• Beatriz Cintra

Entrevista com Mauricio de Sousa - O criador da Turma da Mônica

Atualizado: Jul 16

Em entrevista concedida ao Otageek, Mauricio de Sousa fala sobre a importância da leitura e quais impactos a Turma da Mônica gera na vida das crianças que crescem acompanhando a turminha.



Mauricio Araújo de Sousa, criador e desenhista da Turma da Mônica, nasceu em Santa Isabel (SP), porém passou a maior parte da sua infância em Mogi das Cruzes, onde começou a desenhar nos cadernos escolares.


Aos 19 anos se mudou para São Paulo e, após não ter conseguido o cargo como desenhista da Folha de São Paulo, começou a atuar como repórter policial. Durante esse tempo criou seu primeiro personagem - o cãozinho Bidu.


Mauricio então passou a produzir uma série de tirinhas que eram publicadas semanalmente pela Folha da Manhã, com os personagens Bidu e Franjinha. E assim se deu o início de sua carreira.



Entrevista com Mauricio de Sousa


A revista da Turma da Mônica se perpetua de geração em geração apesar das mudanças de consumo que ocorrem ao longo do tempo. A que se deve esse sucesso e consistência do desenho por tantos anos?


O sucesso não é algo programado. Ele acontece depois de muito trabalho e persistência, acompanhado de boa qualidade. Creio que quando criei a turminha baseada em amigos e depois em meus filhos e filhas, achei uma fórmula de identificação com o público leitor que nunca se desfez. Assim são 60 anos de trabalho constante e sempre com novas ideias.


É possível ver nos personagens uma grande representatividade, que tenta abranger todas as crianças que assistem ou leem o desenho. A partir de qual momento você enxergou a importância de ter personagens portadores de deficiência e de outras raças e etnias?


Sempre procuramos colocar ideias de inclusão e solidariedade em nossas historinhas. Então foi algo natural que em algum momento criássemos personagens com alguma deficiência para participarem das histórias. Nos anos 90 começamos a criar personagens como o Luca (deficiente físico), a Dorinha (deficiente visual), o André (autista), Tati (Síndrome de Down) e até o mais atual que é o Edu (distrofia muscular de Duchenne). São alguns deles porque sempre estamos consultando especialistas para passar informação correta e necessária para que as crianças saibam mais e passem isso para seus pais.



Nós sempre vemos a Turma da Mônica retratando assuntos de importância social e se posicionando a respeito. Qual impacto você acredita que esse tipo de conteúdo gera na vida das crianças que acompanham a turma?


Nosso primeiro foco é levar divertimento e lazer para as crianças. Mas sabemos que estamos estimulando milhões de crianças a gostarem de ler. Enquanto a leitura digital aumenta nós ainda temos cerca de 10 milhões de leitores/mês de nossos gibis impressos. Isso porque a leitura digital vem da nuvem e criança gosta de ter a sua revista em sua mão e colecionar. Então o impacto é de criar na criança a vontade de se alfabetizar e ler.


Através do projeto Graphic MSP ocorreu uma abertura no espaço do mercado brasileiro de quadrinhos para novos artistas apresentarem o seu trabalho. Como surgiu essa ideia e o que te motivou a tomar essa decisão?


O meu editor dessa área de projetos especiais, Sidney Gusman, veio com a ideia de fazer uma homenagem aos personagens e a mim com livros onde vários desenhistas brasileiros dariam sua versão, em estilo e história, para meus personagens. Foi a série MSP 50, com três edições. Vimos muito material criativo e desenhos lindos, foi um passo para escolhermos alguns desses desenhistas para desenvolverem suas graphic com a Turma da Mônica. O resultado está aí, com dezenas de novos autores produzindo material que está virando filmes e animações, como "Laços", dos irmãos Vitor e Lu Cafaggi, "Astronauta - Magnetar", de Danilo Beyruth, e outros que virão a seguir. Em 2019, a graphic "Jeremias - Pele", dos autores Rafael Calça e Jefferson Costa, ganhou o maior prêmio da literatura brasileira, o "Jabuti".



Como você trabalha com a questão de ser uma marca com produtos voltados para o público infantil e quais são as preocupações que existem a este respeito?


Nossa responsabilidade aumenta a cada dia pelo sucesso que essa turminha tem há gerações. Portanto, escolher qualquer produto para ter nossos personagens na embalagem precisa ser de primeira qualidade. Recusamos muitos pedidos por ter esses critérios mais exigentes.


A Turma da Mônica foi responsável por ajudar no processo de alfabetização de milhares de brasileiros. Como você encara esse legado, sabendo que marcou a infância de tantas pessoas e ensinou algo tão valioso, que é a leitura?


A leitura é a uma das maiores experiências que um ser humano pode ter. Foi assim que aconteceu comigo, quando aos 4 anos de idade encontrei uma revista de quadrinhos meio rasgadinha na rua e levei pra casa. Adorei tanto ver aquelas figuras que meus pais trouxeram mais. Mas eu não queria esperar eles terem tempo para ler pra mim e pedi para minha mãe me ensinar a ler. Em três meses eu já estava lendo meus gibis. Depois o tempo foi passando e comecei a me interessar por livros. Na juventude cheguei a ler um por dia. E hoje estou aqui contando pra vocês no que deu aquele primeiro estímulo. Isso acontece com meus leitores hoje em dia também.




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