• Yuro

Guia de leitura Otageek | Demolidor


Como ler quadrinhos? Onde começar? Os personagens estão aí há tantos anos, eu preciso ler tudo isso?



Bom, essas são dúvidas recorrentes para aspirantes à leitores. É muito comum pessoas se verem com dificuldades em como começar a leitura de HQs. É preciso ler o que estava antes? Ou dá para começar de agora?


Bom, meus amigos, hoje irei te ajudar com isso! E vamos começar com nosso amigo Demolidor.



Particularmente, eu creio que a melhor maneira de começar a ler HQs é simplesmente indo em uma banca, comprando alguma que te chamou atenção e pronto. Aquilo que aconteceu antes, você vai descobrindo com o tempo através de leituras de clássicos e acompanhando fóruns e sites como o Otageek. Foi assim que eu fiz (claro, nesse tempo, o Otageek ainda não estava aqui para me ajudar, então valorize a gente)!


Mas eu entendo que isso pode ser desanimador para novatos, uma vez que quadrinhos são, sim, sequenciais e fatos que aconteceram há 3 décadas atrás ainda podem fazer muita diferença no entendimento de uma nova saga ou de um personagem. Então, como começar a ler quadrinhos?


É aí que entram os Guias de Leitura. Listas feitas por fãs para te ajudar. Ou seja: uma listagem de tudo aquilo que é essencial à mitologia de um herói. Não existe lista certa ou errada e as HQs presentes em cada uma vão variar de acordo com a opinião da pessoa que criou a lista. É possível achar vários desses guias de leitura na internet, de qualquer personagem que você imaginar.


E, para facilitar para você, jovem leitor, vou fazer um guia dos principais momentos das HQs.


Para começar, vamos com um dos personagens mais aclamados no mundo dos gibis, o Diabo da Guarda, o Demônio de Hell’s Kitchen, o Guardião da Cozinha do Inferno, Daredevil, Matt Murdock, Demô, Homem sem medo: o Demolidor, é claro!



Então se você conhece algum fã da finada série do personagem (que saudade!), manda essa lista para ele(a)! Ou se você quer começar nas HQs, aqui está uma oportunidade de entrar de cabeça em grande estilo e ótima companhia!


Ah, vamos manter o texto com o mínimo de spoilers possível (mas vou ter que contar ao menos o plot de cada história citada, sempre de uma maneira que não estrague suas surpresas e experiência de leitura).


Sem mais delongas, segue aqui as histórias essenciais do Demolidor!


Início da carreira

O início da vida heroica de Matt Murdock é conturbado. Ainda adolescente, foi cegado por conta de produtos químicos que caíram em seus olhos ao salvar um senhor de um atropelamento. Mas, para sua surpresa, esses isótopos radioativos que lhe tiraram um sentido, ampliaram os 4 restantes. Agora ele conta inclusive com um tipo de radar que o ajuda a localizar qualquer pessoa em um raio de quilômetros.


Após seu pai Jack “Batalhador” Murdock ser morto pela máfia, Matt assume o nome Demolidor e sai à caça dos criminosos do bairro Cozinha do Inferno usando... uhm... uma roupa amarela?



Talvez muitos não saibam, mas, originalmente, o personagem usava esse uniforme amarelo e vermelho (que posteriormente foi adotado pelo herói de terceira divisão Demolição, que usa também uma máscara bem próxima à do Wolverine).



Outra curiosidade é que o nome Daredevil (nome original do herói, em inglês) tem como tradução algo como “ousado”, pois eram chamados ousados os artistas que arriscavam suas vidas em apresentações perigosas na beirada de prédios ou em cordas-bambas.



O nome também foi usado na Era de Ouro dos Quadrinhos (1938-1956) por um outro personagem, um herói da Lev Gleason Publications que recentemente caiu em domínio público e voltou a ser publicado pela Dynamite Comics. Esse Daredevil não tem nada a ver com Matt Murdock e seu nome foi usado intencionalmente no herói da Marvel (era comum que heróis da Era de Prata [1956-1973] usassem nomes de personagens aposentados). Mas isso é assunto para outro texto.



Bom, existem 3 versões da origem do personagem. Alguns pontos nelas se contradizem, mas vamos listar as 3.


Origem oficial - Daredevil #1 - #10 (1964)



As primeiras edições do personagem são essenciais para conhecer o início oficial do herói. Aqui vemos os primeiros passos de Matt na carreira de advogado e na carreira de herói ao lado de seu fiel amigo Foggy Nelson e de sua paixão Karen Page.


A primeira edição foi escrita por Stan Lee e desenhada por Bill Everett (legendário artista dos anos 30 e 40, criador do Namor, o Príncipe Submarino), com auxílio do gigante Jack Kirby (que criou o bastão do personagem). Artistas como Sol Brodsky e o outro gigante Steve Ditko também participaram das primeiras edições. Na edição 7 da revista, o clássico uniforme todo vermelho é introduzido, sendo criado por nada mais nada menos que Wally Wood, outro monstro dos quadrinhos dos anos 50.


Acho que as 10 primeiras histórias da revista são ótimas para quem quer conhecer a raiz do personagem e como ele foi concebido originalmente. O tom ainda é ligeiramente mais alegre, longe daquela tensão habitual do personagem e, além de apresentar alguns personagens interessantes, essas primeiras histórias mostram o início do clássico uniforme vermelho.


Para quem não está acostumado, um capítulo/edição de HQ mensal costuma ter algo em torno de 22 páginas e eram feitas para serem consumidas rapidamente. São histórias um pouco datadas pelas visões narrativas de hoje, mas que ainda são ótimas e que valem muito a pena serem lidas.


O Homem sem Medo



Frank Miller é provavelmente o escritor mais aclamado do personagem, criando verdadeiros clássicos nos anos 80. Em 1994 ele voltou ao Demolidor com a minissérie "O Homem sem Medo".


Ao lado do desenhista John Romita Jr., Miller nos conta aqui outra visão da origem do Demolidor. Nada de um mundo bonito e alegre dos anos 60: aqui temos o Demolidor que o Frank estabeleceu como o ideal, um personagem duro em um mundo triste. Essa origem do personagem é crua e séria. Não vemos um uniforme amarelo. Aliás, nem o vermelho: apenas o uniforme caseiro e improvisado preto, igual na série de TV.


Muita coisa da série veio desse quadrinho, na verdade. Vemos aqui até o início da rivalidade do personagem com um de seus maiores inimigos.


Diversos pontos do "Homem sem Medo" se contradizem com a versão oficial de Lee. Isso acontece porque Frank Miller mudou muita coisa da história do personagem em sua passagem por ele, então essa origem meio que corrobora com sua visão do personagem.

E é a melhor história de origem para o Demônio da Cozinha do Inferno.


Demolidor: Amarelo



Escrita por Jeph Loeb e desenhada pelo grande Tim Sale (a mesma equipe por trás dos clássicos "Batman: O Longo dia das Bruxas" e "Homem-Aranha: Azul"), essa versão da origem do personagem é mais próxima da original (Lee e Everett) e mostra o Demolidor dando seus primeiros passos como herói usando seu uniforme amarelo original.


A arte de Sale é, como sempre, linda. Com essas 3 versões, você pode escolher qual origem ler ou ler todas e aproveitar diferentes visões do personagem.


São Francisco



Não é uma história de origem, mas como faz parte dos primórdios pré-Miller do personagem, vamos lembrar aqui da passagem por São Francisco.


Em 1972, na edição 86 do personagem, o escritor Gerry Conway (o pai do Justiceiro e o assassino de Gwen Stacy), que estava à frente do título, fez o personagem se mudar para cidade da Costa Oeste dos EUA. Viúva-Negra, namorada do herói na época, se muda com ele. Por um tempo, o título do personagem deixou de ser apenas “Demolidor” e se tornou Demolidor e Viúva Negra, mostrando a importância da heroína na vida de Matt.


Curiosamente, nos anos 70, houve um produção para um possível série da Viúva-Negra estrelada por Angie Bowie (primeira esposa de David Bowie). Na série, o Demolidor não apareceria, apesar de um ator vestido como o Demônio de Hell’s Kitchen aparecer nas fotos de divulgação. A série, no entanto, nunca foi ao ar.



Essa fase das HQs é até longa e pode ser conferida dos títulos Daredevil #86 até Daredevil #124.

Frank Miller

Aqui temos o grande divisor de águas do personagem. Apesar de algumas boas histórias pregressas, muito do Demolidor até então era genérico. Uma versão menos popular do Homem-Aranha, por assim dizer. Mas aí veio Frank. O autor começou, porém como desenhista. Até que, no início dos anos 80, assumiu como roteirista e desenhista e assim mudou tudo.


O Demolidor de Miller foi o primeiro herói realmente sombrio e com histórias de fato adultas do mainstream de heróis. Sabe os elementos que deixaram Miller famoso em “Batman - O Cavaleiro das Trevas”? Então, ele fez primeiro (e melhor!) em sua passagem no Demolidor.


Muito do clima tenso, real e perigoso da série de TV veio de sua passagem no personagem, e eu realmente indico que você leia toda essa run. A maioria dos personagens secundários e vilões clássicos de Demô vieram daqui.


Mas, para os apressadinhos, segue aqui os arcos mais importantes da fase Miller.


Saga de Elektra



Na minha história preferida do personagem, vemos o relacionamento conturbado de Matt com a ninja assassina Elektra Natchios. Quando essa mulher sexy e perigosa retorna, anos depois, Demolidor se vê em uma saga de vida ou morte entre ela, Rei do Crime e o clã de assassinos Tentáculo.


Elektra Assassina



"Elektra Assassina" é um tipo de spin-off sem o Demolidor, mas que faz sentido ser incluído aqui por fazer parte do microverso do personagem.


Aqui vemos uma história que se passa antes da Saga de Elektra, mostrando a Ninja numa trama que envolve política, assassinatos e muita, muita loucura.


Além do roteiro de Miller, a arte é feita pelo grande Bill Sienkiewicz. Cada página é um show à parte.


Elektra Vive



Outro spin-off da Ninja assassina mais querida da Marvel. Sem muitos detalhes, para evitar spoilers, podemos definir a história como: Elektra está de volta e vai deixar a vida de Matt Murdock um caos. De novo.


Amor e guerra



"Amor e Guerra" é uma graphic novel (ou seja, uma história fora do título mensal do personagem) escrita por Miller e também lindamente desenhada por Sienkiewicz. Aqui vemos um conto do Demolidor em choque contra o Rei do Crime.


Porém, talvez seja Wilson Fisk o protagonista da história, onde vemos até onde ele vai para proteger sua amada.


Será que o Rei tem coração?


A queda de Murdock



Para muitos, a melhor história da fase Miller. Para outros, a melhor do personagem. Não é difícil achar alguém falando que"A Queda de Murdock" é a melhor história da Marvel.


Esse clássico, escrito por Miller e desenhado por David Mazzucchelli ("Batman: Ano Um") é realmente uma HQ incrível e indispensável para qualquer leitor, até para os que não são chegados no Demônio.


O que aconteceria se seu maior vilão descobrisse sua identidade secreta e atacasse sua vida pessoal e não seu super-ego? Leia "A Queda de Murdock" e descubra!

Fim dos anos 80 – anos 90

O fim dos anos 80 e os anos 90 contam com grandes histórias para o personagem e outras nem tão boas assim (a maior parte é boa: Demolidor geralmente é visto como um personagem que tem a maior quantidade ótimas fases do mainstream de HQs). Os destaques são para Ann Nicetti e Kevin Smith.


Fase Ann Nocenti



Após a saída de Frank Miller, coube à Ann Nocenti a difícil missão de substituir o autor preferido dos fãs. No entanto, ela não deixou a desejar: sua run no personagem é aclamada e repleta de boas histórias.


Ela, ao mesmo tempo que manteve o ar sombrio e real do herói, por vezes adicionou uma carga dramática e filosófica em tudo, trabalhando com o homem atormentado que Matt é. Mas, pela primeira vez, ela fez o Homem sem Medo entrar de cabeça no universo Marvel, fazendo-o lutar contra ameaças não urbanas, como demônios reais e linkando suas histórias com o resto da editora, como em sagas dos X-Men (em retrospecto, o Demô não interagia muito com outros heróis ou acontecimentos da editora).


Ao lado do desenhista John Romita Jr., criou personagens como o monstruoso Blackheart e a vilão e amante Mary Tyfoid (sim, o Demolidor tendo um caso com mais uma assassina. Provavelmente ele gosta de apanhar de mulher bonita...).


A Queda do Rei do Crime



Apesar de não ser a história mais famosa e aclamada do personagem, após a ótima fase de Ann Nocenti, o escritor D.D. Chichester ao lado do grande artista Lee Weeks nos traz o enfim acerto de contas entre Demolidor e o Rei.


As consequências desse arco reverberaram na vida do vilão por anos à fio.


O Diabo da Guarda



Iniciando o selo Marvel Knights (histórias de ação para um público mais velho), o cineasta Kevin Smith iniciou sua jornada como roteirista ao lado do desenhista (e futuro editor-chefe) Joe Quesada.


Em "O Diabo da Guarda", Matt Murdock recebe um bebê que, aparentemente é um enviado de Deus. Quando um Profeta é confiado à um Demônio, o que pode acontecer? E quem é o vilão secreto que, no meio disso tudo, quer ferrar com a vida do nosso querido herói?


A história, além de ser muito boa, tem um acontecimento que assombra a vida de Murdock até hoje.

Anos 2000

Nos anos 2000, duas fases são primordiais (e sequenciais, sendo consideradas runs irmãs e complementares): a fase Bendis e a Brubaker.


Fase Bendis Bendis



Brian Michael Bendis deixou sua marca no personagem em uma aclamada fase ao lado do grande desenhista Alex Maleev. Com uma run bem “dark”, Bendis recuperou muito do clima da fase Miller, porém em uma roupagem moderna.


E se Matt Murdock ocupasse o lugar do Rei do Crime? Isso e muito mais nos aclamados arcos "Revelado", "O Rei da Cozinha do Inferno" e "Decálago".


Fase Brubaker



Ed Brubaker é um dos meus escritores preferidos e sua fase no Demolidor é a que me fez amar o personagem. O clima noir e as histórias urbanas de crime combinam com tudo que o personagem representa. Grandes artistas, como Michael Lark, deixam esse período do herói ainda melhor.


E tudo começa com Matt na cadeia, preso acusado de ser o Demolidor! Precisa de mais?


Demolidor: Redenção



Produzida por David Hyne e pelo grande desenhista Michael Gaydos, "Redenção" é uma minissérie que foge do tradicional, levando o personagem ao sul dos EUA para investigar um caso de assassinatos de crianças por um suposto membro de um culto satânico.


Surpreendente e ousada, "Redenção" é uma das melhores histórias do personagem fora do título mensal do herói.


Demolidor e Capitão América – Dupla Morte



"Dupla Morte" é uma graphic novel que não faz parte da cronologia oficial do personagem. Não é uma das histórias mais aclamadas do Demô, mas é digna de lembrança por ser diferente do tradicional: se trata de uma HQ produzida em parceria da Marvel com a Panini Comics italiana.


O roteiro por Tito Faraci e a arte de Claudio Villa (dos quadrinhos de Tex) transformam esse conto de super-heróis em uma HQ muito mais próxima da tradição europeia de quadrinhos. O clima é diferente não só do Demolidor, mas também dos comics norte-americanos em geral.


Na trama, Demolidor e Capitão América se unem após um antigo vilão do Demônio de Hell’s Kitchen, morto na fase de Frank Miller, retornar do além.

2010 – atualidade


Terra das Sombras



Não é uma de minhas histórias preferidas do Demolidor, mas com certeza tem grande importância. Matt Murdock como um novo Rei do Crime? Ninjas? Um herói possuído por um demônio? Um grupo de heróis urbanos e sombrios em um evento grandioso dos quadrinhos? Esses são os ingredientes de "Guerra das Sombras".


Aqui também temos a consolidação do uniforme negro do personagem. Não o uniforme “caseiro” da série ou de "O Homem sem Medo": vemos nessa HQ uma versão ainda mais sombria do traje do Demônio, que o acompanhou por bastante tempo.


Fim dos Dias



Marcando o retorno de Bendis (com ajuda de David Mack), de Klaus Janson (arte-finalista da fase Miller, aqui como o desenhista) e Bill Sienkiewicz (nas cores) "Fim dos Dias" trata de um tema definitivo: a morte do Demolidor.


Calma, isso não é spoiler e sim o conceito básico da história. O importante é a investigação do repórter Ben Urich sobre o fato. Qual a verdade sobre os últimos dias do Demolidor?


Aliás, ainda há discussão se a história é não-canônica ou se faz parte de um possível futuro do personagem. E aí, o que você acha?


Fase Waid



O grande escritor Mark Waid, ao lado do incrível artista Chris Samnee, levou o Demolidor até um caminho diferente. Pela primeira vez desde a Era de Prata, o Demolidor teve a chance de ser feliz novamente.


Essa run é incrível e traz de volta muitos elementos dos anos 60 e 70, incluindo um Matt Murdock vivendo em São Francisco de novo.


A arte mais limpa é um respiro em todo o turbilhão sombrio do personagem e essa fase merece ser lida por inteiro.


Fase Soule



Acompanhado de grandes ilustradores como Ron Garney e Phil Noto, Charles Soule trouxe de volta os elementos mais “dark” do personagem. Política, uma mudança profissional para Matt, o uniforme negro, surpresas familiares e experiências de outro mundo se misturam nessa run do personagem.


Apesar de não contar com o glamour de algumas fases anteriores, a “Era Soule” é muito boa e conta com um final espetacular.


Fase Zdarsky



A fase atual do personagem! Indicada ao Eisner (o “Oscar” dos quadrinhos), o momento atual do personagem é grandioso. Matt se encontra desiludido após os eventos da fase Soule e, em meio ao seu descontrole, pode ter matado alguém. Mas é isso mesmo? Ou tem alguém armando para o Sr. Murdock?


Esse é o arco inicial que levou até uma série de eventos que faz o Demolidor de Chip Zdarsky (acompanhado de ótimos artistas como Marco Checcetto, Julian Tedesco e Jorge Fornés) ser um dos melhores quadrinhos lançados na atualidade.



Bom, esse foi o guia de leitura do Demolidor. Material não falta, né? Só me resta desejar uma boa leitura! Continue (ou comece) lendo quadrinhos!


Leia também:



E aí, você quer um guia de leitura de qual personagem? Fala para gente aqui nos comentários!


Te convido ainda a ler nossos outros textos e ouvir o nosso podcast!


Apoie o Jornalismo Cultural independente seguindo o Otageek no Twitter, no Facebook e no Instagram.
otageek amazon prime .jpg