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Hattie McDaniel e sua importância na história do Oscar

Atualizado: Ago 28


Hattie McDaniel... você conhece esse nome? Ela era uma das atrizes de um dos clássicos mais famosos de Hollywood, "E o vento levou", e foi a primeira atriz negra a ganhar um Oscar, em 1940, durante a segregação americana.



História


Hattie era a caçula dos 13 filhos de um casal de escravos libertos. Apesar de não saber ao certo o seu futuro, ela tinha certeza que não queria seguir o caminho que muitas mulheres negras percorriam na época.


Ela então formou um grupo de teatro com dois dos seus irmãos, no qual aparecia sua veia cômica. Segundo a biógrafa Jill Watts, escritora de Hattie McDaniel: Black Ambition, White Hollywood (ambição negra, Hollywood branca), ela era radical em muitos aspectos, chegando a atuar com a cara pintada de branco, algo que nenhuma mulher fazia na época. Mas o crash da Bolsa de 1929 arrasou com tudo na nação americana, acabando também com o espetáculo de Hattie.



Em uma entrevista em 1947 para o The Hollywood Reporter, ela descreveu sua vida durante esse período difícil: “Alguém me disse que no hotel Suburban Inn de Sam Pick procuravam uma assistente para o banheiro feminino. Saí correndo e consegui o trabalho. Uma noite, quando todos os artistas haviam ido embora, o gerente pediu que algum voluntário subisse no palco. Pedi uma canção aos músicos e comecei a cantar. Não voltei a trabalhar nos banheiros. Durante dois anos, protagonizei o espetáculo do lugar.”


No início dos anos 30, a carreira de Hattie estava em ascensão e, por sequência lógica, ela foi parar em Hollywood, encontrando um lugar que não era um mar de rosas para os negros. O código Hays – um sistema de autorregulação dos estúdios para restabelecer a boa imagem de Hollywood, instaurado após a enxurrada de escândalos dos anos vinte – proibia os romances entre brancos e negros e não permitia que estes tivessem acesso a papéis violentos. Os atores negros acabavam ocupando papéis irrelevantes e com frequência sem créditos, como motoristas, garçons, figurantes e especialmente empregados. Mas Hattie dava o melhor de si em cada cena, recebendo um destaque cada vez maior.


O produtor de E o Vento Levou, David O. Selznick, deu a McDaniel o papel de Mammy, uma empregada que estava inserida no clichê de não ter vida à margem de seu amo. Entretanto, Hattie não encarnava os “valores” que se esperavam de uma abnegada criada: ela era sarcástica, altiva, e a única que se atrevia a colocar limites à indomável Scarlett, personagem interpretada por Vivien Leigh.



Em 15 de dezembro de 1939, dia da estréia do filme no Loew’s Grand Theatre, em Atlanta, limusines desfilaram na rua principal, recepções atraíram convidados, e houve um baile à fantasia. Mas por conta da lei Jim Crow, que impunha a segregação dos negros nos espaços públicos e continuava vigente no Sul, Hattie McDaniel não pôde comparecer à estreia.



Apesar disso, Hattie foi nomeada ao Oscar. Em 29 de fevereiro de 1940, ela era a única mulher negra da sala, e a primeira afro-americana a comparecer aos prêmios da Academia como convidada, e não como empregada. Selznick tivera que pedir autorização especial, já que a Califórnia também era um estado segregado na época . Quando Fay Bainter leu seu nome naquela noite , foi aberta uma porta para as futuras gerações.


Em seu discurso, ela falou “Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, membros da indústria cinematográfica e convidados de honra, este é um dos momentos mais felizes de minha vida, e quero agradecer cada um de vocês que me selecionaram a um dos seus prêmios por sua gentileza. Isso me fez sentir muito, muito humilde; e sempre o erguerei como um farol para qualquer coisa que eu possa fazer no futuro. Espero sinceramente ser sempre motivo de orgulho para a minha raça e para a indústria cinematográfica. Meu coração está pleno demais para lhes dizer como me sinto, e posso dizer obrigada e que Deus os abençoe.



No final da carreira, McDaniel voltou para o rádio. Era a primeira vez que uma mulher afro-americana protagonizava um programa de rádio e ganhava com ele mil dólares por semana. Foi um sucesso efêmero: pouco depois de assinar o contrato, detectaram um tumor em seu peito.



Ela morreu em 26 de outubro de 1952, aos 57 anos. No testamento, ela pediu duas coisas: ser enterrada no cemitério Hollywood Forever e que seu Oscar fosse entregue à Universidade Howard. Mesmo após a sua morte, a vida lhe colocava barreiras: o cemitério Hollywood Forever não aceitava negros, por mais famosos que fossem. Seu corpo foi enterrado no campo de Angelus-Rosedale, e seu Oscar está perdido até hoje.


Legado


A magnitude de seu triunfo levaria anos para ser revelada, mais precisamente quase um quarto de século, até o ator Sidney Poitier receber a estatueta por Uma Voz nas Sombras.



Apenas 2% dos artistas negros conseguiram conquistar a estatueta por produção ou atuação, e entre eles apenas oito atrizes negras receberam o prêmio: Whoopi Goldberg, Halle Berry, Lupita Nyong'o, Viola Davis, Jennifer Hudson, Octavia Spencer , Mo’nique e Regina King. Isso mostra que, mesmo com a porta aberta, ainda há muitas barreiras a serem quebradas.



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