• Ana Laura Teodoro

Crítica | South Park - Especial Pandemia


O primeiro episódio da 24ª temporada de South Park entregou várias referências ao ano conturbado que estamos vivendo.



Atenção!! O texto abaixo contém spoilers de todo o episódio, que possui conteúdo +18 e não deve ser consumido por menores.


O episódio tem início com Eric Cartman burlando a aula online para se deliciar com o tempo livre em casa, longe de outras crianças. Porém, ele acaba levando um susto quando descobre que as classes presenciais estão prestes a retornar em South Park.


Como os professores se negam a voltar para a escola durante a pandemia, o diretor contratou os policiais da cidade para servirem de educadores, já que tiveram seus recursos cortados e estão desesperados por qualquer emprego.


Enquanto isso Randy Marsh, dono das "Tegrity Farms", resolve produzir um produto de maconha especial para a pandemia, a despeito da indignação de sua esposa com a busca pelo lucro apesar do momento trágico.



Nesses trechos iniciais, podemos notar várias sátiras remetendo a situações reais da pandemia, como a demissão em massa e o aumento do desemprego, o lockdown e as aulas online. Além disso, percebemos a tensão entre pessoas acusando umas às outras de não se protegerem adequadamente e exporem as demais.


O programa ainda brinca com os negacionistas quando Randy pergunta aos familiares se eles conhecem alguém com a doença, sugerindo que na verdade era uma mentira, e sua esposa e filho respondem que o tio Jimbo está no hospital devido à COVID. Além disso, em alguns momentos, o fazendeiro mostra insatisfação em relação à China e raiva pelo vírus ter partido de lá, o que presenciamos também em nosso dia-a-dia.


Porém, na versão dessa sátira, os cientistas descobrem que o patógeno partiu de um animal em Wuhan, fazendo Marsh lembrar de meses atrás, quando viajou para a cidade e teve relações sexuais com um morcego e um pangolim, o mesmo que espalhou a doença.


Randy então se desespera, percebendo que provavelmente causou toda a pandemia, e acusa aqueles que desejam saber o local de origem de racistas. Um detalhe interessante, ainda, é que na viagem o próprio Mickey Mouse foi seu parceiro e o convenceu ao intercurso sexual que gerou o problema.



Desesperado, Marsh rouba o pangolim do laboratório para que não descubram seu DNA no animal. Isso, todavia, também impediria que fosse confeccionada uma vacina. Mickey então faz uma ligação e ameaça matar Marsh para que a mesma seja produzida, pois a pandemia atrapalha os negócios, obrigando-o a ter aí uma grande ideia para salvar sua pele.


O fazendeiro decide ejacular nos seus especiais de maconha da pandemia para que os compradores sejam assim vacinados enquanto fumam, tendo em vista que o produto foi um grande sucesso. E bravo com Mickey, ainda nos dá um ótima referência quando diz que o rato capitalista é o culpado por ter vendido Mulan à China e feito aquela viagem.



Na escola, as crianças estão em apuros, pois Cartman não quer ficar lá e acaba iniciando uma briga com Kyle enquanto finge vomitar no mesmo. Aqui temos mais uma referência muito bem colocada, pois os policiais na posição de professores, diante da briga, começam a atirar nas crianças.


Isso por si só já nos remete à violência policial que gerou muitos protestos nos EUA nesse ano, mas ainda tem mais... durante o tiroteio, os policiais acabam mirando em um garoto negro que nem está na briga e comemoram quando o acertam. E detalhe: ele foi o único baleado. Pois é... referência a George Floyd e Black Lives Matter.



Diante disso, os policiais inventam uma história de que o garoto foi contaminado com COVID e levado ao hospital, colocando todas as crianças em quarentena dentro da escola por 14 dias. Assim, pelo isolamento e fragilidade emocional devido à pandemia, o menino Butters acaba colapsando e entrando em depressão.


Preocupado com a situação, Stan decide então ligar para o presidente Trump a fim de que ele liberte todos da escola. Aqui temos uma crítica direta ao mesmo, pois ele diz que não fará nada em relação à pandemia pois ela está matando mais mexicanos do que brancos, ajudando-o a cumprir sua promessa de campanha.


Vale lembrar também que o presidente já havia sido alfinetado momentos antes, pois a esposa de Marsh atribui sua fala negacionista como uma citação à Donald Trump. Portanto, o programa agride abertamente a postura do político diante do contágio.



Mais um momento engraçado que se repete várias vezes no episódio é o modo como as pessoas usam a máscara. Em determinada parte, o carteiro pede a Randy que coloque a proteção para que possa entregar a encomenda. Após isso, o rapaz permanece com ela no queixo e demonstra-se satisfeito quando Marsh coloca também sua máscara no queixo. Além disso, os pais dos alunos ficam indignados quando as autoridades solicitam que o equipamento seja colocado no nariz, permanecendo com o mesmo sobre o queixo.


Um dos momentos em que é notável o incorreto uso da máscara é justamente quando as crianças escapam da escola com o objetivo de levar Butters a um passeio na loja de ursos de pelúcia. Todos entram em pânico achando que os garotos contaminados perambulam pela cidade, e começam a trocar socos com a máscara ainda no queixo, mesmo com medo de serem contaminados.


Nesse momento, os policiais recuperam seus recursos e inundam a cidade de tanques de guerra, armamento pesado e até cachorros, atirando em várias pessoas e até matando crianças. Mais uma vez vemos uma alusão à violência policial ao conter protestos.



Como o plano de Marsh não deu certo e a cidade está em completo caos e pânico, ele então decide desistir do pangolim, deixando que os cientistas encontrem seu DNA e descubram a verdade. Todavia, nesse momento, Trump aparece novamente e ateia fogo no animal, enquanto pede que todos saiam para votar em breve.


Ali temos duas referências: a hipocrisia dos políticos pedindo o ano todo pelo "fique em casa" e agora querendo que todos saiam para a eleição; e os extensos incêndios criminosos ocorridos no mundo, pois no episódio Trump acaba desencadeando um incêndio quando põe fogo no pangolim.



Assim se encerra mais um episódio de South Park, como sempre repleto de referências e críticas inteligentes. E você, o que achou do Especial da Pandemia?



Leia também:



Se você gostou do nosso conteúdo, te convido a ler nossos outros textos e ouvir o nosso podcast!



Apoie o Jornalismo Cultural independente seguindo o Otageek no Twitter, no Facebook e no Instagram.


otageek amazon prime .jpg