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Entrevista com o ilustrador Ilson Rodrigues


Recentemente, a banda Detonautas, um dos expoentes do rock nacional nos últimos anos, chamou muita atenção ao lançar o clipe da música Carta ao futuro. A música fala muito de política em uma ótica (nem tão) distópica, misturando muito bem supremacistas de extrema-direita com zumbis. E o que mais chama atenção é o clipe: todo feito em animação, o que deixa o clima da obra ainda mais interessante.


Hoje vamos conversar com o principal ilustrador por trás do clipe, Ilson Rodrigues, de Uberlândia - MG.



Primeiramente, vamos conferir o videoclipe!



E agora que você assistiu o incrível trabalho de Ilson junto ao Detonautas, dê uma conferida em mais de suas artes no Instagram e vamos conversar com o artista!



Otageek - Como foi trabalhar com o Detonautas, uma das bandas mais importantes do rock nacional?


Ilson - Muito daora! Desde o início, o contato com a banda e com os outros artistas envolvidos, tudo fluiu tudo muito bem. As ideias estavam bem alinhadas, com todo mundo bem animado pra execução do projeto, e o resultado final agradou muito. Acho que conseguimos transmitir essa mensagem importante, pra esses tempos difíceis que estamos vivenciando.


Otageek - O contato com a banda foi por acaso, ou você já conhecia o Tico e o resto do pessoal?


Ilson - O contato veio por uma agência de publicidade que já atendiam eles, a Seven Digital Content, e o Barão, que é o responsável por esse atendimento com o Tico me chamou pra participar do projeto. Então eu chamei mais dois ilustradores, o Anderson e o Alexandre, para completarem o time.


Otageek - Ilson, você também é músico, certo? Como a música influencia sua ilustração?


Ilson - Sim! Sou baterista desde a infância. Isso me influência diretamente nos meus trabalhos, muitas ilustrações que pego são relacionadas a música, como materiais de bandas, pôsteres de eventos musicais, camisetas de bandas, etc. Hoje em dia acaba sendo a maioria dos meus trabalhos e é um tema que gosto muito de trabalhar, por ser algo que sempre estive relacionado e procurei estar envolvido.


Otageek - E como a ilustração entrou em sua vida?


Ilson - Desde criança sempre gostei de desenhar. Quando estava terminando o ensino médio, estava pensando em fazer alguma faculdade que se aproximasse um pouco disso, de poder trabalhar com desenho, então acabei cursando publicidade. No decorrer do curso fui ficando meio desanimado de trabalhar na área, pois o que queria mesmo era trabalhar com arte. Então fui vendo que existe todo um mercado de ilustração e desde então fui procurando saber mais a respeito, conhecendo ilustradores, artistas, fazendo cursos, e comecei a levar o estudo do desenho como algo mais a sério. Os trabalhos foram aparecendo aos poucos, fui me aprofundando cada vez mais e hoje em dia a maioria dos projetos que pego são de ilustração.


Otageek - Qual suas maiores inspirações e influências? Tem alguma HQ que te inspira, ou algum ilustrador de HQs que é seu preferido?


Ilson - Tenho muitas. Gosto muito de ilustradores de HQ’s, mangás, ilustrações psicodélicas dos anos 70, sci-fi, filmes como Star Wars, surrealismo, arte de pôsteres de bandas, animações dos anos 90 e sempre gostei muito de videogame, sempre fui fascinado com isso. Alguns artistas que são uma forte influência pra mim: Todd Mcfarlane, Katsuhiro Otomo, Akira Toryama, Márcio Abreu, Moebius, Cristiano Suarez, Jozan Gonzales, Jack Kirby, Jen Bartel, Mike Deodato, Karl Kopinski, Wally Wood, entre outros que não lembrei agora.


Atualmente meu ilustrador preferido de Hq’s é o Márcio Abreu (@marcioabreuarte). Ele tem um trabalho de anatomia e composição incrível. E Sobre Hq’s que me inspiram, recomendo muito ler o Akira, que é uma mangá do Katsuhiro Otomo. Ele é bem conhecido e tem um filme de animação, que recomendo muito assistir também. Já de Hq’s recomendo muito ler o Watchmen um clássico do Alan Moore e Dave Gibbons. Também sempre li muito as Hq’s de Star Wars, foi o que despertou meu gosto por história em quadrinhos, além de achar os desenhos incríveis.


Otageek - Existem diversos tipos de arte, seja na ilustração tradicional quanto na ilustração digital. Podemos falar de estilo de quadrinhos, cartoon, mangá, pintura realista e muitos outros. Qual seus estilos de desenho preferidos para criar?


Ilson - O foco do meu trabalho é na ilustração digital, porém nos meus estudos, tento sempre estudar nos meios tradicionais, pois para ser um bom ilustrador, é indispensável manter uma prática e constância nos fundamentos de desenho como composição, observação, anatomia, perspectiva, luz e sombra, design, etc. Meu trabalho mantém uma estrutura mais “realista" como nos quadrinhos americanos, e não costumo fazer desenhos mais "cartunizados".


Otageek - Seu trabalho do clipe da música é bastante político. Como você percebe a situação política no país (e no mundo) influenciando a arte? São tempos difíceis para artistas?


Ilson - A ideia do projeto era transmitir exatamente essa indignação sobre o momento político do País, transmitir toda a indignação da população relacionado a omissão deste governo atual sobre a situação em que estamos vivendo. Acho de extrema importância artistas com relevância nacional se posicionarem a respeito, pois isso leva ao questionamento. Espero que este projeto possa contribuir em levar outros artistas a também se posicionarem a respeito. Se já era difícil, agora com essa pandemia, o desprezo da arte pelo atual governo com certeza pode estar mais difícil. Mas o artista sempre consegue se reinventar, e nesses tempos difíceis acredito ser de muita importância o artista procurar aprender novos meios de trabalhar com sua arte, se atualizando e buscando novas oportunidades.


Otageek - O seu trabalho com o Detonautas pode abrir as portas para mais clipes animados, né? Como é ser uma influência para novos ilustradores e animadores?


Ilson - Com certeza. Por ser uma das bandas mais influentes do rock nacional, a visibilidade do clipe foi bem alta. É algo muito gratificante ter um trabalho com alta relevância a ponto de poder ser inspiração para outros, e fico muito feliz em poder de alguma forma influenciar pessoas que estão começando por este caminho a ter um animo para seguir na jornada da arte, que não é nada fácil (ainda mais nesses tempos).


Otageek - E sobre os outros artistas que trabalharam com você no clipe, como foi a interação entre ilustradores com estilos variados e ideias diferentes? Você acha que influências distintas e artistas diferentes em um mesmo trabalho levou a produção do clipe para um caminho novo? Como foi essa mistura de ideias e trabalhos?


Ilson - A interação foi ótima, desde o início estávamos com as ideias bem alinhadas, o que ajudou em muito para a produção das ilustrações. Eu também já havia trabalhado com um deles em outros projetos, o Anderson, no caso, e o Alexandre eu também já conhecia a algum tempo, assim como o trabalho dele, ao qual achei que encaixaria muito nesse projeto. Com certeza! Pois uma animação tem uma alta demanda de ilustrações, sendo preciso muitos ângulos diferentes, cenários, personagens, perspectivas, etc. Cada um com suas distinções foi essencial para a composição das variadas cenas em um mesmo contexto, e como estávamos sempre alinhando os esboços e as ideias, no final ficou tudo muito bem encaixado.


Otageek - E agora, quais as novidades? Algum futuro projeto que possa compartilhar com a gente?


Ilson - No momento estou trabalho em alguns rótulos de cervejas e em uma capa de EP para uma banda, estou também vendo a possibilidade de fazer uma exposição online com algum tema relacionado ao isolamento. Também espero ter mais oportunidades de trabalhar com animações e videoclipes para outras bandas no futuro.

É isso, pessoal! Esse foi o grande Ilson! Acompanhe a arte desse artista incrível em seu perfil do Instagram!


Continuem ilustrando, lendo quadrinhos e até o próximo texto!


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