OtageekCAST #28 | Vamos falar sobre Love Victor colab. Gay Nerd e Crítica

Atualizado: Ago 25

Depois de ser deixada pela Disney+, "Love, Victor" estreou na Hulu mostrando que tem muito para oferecer apesar de seus muitos clichês, e que a velha Disney mais uma vez quis esconder sua homofobia com motivos vazios.


Com 13 episódios, o seriado acompanha muitas histórias, tendo um destaque para quase todo personagem além do Victor. Isso acaba sendo meio bagunçado, já que a história corre nos primeiros episódios e força muitas situações. Felizmente, a partir da metade da temporada muito disso acaba e a série tem seu tempo para respirar e evoluir.


A série acompanha Victor (Michael Simino), um adolescente de uma família latina e de baixa renda que se muda para uma nova cidade devido a uma nova oportunidade de trabalho que o pai - Armando (James Martinez) - recebeu. A família, além dele e do pai, conta com sua mãe Isabel, interpretada pela incrível Ana Ortiz (Devious Maids, Ugly Betty), sua irmã Pilar (Isabella ferreira) e seu irmão mais novo Adrian (Mateo Fernandez).



Em suas cenas iniciais, a série já apresenta conexão com o filme “Com amor, Simon”, através de uma narração do personagem enquanto ele manda mensagens para Simon (Nick Robinson). Nessas mensagens, ele relata seu primeiro dia na escola que, assim como em qualquer série adolescente, foi horrível. A série então passa por um flashback no primeiro episódio para mostrar esse terrível dia, mostrando a sua chegada em Creekwood.


Sem demorar muito e logo de cara, somos apresentados ao personagem que já está configurado pelos próprios trailers e descrição de sinopses como melhor amigo de Victor: Felix (Anthony Turpel). A cena é super forçada e estranha, pois o personagem aparece do nada para cumprimentar a família e desesperadamente se nomeia amigo de Victor, que aceita sem ao menos achar isso estranho. Com essa apresentação fora do caminho, Felix introduz a cidade, as ideias de identidade do primeiro episódio e a nova escola em um monólogo bem mastigado, no qual deveria ser uma conversa entre os dois enquanto caminham para seu primeiro dia de aula.


Uma das maiores críticas em “Com amor, Simon” foram todos os privilégios que o próprio Simon tinha... muitos comentários na internet falam sobre como para ele diversas coisas eram muito mais fáceis, sendo Simon um menino branco, de classe alta, com ótimos pais e amigos super compreensivos, que teve apenas a si mesmo como obstáculo. "Love, Victor" optou por fazer o completo oposto, já que a família de Victor não tem muito dinheiro e isso causa um choque quando Victor descobre o quão ricos a maioria dos outros alunos são. De brinde, ele ainda conta com pais religiosos e que não tem o melhor dos relacionamentos devido a certos problemas antes de se mudarem.


Love, Victor usa muito bem as criticas do filme para criar uma maior complexidade na história, trazendo elementos que podem trazer uma conexão maior com o público. O jeito que a família de Victor é retratada é perfeito, pois mostram seus dias bons, ruins, a dificuldade que é manter um casamento, as complexidades de casar com seu primeiro amor e tudo isso enquanto tenta manter 3 filhos saudáveis.


Apesar de pontos altos em como resolveram estabelecer certos elementos, em oposto ao filme de Simon, clichês não faltam na série e os elementos apresentados mostram que ela foi claramente feita para o público mais jovem da Disney. Digo isso não de uma forma negativa, apenas para retratar o estilo e escolha de decisões em arcos, pois mesmo o conteúdo jovem de canais como a CW lidam com produções focadas em adolescente de uma maneira completamente diferente.


Apesar de um início bem atrapalhado e alguns arcos de história que você consegue saber do início ao fim o que vai acontecer (caso já tenha um background mínimo de séries adolescentes), "Love, Victor" tem um elenco forte que carrega a história e aproveita cada cena.



Falando das fortes atuações, um grande destaque da série acaba sendo Mia (Rachel Hilson), que acaba se tornando um dos interesses amorosos de Victor enquanto ele navega por suas descobertas sexuais. A personagem tem uma ótima construção e de cara é uma das mais bem trabalhadas, apesar de algumas conexões forçadas que ela tem com Lake (Bebe Wood), sua melhor amiga, e Andrew (Mason Gooding), o atleta valentão da escola. E ainda adiciono que esse último é o personagem mais dispensável da série.


Mia é uma das personagens mais maduras da trama, fazendo às vezes parecer que todos em sua volta são personagens de séries diferentes. Sua história de independência e como se virou sozinha é muito bem construída, mostrando em detalhes de conversas e algumas cenas o quanto o pai viajava constantemente e como ela criou para si mesma uma segunda pele para se proteger do mundo. Rachel Hilson traz todos esses detalhes de Mia para cada cena sua, principalmente quando vemos ela se abrindo pouco a pouco para Victor. É uma pena que as personagens femininas não passem pelo teste de Bechdel e que Mia não ganhe uma extensão de sua história própria.


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O outro par romântico de Victor é Benji (George Sear), que apesar de também ser aluno na mesma escola de Simon, aparece bem menos no seriado e no ambiente da escola. Os dois acabam criando uma relação de amizade e amor platônico quando Victor busca um trabalho em uma cafeteria.


O romance de Benji e Victor fica em segundo plano na maior parte da série, tendo destaque apenas nos episódios finais. Entretanto, o ator é extremamente carismático e as cenas em que aparecem são sempre boas, já que os atores tem uma ótima química.


"Love, Victor" cria diversas situações para ser algo próprio que se diferencie do filme de Simon, e muito desses pontos acabam sendo um acerto. Todavia, mesmo assim, a história perde chances de se tornar algo ainda maior. Victor pontua como sua história não é a mesma de Simon e como sexualidade é um espectro, abrindo todas as portas para uma descoberta sexual mais profunda. No entanto, a partir da metade do seriado, você vê o garoto abandonando essas ideias e se jogando na mesma jornada de Simon.


Enquanto Victor cai em um arco mais previsível na segunda metade da temporada, todos os outros personagens ganham merecidas evoluções. Lake e Felix passam pelas melhores transformações e acrescentam-se camadas importantes a seus personagens, que trazem uma total mudança para como olhamos os dois. Felix, apesar de sua introdução péssima e uma fala ou outra completamente absurdas sobre um amor problemático em que o outro é o significado da vida de uma pessoa, se desenvolve em um personagem maduro e cheio de momentos fofos com Victor e Lake. Já Lake mostra seu lado vulnerável e sua própria auto-consciência sobre seus gostos e ações que não lhe trazem benefício, mas que não consegue evitar devido à sua baixa autoestima.


A família de Victor também tem seus próprios arcos, que no entanto não são tão satisfatórios e têm muitos altos e baixos. Porém, culminam em um resultado muito positivo para um desenvolvimento real. Vale destacar que o irmão mais novo, Adrian, rouba a cena com ótimas piadas e entrega de falas.




Por fim, "Love, Victor" não escapa de suas próprias previsibilidades no arco da história principal. Todavia, com um elenco forte e ótimas evoluções e desenvolvimentos de alguns personagens, a série mostra que tem potencial para uma ótima segunda temporada. É bem provável que, agora na Hulu, possamos ver uma série mais madura e livre de elementos que foram obviamente colocados devido à sua ideia inicial de estar na Disney.


Vale destacar que um excelente episódio da temporada, o qual se conecta diretamente ao filme de Simon (detalhe que esse episódio é claramente o motivo da Disney+ ter dispensado a série), contém ótimos elementos sobre a cultura LGBT+. Eles mostram o quão grande o mundo é fora da bolha da série, e que a mesma tem potencial para ir além.


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Ouça agora o episódio do nosso podcast em que comentamos junto ao Marcel do canal Gay Nerd.

Apresentação: Riuler, Norman

Convidado especial: Marcel


Ou ouça online a partir do nosso player no Castbox:


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