• Isabelle de Paula

Livro "Tudo o que nunca contei" | Celeste Ng


Escrito pela autora norte-americana Celeste Ng, “Tudo o que nunca contei é um livro sobre família. Com uma maestria sutil, ele aborda diversas questões importantes e delicadas que se mostram ligadas de uma forma quase automática.



Temos 5 personagens centrais: os membros da família Lee. São eles: Marilyn Lee, uma mãe com um sonho antigo, sofrendo por tudo o que poderia ter sido; James Lee, um pai carregado de mágoas retraídas; Nath Lee, um filho ambicioso e sentimental; Hannah Lee, uma filha ignorada, observadora e com uma existência tênue e Lydia Lee, uma filha que os pais pensam conhecer, alguém que carrega nos ombros um peso indesejado.


Acompanhamos a vida de um casal inter-racial, James, que é chinês, e Marilyn, que é branca. A história, que se passa no ano 1977, aborda o preconceito racial nos Estados Unidos sem fazer rodeios - mostra de forma nua e crua o racismo e a intolerância, bem como o impacto e traumas que causam na vida de uma pessoa.


Vemos a preocupação que os pais têm com os filhos de uma forma sufocante, projetando-lhes suas próprias expectativas e sonhos, principalmente em Lydia. James, que sofreu com o racismo e a exclusão, quer desesperadamente que a filha se inclua na sociedade, que tenha amigos e namorados, que seja “como todo mundo”. Marilyn, que teve seu sonho de ser médica interrompido pela vida de mãe, quer desesperadamente que a filha se torne o que ela gostaria de ter se tornado, que a filha se destaque.


A obra possui várias diferentes perspectivas, mas três delas me chamaram a atenção: quem tem todos os holofotes virados para si de forma insuportável; quem recebe atenção, porém sofre por ser ofuscado pela pessoa com os holofotes e quem nunca recebeu atenção alguma e aprende a viver com isso.


A autora traz à tona o fato de nos voltarmos tanto para nós mesmos que nos tornamos cegos às questões de outras pessoas, até mesmo aquelas que amamos. Em uma narrativa não linear – nos levando para o passado e o presente – construímos, destruímos e reconstruímos nossos conceitos sobre todos os personagens, passando a compreendê-los melhor a cada página.


É um livro sobre família, formas de amor, sonhos e preconceito, sobre errar e se perdoar, sobre seguir em frente. Celeste Ng quer, em minha perspectiva, fazer o leitor olhar para trás e questionar, porém, também deixar ir tudo o que não volta e o que não pode mudar. Um livro certeiro para quem ama drama com um quê de mistério.



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