caráter majoritariamente pacífico dos protestos. Líderes de ONGs locais chegaram até a escrever uma carta aberta denunciando os abusos e pedindo o estabelecimento de uma comissão independente de inquérito ao uso da força pela polícia de Hong Kong. Os protestos contam até o momento com 2 mortos e 2600 feridos.



Para apoiar o movimento pró-democracia de Hong Kong, você pode usar as hashtags: #prayforHongKong #antiELAB #FreeHongKong #反送中 #NoExtraditionToChina #LiberateHongKong #FightForFreedom #DemocracyForHK #HKResist #SaveHK #StandWithHongKong #StandWithHK #Shout4HK.


E existem também hashtags de apoio ao boicote a Mulan e à Disney: #BoycottMulan #BoycottDisney.


Mais informações para apoiar os atos estão disponíveis clicando aqui.



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