Crítica | Novos Mutantes realmente é a bomba que a internet diz ser?


Se não for o filme mais adiado, com toda certeza Novos Mutantes é um dos filmes que mais foram adiados na história do cinema. Como já havíamos noticiado aqui no Otageek, os atrasos aconteceram devido a inúmeros fatores, como necessidade de refilmagens para deixar o filme mais sombrio, devido ao sucesso comercial de IT na época, evitar que o filme concorresse em bilheterias com Deadpool 2 e Fênix Negra, aquisição das propriedades da Fox pela Disney e, por fim, o último adiamento se deu por conta da pandemia do coronavírus. Porém, as refilmagens nunca aconteceram e o diretor Josh Boone passou a declarar que o corte a ir para os cinemas seria o corte inicial que ele havia imaginado para os personagens.


Bom, finalmente o filme veio aí! Mas será que é realmente essa bomba que a internet e a crítica tem comentado nos últimos dias? É isso que vamos descobrir nessa ánalise e crítica do filme!



Mas antes é importante entendermos que por questões contratuais o filme não pôde ser lançado diretamente via streaming como foi o caso de Mulan, sendo obrigado a passar nos cinemas antes de ser disponibilizado digitalmente. A Disney também se recusou a fornecer links de exibição para os críticos e, de acordo com o The A.V. Club, isso é o que tem gerado e influenciado uma onda de críticas negativas ao filme. No site do Rotten Tomatoes o filme está com avaliação mais baixa que o fracasso comercial anterior da franquia, Fênix Negra.



Mesmo não sendo exibido em larga escala nos cinemas, há salas de cinemas abertas em algumas partes do mundo – incluindo França, Canadá e Reino Unido, tendo seu lançamento chegado nas terras do tio Sam somente hoje (28) de Agosto. Vale citar também que o filme está sendo lançado em algumas regiões que oferecem o cinema drive-in e sua previsão de estreia em território nacional é para o dia 10 de Setembro, para as redes de cinema abertas.


Aparentemente, o roteiro inicial de Josh Boone e Knate Lee, datado de 2015, tinha elementos de humor tais quais longas dos anos 80 como O Clube dos Cinco e A Lenda de Billie Jean. Mas a ideia não foi bem recebida. Até mesmo a participação de Tempestade no filme foi vista como um problema para os executivos da Fox.


De acordo com fontes próximas da produção, Ororo seria uma espécie de diretora da prisão onde estavam os jovens mutantes.


“Ela era uma carcereira sádica”, diz uma fonte. “Parecia que as crianças estavam sendo torturadas. Se os X-Men estavam mantendo os Novos Mutantes lá, isso não pode ser diferente daquilo que o público já conhece sobre eles [os X-Men], que eles são boas pessoas. Uma Tempestade como essa não fazia sentido.”


Como a base do roteiro para o longa vem da saga do Urso Demoníaco e tem fortes inspirações no filme A hora do Pesadelo 3, provavelmente a figura da Tempestade como vilã viria da personagem possuída pelo vilão. Assim como nos quadrinhos, ele poderia estar corrompendo suas vítimas e as tornando marionetes, ou ela poderia até mesmo ser um resultado das ilusões criadas por Dani. Mas por bem ou mal, nunca veremos esse corte.


PRECISAMOS FALAR SOBRE O RACISMO NA PRODUÇÃO


Outro fator que tem ajudado a afundar ainda mais a recepção do filme é o próprio diretor do longa. Recentemente, Josh Boone concedeu uma entrevista ao site Gizmodo falando sobre o filme, suas inspirações e algumas curiosidades. Em determinada parte da entrevista, o jornalista Charles Pulliam-Moore – que entrevistava o cineasta - perguntou sobre as críticas em relação à escalação do ator Henry Zaga para interpretar o brasileiro Roberto Da Costa, o Mancha Solar, no filme. De acordo com Boone, ele não ligou para as críticas em relação ao ator, e ainda complementou com uma fala totalmente desligada da realidade do Brasil.


Segue a fala: “Meu objetivo era encontrar um ator que se encaixasse no personagem que tinha em minha cabeça. Não havia ninguém que se comparasse ao Henry“. E continuou, “Mas nunca foi sobre a cor da pele (…) eu não me importo com racismo no Brasil, sobre a discussão da pele clara e pele escura. Eu queria representar o Brasil de uma maneira positiva. Queria encontrar alguém que parecesse ser rico de nascença, que tivesse um pai rico“, completou Boone.


Não podemos negar que os comentários de Boone são racistas e apenas confirmam que o diretor, assim como boa parte dos norte-americanos, desconhece a realidade do Brasil e de toda América Latina. Por mais que tenha sido feita a inclusão de não apenas um, mas dois brasileiros na produção - não podemos nos esquecer da presença da talentosa Alice Braga - os dois possuem pele clara e interpretam personagens negros dos quadrinhos, o que configura um caso visível de whitewashing, que ocorre quando um personagem de etnia diferente da maioria americana branca é alterado para ficar mais parecido com esse público.


O co-criador dos quadrinhos de Os Novos Mutantes, Bob McLeod, também se manifestou através de uma publicação no Facebook na Sexta-feira (28), reclamando que o filme embranqueceu um de seus personagens e soletrou seu nome incorretamente.


Fiquei muito animado quando soube que eles estavam fazendo um filme de ‘Novos Mutantes’”, disse McLeod. “Achei que transformá-lo em um filme de terror talvez fosse uma ideia interessante, mas não como os personagens deveriam ser apresentados ao público em geral. Mas, ei, meus personagens em um filme! Eu nunca teria pensado que isso realmente aconteceria.


“Mas, principalmente, fiquei muito desapontado com o fato de Roberto não ser baixo e ter a pele escura. Mais um exemplo de whitewashing em Hollywood”, acrescentou McLeod.

Roberto Da Costa, ou Mancha Solar, foi o primeiro personagem brasileiro da Marvel Comics. Ele foi criado em 1982 por Chris Claremont e Bob McLeod (Não MacLeod , ok Boone?) sendo um brasileiro, negro, que enquanto jogava futebol sofreu ataques racistas por ser mestiço (pai negro e mãe branca). Com muita raiva, Roberto acabou então por despertar seus poderes mutantes latentes. O carioca foi recrutado por Xavier para os Novos Mutantes, porém ele nunca seguiu o estereótipo brasileiro por um simples motivo: a família dele é muito rica. Isso facilitou sua aceitação na década de 80. Por muitos anos o personagem teve suas origens veladas nos quadrinhos, chegando a ter uma tonalidade de pele mais clara e cabelo liso em algumas fases.



Hoje, em 2020, vivemos outro cenário histórico-social. Assim sendo, logo a Marvel Comics entendeu a importância que o Roberto apresenta para os brasileiros, assim como Danielle Moonstar apresenta para os povos indígenas, tanto que a editora anunciou uma edição especial, que chega às bancas americanas em Novembro, intitulada “Vozes Indígenas”, e Roberto passou a ter mais destaque na equipe.


Boone não poderia ter sido mais infeliz com a descaracterização dos personagens, ao invés de olhar para o cenário global e entender a importância da abordagem de temas como racismo e diversidade étnica em produções. Ele optou por dar a sua "visão" do que seria melhor para os personagens.


Mas Os Novos Mutantes merecem afundar junto de Boone?


Chris Claremont e Bill Sienkiewicz revolucionaram o mercado dos quadrinhos na década de 80 ao inserir esses personagens em histórias mais sombrias, que fugiam do padrão editorial da época.



Temos que entender que Novos Mutantes não é uma criação de Boone. A equipe é conhecida e querida pelos fãs justamente por apresentar uma grande diversidade étnica. Temos, por exemplo, a Karma como uma heroína vietnamita LGBT que utiliza uma prótese de metal na perna, Dani sendo uma heroína ameríndia, além de termos personagens de países como Escócia, Rússia e Brasil.


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Outro fato que tem alimentado o hate no filme e que, segundo algumas críticas, alimenta o racismo contra povos indígenas, são comentários da personagem Illyana. A mesma chama Dani de "Pocahontas" e, em contrapartida, Dani tece um comentário em tom de deboche pelo passado traumático de Illyana, o qual referencia casos de sequestro e abuso infantil. A personagem foi sequestrada por demônios aos 6 anos de idade e levada para viver em uma dimensão demoníaca. Aproveite para conferir nosso especial no IGTV, no qual apresentamos melhor o passado da Magia.



Porém, a parte da internet que não consome o material original esquece que os personagens são adolescentes, com problemas e atitudes adolescentes, sendo comum existir essa toxicidade entre os membros em alguns momentos. Isso é visto na própria saga do Urso Místico, que coloca a equipe entre a vida e a morte e foi responsável por apresentar temas como metáforas ao preconceito existente mesmo dentro de grupos minoritários, além da toxicidade presente na adolescência. Ela marcou os fãs por fortalecer a relação dos jovens e fazer a equipe se ver como uma família.



Hoje, vivemos em uma época na qual o "gênero" de filmes de super-heróis saturou devido à enorme quantidade de obras semelhantes, excesso de telas verdes e histórias que visam somente o cinema "montanha-russa" de emoções. A Fox, depois de tanto apanhar, investiu em Logan e Deadpool, provando que adultos também consomem filmes de heróis. Isso abriu a possibilidade de novos tons e temas para serem abordados nos filmes.


Dessa forma, Os Novos Mutantes foi anunciado como o primeiro filme de Terror/Horror de super-heróis. Além disso, apresenta a primeira heroína ameríndia, o primeiro casal lésbico de heroínas e uma equipe onde mulheres são maioria e protagonistas, algo que diverge da maioria dos filmes de heróis lançados tanto pela Warner como pela Disney nos últimos anos.


Arte de Nelson Hernandez

Os títulos dos Novos Mutantes apresentam times compostos em sua maior parte por mulheres que fogem de estereótipos, são líderes e recebem destaque.

Será que não precisamos de mais filmes ou produções com esses aspectos no futuro?

Atualmente, existem diversas obras abordando o assunto racial (Watchmen, Lovecraft Country, Umbrella Academy), as quais trazem assuntos relacionados ao racismo para o mainstream. E isso não acontecia com frequência, mesmo esse assunto sempre sendo relevante. Lovecraft Country vai além e re-significa a obra de um autor que era racista, inserindo protagonistas negros no universo criado por H. P. Lovecraft. Os Novos Mutantes também pode trilhar o mesmo caminho no futuro, se tiver um futuro.


Vamos de #LEAVETHEKIDSALONE

Se o filme conseguir chamar a atenção da Disney, pode ganhar sinal verde para uma continuação ou inserção dos personagens no MCU. Josh Boone deve ser afastado da produção e o whitewashing pode ser compensado com, quem sabe, um Xavier e Magneto negros.


Talvez possamos ter um futuro melhor para a equipe, respeitando o material e longe de Josh Boone e seu racismo. Particularmente vejo a equipe melhor trabalhada em uma série para streaming, tendo tempo para apresentação, construção e desenvolvimento dos personagens. Algumas críticas internacionais alegam que o filme se parece com isso, um piloto de uma série para streaming, devido ao seu baixo orçamento.


O rato capitalista é ardiloso e conhece o potencial da franquia!


Certo. vamos agora à crítica sem spoilers



Os Novos Mutantes se passa em um hospital clínico onde cinco mutantes adolescentes residem semi-voluntariamente, enquanto aprendem sobre si mesmos e suas poderosas habilidades. A heroína do filme é Dani Moonstar (Blu Hunt), que desconhece seus poderes mutantes de criar projeções psíquicas dos medos mais profundos de outras pessoas.


Na cena de abertura, Dani compartilha um provérbio nativo-americano que prevê um importante desenvolvimento de enredo. Cada um tem dois ursos dentro de nós - um representando tudo o que é bom, o outro representando tudo o que é mal - que estão em constante guerra uns com os outros. Qual sai vitorioso?

A chegada de Dani à instituição abre o filme já de forma intensa, pois a reserva de sua família é destruída pelo que ela pensa ser um tornado e, quando acorda no hospital, ela percebe que foi a única sobrevivente. Toda a instalação é supervisionada por uma única pessoa, a Dra. Reyes (Alice Braga). Ela faz referências vagas à mansão para jovens superdotados de Xavier, que é supostamente para onde seus pacientes vão após "se graduarem", aprenderem a lidar com seus traumas e controlar seus poderes.



Enquanto Dani é a novata do grupo, que ainda desconhece seus poderes, Rahne (Maisie Williams), assim como nos quadrinhos, é uma personagem religiosa a qual pode se transformar em loba, Sam (Charlie Heaton) pode se tornar um míssil humano, Roberto (Henry Zaga) é o garoto rico que pode absorver a energia solar e utilizá-la para aumentar sua força física e, por último, Illyana (Anya Taylor-Joy) pode invocar uma espada feita a partir de sua alma e criar discos de teletransporte.


Nossos protagonistas são jovens, estão vulneráveis e apenas não querem machucar as pessoas com seus poderes. Ou, no caso da Magia, ela quer sim.

O filme, por se passar em uma instalação real, não tem muitas telas verdes, apresentando uma estética retrô semelhante à que vemos na série Legion, e um filtro de cores que apresenta tonalidades em sua maior parte escuras, que colaboram com a criação de uma atmosfera mais claustrofóbica e de perigo real. Às vezes, as cores se alternam para algo próximo do cinza, azul e levemente verde em alguns momentos de descontração entre a equipe na instalação. À medida que os poderes de Dani se manifestam, os traumas e fantasmas do passado de cada um começam a ganhar vida e a atormentá-los, o que confirma o longa como thriller psicológico.


Esses momentos ajudam a criar maior profundidade nos personagens e passamos a entender seus comportamentos. Roberto e Sam ainda se culpam por terem matado entes queridos em acidentes ao despertar seus poderes. Rahne, por ser a personagem que mais se aproxima de Dani, também é a que mais sofre com os poderes da nova mutante, revivendo seu passado traumático em companhia de um reverendo, o qual acreditava que a garota fosse cria do próprio demônio (saiba mais da história da personagem conferindo seu vídeo na nossa série especial sobre Os Novos Mutantes no IGTV). Enquanto isso, Illyana é revisitada pelos demônios que a sequestraram na infância para o Limbo, o que nos faz entender sua personalidade problemática.


Primeiro casal LGBTQIA+ dos filmes de heróis

Existem várias referências a filmes clássicos dos anos 80, como A Hora do Pesadelo, já citado aqui no texto, e Psicose. O ponto alto do filme, com toda certeza, é a história se centrar no romance entre Rahne e Dani, cujas cenas juntas são algumas das partes mais agradáveis e envolventes de todo o longa. Já Illyana é a terceira mosqueteira que fecha nosso trio de protagonistas femininas, e ela dispensa comentários, sendo tudo aquilo que vimos nos trailers e muito mais.



Ok, agora vamos aos pontos negativos.

Pelo fato do filme ter apenas 94 minutos de duração, entendemos que a produção realmente foi feita pensando em ser a primeira parte de três. As relações de amizade, forte marca presente na equipe nos quadrinhos, não te convencem pelo pouco tempo de tela para que elas se consolidem. Apesar da forma que a trama avança ser orgânica, somos encaminhados para o clímax de forma gradativa e, quando chegamos no terceiro ato... o filme logo acaba.


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Para quem não conhece os personagens, faltam explicações e mais demonstrações dos poderes. Esperava ao menos uma fala da Magia a respeito de onde vem sua espada e para onde ela vai quando se teletransporta. Outra grande decepção foi a sensação de falta de surpresas: não é que elas não existam, elas estão lá se você prestar atenção, mas devido a enorme quantidade de material promocional liberado, infelizmente os melhores momentos foram revelados nos trailers. Loockheed mal aparece e já desaparece durante as cenas noturnas (sai caro fazer um dragão em CGI de dia e nessa altura do campeonato o orçamento todo do filme já tinha ido). Seria melhor se o famoso parceiro de Kitty Pride nos quadrinhos desse as caras de surpresa para terem algo realmente relevante para entregar aos fãs.



Em relação a Dra. Reyes, Alice Braga conseguiu tirar leite de pera e, por ser uma excelente atriz, conseguiu dar um ar de tutora e acolhedora dos personagens no primeiro ato do filme. Porém, logo sua personagem desanda pelo roteiro e passa a não fazer muito além de ficar olhando para as câmeras no monitor e testando os poderes de Dani. Ah, seu poder de criar escudos e domos é muito interessante também, mas não salva. Enfim, vou deixar que tirem suas próprias conclusões sobre a personagem quando verem o filme.


Para encerrar a crítica, o desfecho do filme foi bem diferente do que esperava, e Dani tem uma importância maior que na saga original do Urso Demoníaco dos quadrinhos. O filme realmente é sobre ela.

Os Novos Mutantes pode não ser o melhor filme de heróis já produzido, mas está longe de ser o filme ruim que é falado pela internet a fora.



Independentemente da forma pela qual você verá o filme no futuro, não deixe que o efeito manada da internet interfira na sua experiência. Veja e crie sua opinião. Cada crítica é única e o que um crítico escreve reflete vários aspectos subjetivos de sua pessoa. O papel dessa pessoa é transmitir sua experiência com a produção para que a audiência tenha seu próprio discernimento da obra. No meu caso, sou só um fã de 25 anos que acompanha as histórias desses personagens desde a infância e tem um carinho enorme por esse grupo e suas histórias.

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Se você gostou do texto, que era para ser apenas uma crítica e se tornou um manifesto, ouça agora o episódio extra do nosso podcast, no qual falamos mais sobre Os Novos Mutantes nos quadrinhos! (Atenção! O programa foi gravado antes de assistirmos o filme para a crítica).















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