Crítica | Westworld - Terceira Temporada

Atualizado: Mai 7

Uma temporada que manteve a qualidade na produção, mas não no roteiro.


Westworld teve uma repaginada em sua terceira temporada, e apesar de algumas mudanças não terem sido as melhores decisões, a série conseguiu manter sua qualidade na produção. Ao vermos Dolores (Evan Rachel Wood, Frozen 2) saindo com outras esferas de hosts no final da segunda temporada, já imaginávamos que a terceira seria extremamente diferente das anteriores. O problema é que, nessa grande mudança, muitos novos aspectos tiveram que ser apresentados para o público em poucos episódios. No final, a temporada vem como aquele presente com o pacote muito bonito e conteúdo decepcionante.



Agora, com a história se passando no mundo exterior, nós telespectadores tivemos que ser apresentados a ele, seus elementos e como nossos personagens se encaixam. Para isso, somos introduzidos a Caleb (Aaron Paul, Breaking Bad), um ex soldado de guerra sofrendo pela perda do seu parceiro. Ele trabalha como operário de obra e eventualmente faz trabalhos ilegais para conseguir mais dinheiro.


Caleb funciona para nos apresentar diversos elementos tecnológicos desse novo mundo, assim como mostrar a vida de trabalhadores comuns e suas dificuldades. O personagem se junta com Dolores logo no primeiro episódio, após presenciar uma situação em que ela precisava de ajuda. Assim, os dois se unem para mudar o mundo atual, mesmo ele desconhecendo o passado de Dolores. A narrativa dos dois nos remete à história de Dolores e William na primeira temporada, já que tem diversos paralelos desde a cena do encontro até o fato de Caleb estar tendo dificuldades em lembrar do seu passado.


Dolores não tem muito o que fazer nessa temporada além de parecer muito séria e assassinar pessoas. Seus pensamentos e ações são o maior mistério da temporada, já que na última vez que a vimos ela queria assassinar qualquer humano em sua frente, mas acaba se unindo a Caleb e ainda trazendo Bernard para o mundo exterior. Após suas perdas na temporada passada e as descobertas feitas, havia muito com o que se trabalhar para estabelecer onde a personagem estava mentalmente, mas infelizmente todo esse desenvolvimento é evitado para manter o mistério dessa nova narrativa, que dessa vez foi escrita por ela.


Outro personagem novo, Serac (Vincent Cassel), é seu completo oposto e cumpre o papel do antagonista da temporada. Extremamente rico e poderoso e com uma ótima atuação de Cassel, ele se destaca como quase um Deus do mundo dos humanos: é o criador de uma máquina que planeja, prevê possibilidades e controla a vida de cada pessoa da sociedade. Porém, ele encontra um problema com Dolores por parecer uma variável que sua máquina não consegue prever. Dessa forma, o personagem se junta com Maeve na caça por Dolores. Todavia, como são opostos na narrativa, ele acaba forçando Maeve a ajudá-lo, diferentemente de Caleb, que escolhe ajudar Dolores e sua causa.



Estabelecendo essas equipes e situações em apenas 2 episódios, a temporada ainda possui mais 6 episódios que poderiam ser desenvolvidos para apresentar melhor os personagens e o ambiente, mas acabam escolhendo apenas esmiuçar esse novo mundo e nos jogar em diversas cenas de ação constante. As questões existenciais e filosóficas sobre liberdade, identidade e existência, que eram muito fortes nas temporadas passadas, permanecem na série, mas de uma forma bem mais rasa e simples.


É até interessante ver as analogias praticamente bíblicas colocadas entre o mundo humano e o dos hosts, já que os humanos os criaram a sua imagem e, portanto, até sua sociedade funcionava de forma similar. No entanto, as análises se tornam mais escassas devido ao formato focado em ação, que acaba por prejudicar muito a qualidade da temporada. Ela não consegue achar um balanço entre o que precisa desenvolver e sua construção de mundo, tornando-se uma diversão mais rasa.


Temos perseguição de carro, armas automáticas, espadas samurais, diversos elementos futuristas e muito foco no passado dos personagens novos, mas sem tempo algum para estabelecer melhor os personagens antigos nesse novo mundo. E não que a ação seja de todo ruim, ela é muito bem feita, com cenas coreografadas excelentes e efeitos incríveis, mas que acabam por ocupar tempo demais e cortar elementos filosóficos essenciais da série, que sempre foram seu forte.


Dolores tem pouquíssimas falas que agregam qualquer coisa para o seu desenvolvimento, sendo muitas dessas apenas explicações sobre como o mundo humano funciona ou frases de efeito. Em muitos momentos, ela se assemelha mais a um exterminador do futuro. A atriz, em algumas cenas, ainda consegue trazer só com expressões um certo desenvolvimento pra personagem, mas nada que seja suficiente para a atual narrativa.


Maeve, por outro lado, tem a pior das histórias: foi a personagem mais forte da série por duas temporadas e sempre lutou por sua independência, mas passou a terceira temporada inteira presa e a comando do novo personagem. Pior ainda é o roteiro, que tenta incansavelmente criar uma rivalidade que nunca existiu entre as protagonistas femininas, fazendo com que ela esteja quase optando por ajudar Serac. E fazem tudo isso usando apenas o fato de que ela simplesmente não gosta da Dolores porque não a compreende.


A narrativa envolvendo Maeve chega a ser absurdamente forçada, já que vemos Serac cometendo diversas atrocidades e ainda matando e destruindo todos os hosts do parque. Esses elementos ignorados por Maeve fazem parecer que ela não se importa com os crimes cometidos por ele, pois suas únicas respostas mostrando motivação são sobre ela acusar Dolores de ser perigosa demais, simplesmente porque tem medo dela possuir a chave para o mundo digital onde sua filha está.



Bernard (Jeffrey Wright) e Wiliam (Ed Harris) também aparecem na temporada e possuem pouquíssimo tempo de tela: suas funções no enredo são basicamente serem utilizados por Dolores a cada momento e explicarem elementos da história que estão acontecendo. William consegue ser o pior caso, já que perdemos muito tempo com o personagem, o qual não fez parte de nada relevante na temporada. Ele teve um desenvolvimento que não mostrou nada de novo sobre seu personagem e concluiu seu arco com uma cena que joga tudo por água abaixo.


Apesar de tantas complicações na narrativa, a série não perde sua qualidade cinematogrática: entrega cenas excitantes e cheias de adrenalina, a nível de cinema. O enredo da temporada também traz diversos elementos do mundo humano interessantes para se refletir. Além disso, estabelece paralelos com narrativas passadas sobre a ideia de saber quais decisões suas são reais ou manipuladas.


Apesar da falta de desenvolvimento dos personagens antigos nessa temporada, nós já temos certa afeição por eles. Por isso, acaba sendo extremamente divertido ver esses personagens em situações inusitadas de luta e ação. Dolores e Maeve assustando pessoas com suas habilidades é um ponto divertido, mesmo que esteja abafando a falta de falas e situações que as desenvolvam.


Outro ponto forte na temporada foi Hale (Tessa Thompson, Thor Ragnarok), que sabemos não ser a real, e sim uma host misteriosa trazida por Dolores de dentro do parque. A revelação é ótima, então prefiro não estragar. Mas além de uma revelação interessante, é feito um desenvolvimento envolvente para a personagem, a qual fica com uma das melhores narrativas da temporada. A série ainda conta com pequenas aparições de personagens queridos... mas são bem rápidas, já que tem muita coisa acontecendo. É deixada até a possibilidade para muitos terem mais destaque na próxima temporada.


Entre muitos altos e baixos, com um início decente, incoerência de personagens e muita ação, Westworld conclui de forma mais animadora, arrumando basicamente todos os erros que cometeu na temporada com seus personagens. Tendo um episódio mais focado em desenvolver os personagens e estabelecendo essa temporada mais curta como uma preparação para o que irá vir, a história conclui seu terceiro arco de forma bastante satisfatória e alcançando seu objetivo, mesmo com deslizes ao longo do caminho. Evan Rachel Wood brilha muito nos últimos dois episódios e mostra uma Dolores que não vimos desde a primeira temporada, deixando claro que a atriz é o rosto da série.


Agora nos resta esperar dois anos para a continuação e ficar na esperança de que a próxima temporada seja mais balanceada em ação e narrativa.


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