• Yuro

E se "Watchmen" ficar melhor sem Alan Moore?


Eu sei. Sei o que está pensando. “Como assim Watchmen é melhor trabalhado sem seu criador original? Isso é desrespeitoso”. Sim, por muito tempo eu pensei isso quando via material novo sobre esse universo sendo produzido por terceiros. Mas então eu percebi que o legado de Dr. Manhattan e companhia está, na verdade, indo muito bem, obrigado. E hoje, vamos falar sobre isso.



Primeiro, vamos lembrar que esse post não é, de maneira alguma, uma crítica à obra de Alan Moore (ou ao escritor como um todo, já que sou seu ) e que tudo aqui é opinião desse que vos fala. Sinta-se livre para discordar de mim de forma respeitosa nos comentários.


Bom, dito isso, vamos analisar um pouco a importância e qualidade das “sequências de Watchmen”. Diria que após a série homônima ter levado 11 Emmys (incluindo melhor minissérie), com o lançamento do quadrinho Rorschach (do escritor Tom King) se aproximando e com uma polêmica entrevista do próprio Alan Moore em que o autor detona todo o mercado de super-heróis, esse é o momento apropriado para falar desse universo. Só para lembrar, teremos spoilers de todas as obras citadas.


Tic Tac Tic Tac...

É 1986. Eu vejo Watchmen ser publicado pela primeira vez


Muitos vão discordar, mas ao menos para mim, os anos 80 foram a melhor época dos quadrinhos. Vamos traçar um parâmetro histórico.


A Marvel Comics arrasava com algumas das melhores runs já vistas no mundo dos heróis (Thor de Walt Simonson, Demolidor de Frank Miller, X-Men de Chris Claremont) e com algumas das histórias que redefiniram o universo das HQs como a Saga da Fênix Negra e, mais para o fim da década, A Última caçada de Kraven.


A DC Comics, por outro lado, também publicava grandes histórias (como O Contrato de Judas e Crise nas Infinitas Terras), mas o que chamava atenção na editora eram as obras fora da continuidade ou até mesmo fora do universo de heróis que eles trabalhavam. Como destaque, podemos lembrar de O Cavaleiro das Trevas, Watchmen e, no final da década, Sandman. Fora das “duas grandes” (Marvel e DC), muita coisa interessante aconteceu nessa época, como diversas obras de Moebius, na Europa.


E nessa década, 1986 é o ano mais lembrado. Para muitos, é o ano mais importante das histórias em quadrinhos. Crise nas Infinitas Terras terminava de ser publicado. Frank Miller levava sua abordagem do Demolidor ao Batman em Cavaleiro das Trevas. Os seis primeiros volumes da graphic novel de Art Spiegelman, Maus, eram publicados juntos pela primeira vez e Eddie Brock, o futuro Venom, aparecia pela primeira vez nas HQs. Mas, acima de tudo, o ano é lembrado por iniciar o épico Watchmen.


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Watchmen e Cavaleiros das Trevas são lembrados por começar a “Era Dark” ou “Era Sombria dos Quadrinhos” (termo ainda discutido por especialistas em quadrinhos, já que alguns consideram que esse, na verdade é o início da “Era Moderna”. Mas isso é discussão para futuros textos, quando falarmos um pouco sobre cada era das HQs).


A bem da verdade, esses não são os primeiros quadrinhos adultos ou que desconstroem super-heróis já feitos. Jack Kirby tentou fazer algo parecido (distanciando heróis de suas raízes infantis em Quarto Mundo) e Gerry Conway, com A Morte da Gwen Stacy criou os quadrinhos adultos (e a “Era de Bronze” das HQs) em 1973. O próprio Moore já tinha desconstruído o conceito do super-heroísmo em Marvelman (futuramente rebatizado para Miracleman, mas isso também é assunto para outro texto).


Na época, Moore vinha construindo um buzz em torno de si mesmo com seu trabalho na Marvel UK (Capitão Britânia), 2000 AD, e com obras como V de Vingança (minha preferida do autor), além de alguns trabalhos para a própria DC, como Monstro do Pântano. Foi aí que ele foi convidado pela DC para escrever uma história para os heróis da antiga Charlton Comics, editora que tinha acabado de falir.



Talvez alguns fãs mais recentes não saibam (principalmente os mais “Bat-Centrados”), mas diversos personagens da editora são, originalmente, de editoras menores. Muitos são personagens famosos, com filmes ou participação em animações (como a Liga da Justiça). O Shazam era da Fawcett Comics e o Homem-Borracha da Quality Comics, por exemplo.

Quando a editora comprou os personagens da antiga Charlton, vieram o Besouro Azul, Capitão Átomo, Peacemaker (sim, o personagem que John Cena vai viver em Esquadrão Suicidada e na série solo), Questão, Relâmpago e Sombra da Noite. Moore, com a missão de escrever uma história para introduzir esses personagens no hall da editora, criou o esboço básico de Watchmen.


Mas a editora, ao ler essa história que desconstruía tudo que o gênero de super-heróis oferecia, achou que a HQ ficaria muito mais interessante e impactantes com personagens novos. E pronto, Alan criou os personagens do quadrinho: Besouro Azul se tornou o Coruja (aliás, a primeira versão do Besouro, da Era de Ouro, se tornou a primeira versão do Coruja na história), Capitão Átomo o Dr. Manhattan, Peacemaker o Comediante, Questão se tornou Rorschach, Relâmpago virou o Ozymandias e Sombra da Noite a Espectral.


Mas porque Watchmen fez tanto sucesso?


A história trouxe uma novidade em relação aos quadrinhos de herói. Mesmo não sendo a primeira que desconstruiu o heroísmo, ela fez isso em outra escala. Watchmen parecia real, mesmo contendo um personagem com poderes próprios de um deus.


Na trama, nos anos 80 à beira do colapso nuclear no fim da guerra fria, alguém começa a matar antigos super-heróis (hoje aposentados por conta de uma lei contra os vigilantes). Enquanto a história avança, vemos o passado dos heróis e desse mundo desde os anos 40 (em que o grupo de heróis do período, os Minuteman, é uma clara referência à Sociedade da Justiça), com a clara certeza de que ninguém lá é 100% bom.


Mas, conforme lemos, vemos que tudo não passa de uma maquinação contra a eminente hecatombe nuclear entre Estados Unidos e União Soviética. A história permanece atual pelo tom realista e adulto, por ser um universo coeso (com bem menos supers que o mundo DC) e pela capacidade que temos de identificar ali situações reais de violência, controle político e manipulações sociais. Porém, o medo da guerra nuclear, por mais que seja algo que nos prende, hoje é menos presente ou relevante que na Guerra Fria (sim, eu sei que vários países possuem programas nucleares, mas o medo de uma guerra desse tipo hoje é, no máximo, pontual. Guerras, no entanto, existem em diversos locais do mundo e o problema continua sério).



Não podemos nos esquecer jamais que boa parte do sucesso da trama se deve também ao grande desenhista Dave Gibbons, que desenvolveu o visual de todos os personagens e criou toda uma narrativa visual essencial para a trama. Sabe aquelas páginas clássicas com 9 quadros que são muito usadas na história? Então, isso é obra do Gibbons. Metade do sucesso da HQ se deve ao artista e nunca podemos nos esquecer disso.



Tá, gastei muito tempo falando sobre a obra original. Mas essa é a ideia, certo? Entender o material base para podermos falar das sequências.


É 2009. Vejo o filme de Watchmen sair nos cinemas


Antes de começar a achar que Watchmen fica sim muito bem longe da batuta de Alan Moore, eu por muito tempo fui da opinião contrária. E um dos motivos foi o filme de 2009.



Não que eu ache o filme ruim, muito pelo contrário: para esse que vos fala, é o melhor de filme de Zack Snyder. Mas vamos com calma para você me entender.


Desde o fim da minissérie em quadrinhos, não houve nenhum conteúdo novo oficial desses personagens ou universo. A história era para ser uma minissérie e pronto. Nada de universos grandes, sequências ou essas coisas que as editoras inventam para tirar uma graninha dos fãs.


Nesse meio tempo, Alan Moore brigou com a DC (e claro, também com a Marvel e com meio mundo, na verdade) por conta de direitos autorais e saiu da editora. Sobre essa questão de direitos autorais e valor pago aos artistas, Moore está certo: muito deveria ser feito em prol dos artistas e escritores e de todos que criam o conteúdo que amamos.



Watchmen parecia que estava lá para ser deixado no status de lenda e apenas isso: uma história sem continuações, que contava o que precisava e só. Na realidade, em muitos casos eu creio que isso é melhor. Há obras criadas para serem apenas isso, sem sequências (e, se tem continuações, estragam). Ou será que, com um bom roteiro, essa continuação poderia funcionar? Eu sempre achei que Os Incríveis é um filme muito bom e não havia a necessidade de uma continuação, que aconteceu depois de anos e foi um pouco decepcionante. Mas será mesmo que existe obras intocáveis assim?


Voltemos ao filme. A película de 2009 é extremamente fiel em diversos aspectos (uma adaptação muito bem-feita). A narrativa parece vir exatamente do quadrinho, como se cada frame fosse um quadro da HQ. Ao mesmo tempo, determinados aspectos mais filosóficos da história foram um pouco mudados.


O final é diferente (mas mantem o mesmo sentido), enquanto os uniformes são atualizados (alguns de maneira positiva, outros nem tanto). Em geral é um filme bem-sucedido. Pense que a estreia da película foi em 2009: parece pouco tempo, mas 10 anos atrás, o MCU ainda engatinhava e o mundo dos super-heróis não tinha o apelo de hoje.


Por conta disso, parece estranho que um grupo de heróis alternativos que não era tão reconhecido fora do nicho das HQs tenha ganhado um filme antes de personagens culturalmente mais icônicos como Aquaman e Mulher-Maravilha (essa, porém, contava com a antiga série estrelada por Lynda Carter).


Mas sendo o que foi, o longa saiu e, particularmente falando, é um ótimo filme. Tirando algumas mudanças (necessárias ou não), acho que a película trabalhou bem com o legado do quadrinho.



Claro, Alan Moore, brigado com todo mundo, não gostou que sua obra fosse adaptada (o mesmo ocorreu em Do Inferno e V de Vingança). Porém, independentemente de sua opinião, o filme conseguiu levar os personagens criados por ele ao reconhecimento do grande público não-leitor de HQs.


Parecia que ia parar por aí, certo? Um filme competente de uma história sem continuações, perfeita para ser algo limitado e deixado intocado. Não há porque criar mais, né?


Bom, não é assim que funciona o capitalismo e, com o sucesso que esse universo teve no cinema e com o boom do mercado de filmes de herói, a DC deu um jeito de explorar mais (pontualmente, a bem da verdade) a criação de Alan e Dave.


E antes de começar a gostar das novidades que saiam de Watchmen, eu desgostei um pouco de alguns conteúdos...

É 2012. Eu vejo Before Watchmen ser publicado


Before Watchmen foi uma série de vários títulos contando, individualmente, o passado de cada personagem da HQ clássica. Em alguns vemos origens que até então não tinham sido exploradas (vemos muito do passado do Comediante, por exemplo), histórias novas que até então não tínhamos visto e coisas citadas na história original.


Com uma proposta de diversificação, cada revista de Before Watchmen conta com uma equipe criativa diferente. Isso quer dizer que o desenhista e o escritor das histórias do Ozymandias não seria o mesmo do Coruja e por aí vai. Apenas em alguns casos específicos que isso não se aplica: o escritor J. M. Straczynski participa de mais de um título, assim como o artista/escritor Darwyn Cooke.


Além dos heróis principais da história de Moore, em Before também vemos histórias dos Minuteman e de personagens menores como Dollar Bill e Moloch.


O grupo de artistas envolvidos em Before são lembrados como alguns dos maiores na indústria. Alguns exemplos são Jae Lee, Lee Bermejo, Adam Hughes, Amanda Conner, Steve Rude e Andy e Joe Kubert.



Mas Before Watchmen é bom?


A série conta com algumas críticas variadas. As histórias dos Minuteman costumam ser lembradas como boas, enquanto as do Comediante não costumam ser relembradas com muito carinho. A maioria da série recebeu críticas medianas. A bem da verdade, ao menos para mim, a história do Dr. Manhattan é muito boa e vale a pena ser lida.


Porém a inconsistência desse prequel ajudou a dar a impressão de que Before Watchmen é desnecessário, uma tentativa de capitalizar em cima de personagens que recentemente ganharam um novo público (algo que gera ira no Alan Moore).


Pense bem: nada ali é necessário. Você não precisa de Before Watchmen para ter uma melhor experiência com o próprio Watchmen. Mesmo com algumas histórias interessantes e uma arte legal, a série em HQs é dispensável.


Foi aí que se firmou em mim o sentimento que Watchmen é sagrado e tocar nesse universo é um sacrilégio capitalista fadado ao fracasso. Ainda pensava que nada de bom poderia vir de algo que já era perfeito e não necessitava de continuações ou explicações.


E esse foi o motivo do meu descontentamento quando anunciaram um crossover em quadrinhos dos personagens de Moore com o universo tradicional DC e uma série de TV de Watchmen que não se passaria nos anos 80 e teria personagens novos. Isso seria uma heresia, certo? E eu já parti para as novidades com o coração fechado.


Mas eu estava errado. Talvez esse sentimento negativo que já tinha, esse preconceito com essas “sequências” da HQ, tenha deixado o minha surpresa tão positiva e a experiência tão interessante.


Vamos agora para o que eu realmente queria dizer: Watchmen vai muito bem sem Alan Moore.


Vamos por partes.


É 2017. O Relógio do Juízo Final começa a ser publicado


Minha reação quando anunciaram que Watchmen ia encontrar com a continuidade DC (apesar que, na DC, continuidade é um termo forte) foi de gritar “nãããããão” como o Michael Scott em The Office.



Isso é um absurdo, certo? Todo mundo pensaria isso, né? Bom, boa parte do mundo estava realmente decido a não dar o benefício da dúvida e, assim como eu, já criticava a história de cara. A história chamaria Doomsday Clock, ou Relógio do Juízo Final, uma referência ao relógio homônimo da série original que indicava o quão perto uma guerra nuclear estava para acontecer e ao personagem Doomsday (ou Apocalypse), da cronologia normal DC, aquele que matou o Superman. O nome, na verdade, era um trocadilho bem esperto e já ensaiava o inevitável confronto entre o azulão de Krypton e o azulão de Manhattan.


Em 2011, a DC “rebootou” de novo e recomeçou com a iniciativa “Os Novos 52”. Histórias novas, cronologia zerada e tudo mais fácil para os novos leitores. Porém, os antigos leitores criticaram bastante a iniciativa, reclamando muito de personagens eliminados da continuidade e da queda de qualidade das histórias. Então em 2016 eles voltaram atrás.


Dessa vez, o DC Renascimento, como foi chamado essa iniciativa, não seria um reboot, mas uma retomada de alguns elementos perdidos com os novos 52. Personagens novos foram criados e antigos, como o Wally West, o terceiro Flash (e um dos mais icônicos), que ainda não tinham aparecido desde o reboot de 2011, retornaram. E já nesse renascimento, uma pista foi deixada: o Batman encontrou o botton do Comediante. Seria o Dr. Manhattan o responsável pelo renascimento? Watchmen realmente participaria da continuidade DC agora?


Sobre o botton, vemos uma história ligando, ao mesmo tempo, continuidade DC, o universo de Flashpoint (que, teoricamente, iniciou o reboot de 2011) e alguns elementos do universo de Moore e Gibbons. The Botton não chega a ser um prequel ou leitura essencial para entender o Doomsday Clock, mas é um dos elementos do DC Rebirth que culminou no crossover de universos. Como uma preparação.



Particularmente, a história é interessante, mas, assim como Before Watchmen, desnecessária. Vemos um momento emotivo quando Batman encontra seu pai do universo de Flashpoint (onde Thomas Wayne era o Batman da Vingança) que é bonito de se ver, mas, ao menos para mim, tira um pouco da emoção do final da história original de Flashpoint, quando Bruce lê a carta de seu pai (um dos momentos que mais chorei lendo histórias em quadrinhos, devo confessar). Não vou entrar em detalhes, então se você não leu essa história, faça esse favor e leia!


E tudo até aqui me dava um gosto ruim na garganta quando pensava em Doomsday Clock. Parecia que aquela história tinha tudo para ser ruim.


Mas eu estava tão engando.



Desde a primeira edição, o Relógio do Juízo Final me pegou de jeito. A história parecia realmente uma sequência da clássica minissérie do Moore e do Gibbons. A trama que levou os personagens daquele mundo para o universo DC também é plausível e parecia certa. A arte do Gary Frank dispensa elogios e parecia um sucessor adequado ao clássico visual do Dave Gibbons (trabalhando ainda com o já citado grid de 9 quadros da HQ original).


Mas o que chama atenção do Doomsday Clock é o roteiro. Geoff Johns, escritor da série, é um nome preferido dos fãs, tendo em suas costas clássicos como Crise Infinita, A noite mais densa, O dia mais claro e o próprio Flashpoint. Ele também tem obras polêmicas e não muito aclamadas como Os novos 52 (e problemas fora dos quadrinhos, como nas filmagens do já problemático por natureza filme da Liga da Justiça).


Mas Geoff acerta em cheio no Relógio do Juízo final. Ele entendeu os personagens. Tudo que ele escreve na obra (provavelmente minha história preferida dele) faz sentido. A narrativa vai num ritmo similar ao quadrinho original, com momentos de emoção e ação na medida certa. As criticas do público são mistas. Alguns amam o Doomsday Clock, outros odeiam. Eu amo e irei defender a história.


E quando você lê, percebe que essa sequência é, na verdade, natural: esse choque de universos iria acontecer um dia, e que bom que foi tão bem feito assim. Esse crossover poderia ser feito de outra maneira, de um jeito que não funcionaria, por exemplo. E eu, que antes achava que seria impossível uma boa sequência de Watchmen, ainda mais junto do resto da DC Comics, calei a boca.



Johns mostra um conhecimento profundo dos dois universos que se chocam, criando personagens novos para o mundo de Moore e Gibbons que fazem sentido, além de um conhecimento do universo tradicional da DC. A Sociedade da Justiça é traçada como um paralelo aos Minuteman. Tramas secundárias são colocadas na história de maneira concisa, como na minissérie original e o que antes era um personagem de quadrinhos no mundo do Dr. Manhattan (o Superman), agora é algo bastante real e claro para o bom Doutor.


Manhattan, porém, não aparece muito no início da história, que se desenvolve criando terreno para aparição desse deus azul. A trama básica mostra um mundo de Watchmen enlouquecido após os planos de Ozymandias serem descobertos pelo público. Em busca de salvar o mundo “de novo”, ele e seus novos companheiros partem em busca do Dr. no universo em que ele se escondeu após os eventos da série original: o mundo DC. E lá eles encontram uma sociedade também colapsando, dessa vez pela Teoria dos Supermen: uma ideia em que todos os super-seres, heróis ou vilões, foram criados pelo governo Estadunidense para gerar uma vantagem geopolítica (percebe como a trama envolve temas políticos que parecem natural à uma sequência da história de Moore?).


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Vemos tensões sendo criadas entre países e uma eminente guerra nuclear que pode ou não acontecer. Vemos como Manhattan influenciou o tempo e criou diversas linhas temporais (explicando muito da bagunça ou reboots da DC, de uma maneira crível para a história) e vemos como Superman, mesmo possuindo menos poderes que Jon, representa algo ainda mais poderoso: a presença do Kryptoniano moldou universos. E não é isso que o Superman fez com nosso mundo real? É impossível pensar no nosso mundo sem Clark Kent, aquele que iniciou toda essa jornada.


Não vou entrar em detalhes do final, mas eu particularmente fiquei muito satisfeito com tudo que li. Manhattan até cita um possível crossover Marvel x DC que teoricamente irá acontecer no futuro (algo que eu torço para realmente acontecer).


O importante é: a história que eu julguei desde que foi anunciada é, na verdade, incrível. A sequência de Watchmen que eu defendia que não deveria acontecer se mostrou digna à original e uma de minhas leituras preferidas da última década.


Além de Doomsday Clock, a DC continua usando elementos de Watchmen em suas HQs. O Flash Wally West aparentemente conseguiu poderes próprios do Dr. Manhattan em histórias ainda recentes, então é cedo para falar sobre.



O que nos leva até a série de TV.

É 2019. Vejo a série Watchmen ser veiculada na televisão


Doomsday Clock atrasou muito e a série foi publicada com espaços grandes e irregulares entre as edições, concluindo em 2019. Isso quer dizer que eu comecei a assistir a série de TV depois de ler algumas edições do quadrinho de Geoff Johns, mas terminei a série antes de conseguir ler a última edição HQ.


Mas vamos nos ater à série aqui.



Para mim o conceito da série era inconcebível. Watchmen tem um motivo e um período temporal específico, certo? Fazer algo fora disso seria deturpar a obra original. Uma série com personagens novos, se passando na atualidade? Como diabos isso ia dar certo?


Os primeiros episódios saíram. E as críticas estavam boas. Eu via muita gente que eu confio falando que se tratava se uma série incrível. Naquele momento, eu acompanhava Doomsday Clock e estava realmente gostando. Será que essa série da HBO seria mesmo boa? Seria possível?


Então eu decidi assistir. Quando assisti o primeiro episódio, a série já estava lá pelo episódio 4 na TV. E já no capítulo 1 eu fiquei fisgado. Eu não esperava nada daquilo. Cada capítulo era um soco no estômago diferente.



A série é uma continuação do quadrinho e tudo lá respeita muito o material de origem. Nada de universo DC ou de uma trama para mudar ou salvar o mundo. Dessa vez, os acontecimentos eram muito mais localizados. O autor Damon Lindelof já tinha me surpreendida com a excelente série The Leftovers (também fica aqui minha indicação), mas o que ele fez com Watchmen eu realmente não esperava.


Dava para ver que se tratava de um material feito por um . Alguém que leu várias vezes a HQ original e respeitava seu legado. Ele soube transformar tudo que o quadrinho tinha para oferecer em uma sequência perfeita. Ela não tentou fazer algo grandioso como Moore. Nada de lulas gigantes caindo do céu. Nada de uma trama para impedir uma guerra nuclear. Agora tudo era restrito à uma cidade do interior dos EUA (a bem da verdade, não é uma cidade tão pequena assim).



Como ele trabalha o legado dos personagens é algo incrível. Poucos personagens originais aparecem. Vemos Ozymandias na incrível atuação de Jeremy Irons e uma Espectral mais velha e rígida. Mas como o legado de Rorschach é trabalhado é o mais incrível.


Moore criou Rorschach para ser um personagem detestável e sempre disse achar horrível a quantidade de pessoas que crê que o personagem estava certo em suas ações e que o define como um grande herói. E Lindelof acertou com tudo ao colocar na série o legado do personagem do jeito que ele merecia: na trama, um grupo de racistas e neofascistas usam a máscara de Rorschach para esconder seu rosto, como a Klu Klux Klan, e assim cometer crimes de ódio. Não existe sequer espaço para romantizar o personagem. A série mostra, usando seus seguidores, aquilo que vigilante sempre foi: um reacionário com tendências homicidas.



Mas quando um misterioso homem centenário (vivido por Louis Gosset Jr.) aparece e mata o chefe de polícia alegando que ele é um dos membros da Sétima Cavalaria (o grupo de seguidores do Rorschach), a policial e vigilante Angela Abar/Sister Night (vivida por Regina King) decide investigar. E quanto mais ele embarca na história desse homem, mais segredos desse mundo ela descobre.


Passado e presente se misturam para contar uma história sobre racismo e vigilantes na nossa atualidade. Tudo ali tem relação com acontecimentos reais (como o Massacre de Tulsa nos anos 20 e até a primeira guerra mundial). Mais importante: Lindelof conseguiu fazer uma sequência de Watchmen que fosse relevante para nossa sociedade atual.


Guerras acontecem e são reais, mas uma guerra nuclear de escala global hoje não é algo nos meta medo igual nos anos 80 da guerra-fria. Mas racismo infelizmente é real. Vivemos num mundo desigual em que o sucesso de um negro causa ódio em um racista branco. Um mundo onde a cor da pele diz muito sobre as possibilidade de uma pessoa e um mundo violento e triste para aqueles que não são brancos.


Eu queria que o racismo acabasse amanhã. Mas isso não é simples e não é real. A luta contra a discriminação é dura e tem de ocorrer constantemente para que esse mal chegue ao fim. Misturando temas relativos ao racismo com o mundo iniciado por Moore e Gibbons, Lindelof conseguiu fazer um Watchmen ainda mais real e cru. E mais relevante.


Por curiosidade, meus dois episódios preferidos de séries são do Damon Lindelof: o capítulo de Watchmen com o flashback da origem do Justiça Encapuzada (o primeiro super-herói) e o episódio 8 da segunda temporada de Leftovers (com o protagonista indo até o “outro mundo”, mas isso não é assunto para esse texto). Damon Lindelof é um grande contador de histórias e fez com Watchmen não a série que eu queria, mas a série que eu precisava.



E se você quer minha opinião, eu gostei mais da série de Watchmen que do quadrinho original. A série é minha adaptação audiovisual preferida da DC (sério, para mim ela coloca os aclamados filmes O Cavaleiro das Trevas e Coringa no chinelo). Mas calma, isso aqui é apenas a minha opinião (assim como tudo nesse texto).

É 2020. Eu vejo Alan Moore dar uma entrevista polêmica pouco antes de sair o próximo quadrinho do Rorschach


Recentemente foi anunciado que a DC irá publicar um novo quadrinho sobre o personagem Rorschach. O roteiro fica à cargo de Tom King (um escritor bastante competente que passou por uma boa run na revista do Batman, além de obras como O Xerife da Babilônia e Heróis em Crise, todas grandes histórias) e a arte com o incrível Jorge Fornés, que possui um estilo que combina bastante com o personagem e com o clima esperado da história.


Particularmente, a equipe criativa é boa, mas mesmo assim ainda não estou essencialmente animado para essa HQ. Talvez seja por conta de ter problemas com o personagem. Mas, depois de grandes experiências com Doomsday Clock e a série da HBO, eu ficarei de coração aberto em relação a qualquer novidade sobre universo.



A HQ está programada para sair ainda esse ano e, por coincidência ou não, Alan Moore deu uma polêmica entrevista criticando todo o mercado de super-heróis. Você pode ler mais sobre aqui.


Meu ponto não é falar se Moore está certo ou errado. Isso depende da sua percepção. Assim como esse texto, estamos falando de opinião. Particularmente eu acho que Alan está certo sobre algumas coisas e errado sobre outras.



Sempre irei concordar com seu posicionamento sobre o direito autoral dos criadores de quadrinhos. Porém algumas críticas parecem meio ranzinzas e descabidas. Sinceramente, de tudo que ele disse, para mim, a tentativa de traçar um paralelo entre filmes de herói e eleição do Trump é forçada e pretensiosa, para dizer o mínimo (ele não disse que um é a causa do outro, mas que são coisas que vieram da necessidade das pessoas de buscarem “soluções rápidas”. Mas talvez uma afirmação dessas seja buscar uma solução rápida ao invés de analisar mais profundamente). Ao meu ver, a eleição de políticos neofascistas vem muito mais da ascensão de discursos de ódio (coisa inclusive trabalhada na série de Watchmen) do que de filmes de ficção.


Não que isso seja algo novo por parte de Moore, que já vem falando coisas parecidas há anos, criticando uma indústria que leva “conteúdo infantil” para adultos (apesar dele ter uma grande contribuição nesse fato). Podemos especular que a polêmica seria algo positivo tanto para imagem de bruxo eremita que se cunhou ao redor do autor, quanto para a publicidade um filme escrito pelo próprio Moore, The Show, que ganhou o primeiro trailer recentemente. Mas também não vou afirmar isso pois não seria honesto, uma vez que creio que são pensamentos reais e justos por parte de Alan.



Concordo com ele sobre muitos pontos e creio que quando grandes corporações interferem nos quadrinhos, algo de criativo e original se perde. E ele está certo sobre os direitos autorais. Mas, como disse discordo de alguns pontos. Nada disso me faz gostar menos do autor, que é um dos meus preferidos. Além dessa casca amarga, Alan Moore é um sujeito simpático com quem eu adoraria tomar um chá e conversar.


Mas esse não é o ponto do papo aqui. Alan Moore não aprova nada de novo saindo sobre Watchmen e seu nome sequer apareceu na série (os personagens foram creditados apenas ao Gibbons, que sempre foi bem mais aberto e tranquilo sobre sua criação, inclusive desenhando um trecho da Bíblia para um episódio da série).



E sobre muitos aspectos, eu entendo o Moore. Porém, quando algo faz muito sucesso, se torna quase público. Triste ou não, pense no Homem-Aranha. Ele foi criado por Stan Lee e Steve Ditko, mas o personagem se tornou parte da cultura pop e da sociedade em si. Ele continua uma obra de seus criadores, mas agora é tão importante que é meio que de todo mundo (não que isso seja desculpa para problemas com direitos autorais. Criadores devem ser respeitados). Mas isso que ocorre com o aranha, aconteceu com os personagens de Watchmen também.


Então independente do autor, quando algo se torna tão grande assim, é impossível que mais conteúdo não seja produzido. Quantas coisas novas de Sherlock Holmes foram criadas desde a morte do autor?


Mas o que a série de Watchmen e Doomsday Clock me provaram é que não existe coisa intocável: sempre existe espaço para alguém criar coisas novas, ainda mais sobre quadrinhos. Não, não é um tipo de sacrilégio nem nada.


Isso pode gerar bons frutos ou frutos ruins, mas essa é a vida. O ponto é: deixar a mente aberta, muita coisa boa pode vir dessas obras. A série de Watchmen não é algo que se havia necessidade em ser feita (em contrapartida, existe a necessidade de alguma série? Acho que nenhuma, né?), mas eu fico feliz que tenha sido produzida, pois é um conteúdo relevante e, acima de tudo, bom.


O próprio Damon Lindelof sabe disso. O escritor sabe que o Moore nunca assistiria sua série mas, como fã, trabalhou o melhor que pode. E mais: contou a história que queria. Não irá mais produzir uma segunda temporada para Watchmen, mas deu a benção para qualquer outro escritor que quiser tentar (até porque ele não é dono dos personagens).


Então vou manter o coração aberto para o quadrinho de Rorschach. Pode ser ótimo.

Pode ser ruim. É a vida. Vale comentar que já há outra polêmica nisso tudo: o escritor Tom King criticou o fato do desenhista Jae Lee (que desenhou em Before Watchmen), sem que ele fosse consultado, desenhasse uma capa alternativa para Rorschach.


O problema é que Jae desenhou uma capa para um quadrinho do ComicsGate, um tipo de “editora” que surgiu nos últimos anos que se diz contra a política nos quadrinhos, mas na verdade é um grupo de ódio de extrema-direita que ataca autores pró-diversidade, escritoras e qualquer um que se posicionam contra o fascismo. Há até histórias de seguidores desse grupo que depredaram uma Comic Shop no Canadá que se recusou a vender suas HQs (não há muitas informações sobre isso). Mas vamos falar melhor sobre eles em outro texto.



O "negócio" é que aparentemente o Jae Lee não sabia nada sobre o ComicsGate e só fez a capa porque foi pago para fazer. A internet ficou bastante nervosa com o “cancelamento” precipitado que King fez de Lee (ainda deixaram no ar que houve um pouco de xenofobia, já que Lee possui descendência asiática). Agora, tudo se resolveu com pedidos de desculpas, mas não posso deixar de falar que isso me deixou com menos vontade de ler o gibi. Porém, sempre é importante lembrar que o ComicsGate é um grupo de ódio e que quadrinhos devem sim usar seu espaço para falar de política e diversidade.


Tá, eu falei muito, vamos terminar.


Watchmen é Alan Moore e Dave Gibbons. Eles são os autores, eles são os criadores disso tudo. Mas Watchmen faz parte da cultura pop e novos conteúdos desse universo vão, querendo ou não, ser produzidos. E eu espero que sejam bons, como espero que o Rorschach de King e Fornés seja bom.


Mas a série da HBO e Doomsday CLock me mostraram algo importante: não existe obra sagrada. Não é sacrilégio alguma continuação de outro conteúdo. Se for ruim, paciência, mas se for bom, não há motivos para reclamar. E era isso que eu queria falar. Sabe aquela continuação que você não quer que aconteça? Bom, talvez seja melhor que ela aconteça. Conhecer, antes de julgar é essencial.


Amo Watchmen de Alan Moore e Dave Gibbons, mas seu legado vai muito bem, obrigado.



E se você não é onisciente igual o Dr. Manhattan, se informe com a gente! Te convido a ler nossos outros textos e ouvir o nosso podcast!


Continue lendo quadrinhos e até o próximo texto!



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