Crítica | Documentário NORMAL e o problema de gênero


NORMAL (2019) é um documentário dirigido e roteirizado pela italiana Adele Tulli.

Na obra, a diretora optou por uma narrativa sem diálogos ou entrevistas, muito menos existe uma pessoa como protagonista.


Outro aspecto interessante é a não linearidade na história. As cenas não possuem uma continuidade cronológica ou uma ligação direta, no entanto elas são conectadas pela temática abordada no documentário, bem como tal tema é o verdadeiro protagonista da produção.



E que tema seria esse? A heteronormatividade. Ainda, se dermos um aprofundamento maior, o documentário apresenta o que a filósofa Judith Butler denomina como o problema de gênero.


Como assim?


A construção e produção da obra NORMAL traz consigo algumas coisas que encontramos nos primeiros capítulos do livro de Butler - Problema de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade.


De acordo com a autora, a questão do gênero é muito complicada e um dos fatores que gera esta complexidade é o sexo. E ambos estão interligados.


Enquanto o sexo é um fator biológico em relação à anatomia dos corpos femininos e masculinos, o gênero é algo culturalmente construído que define e estabelece comportamentos, normas e padrões. Ele é aplicado à pessoa a partir do sexo de nascimento. Dessa forma, o gênero é limitado ou restrito pelo sexo ao qual pertence o indivíduo.


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O gênero é algo culturalmente edificado e que define uma forma de determinismo social, excluindo a possibilidade de que a pessoa tenha comportamentos, sentimentos, atitudes que fujam destas normas que são validadas como NORMAL. Logo, isso resulta em determinar até mesmo o destino do indivíduo.


Por exemplo, alguém que nasceu no sexo feminino não deve se considerar pertencente ao gênero masculino, bem como não deve possuir vontades, comportamentos, ações, entre outros aspectos, que são ditos como pertencentes aos homens.


Por fim, mesmo que os cientistas sociais se refiram ao gênero como um “fator” ou “dimensão” da análise, ele é aplicado a pessoas reais como “marca” de diferença biológica, linguística e cultural, tornando a própria definição de sexo uma construção mais cultural do que biológica de fato.


A partir das avaliações de Butler, caro leitor, fica mais fácil compreender de forma mais crítica o porquê das expressões: "azul é de menino e rosa de menina"; "futebol é coisa de homem"; "lugar de mulher é na cozinha".


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Além disso, você também passa a entender o porquê das salas de cursos de engenharias terem mais homens do que mulheres e em cursos de estética mais mulheres do que homens, entre outras inúmeras situações que podem ser avaliadas e inclusive foram mostradas pela diretora no documentário. Aqui vão alguns exemplos:

  • Preparativos para casamento, álbuns de fotos, escolha do vestido e como cada um desses fatores possuem aspectos que reforçam os papéis de subalternidade das mulheres para com seus futuros maridos;

  • Práticas esportivas são voltadas para os homens, já para as mulheres ficam exercícios físicos como Jump para manter o "corpo em dia";

  • Videogames como jogos de guerra e violência para os meninos e brinquedos como panelas, ferro de passar roupa e mini cozinha para as garotas;

  • Festas rodeadas de pessoas jovens com uma padronização de roupas por mulheres e de estilo de penteado pelos homens;

  • Eventos de motociclistas com a erotização de corpos femininos e modalidades arriscadas, reforçando que são ambientes construídos para o público masculino.


A diretora captou na câmera, nos enquadramentos e planos momentos simples do cotidiano, muitos envolvendo cuidados e carinhos, como a garotinha que fura os ouvidos aprendendo desde cedo a cuidar da beleza, ser sorridente e delicada. Vemos também garotos que ainda crianças já erotizam e objetificam mulheres ao vê-las dançando com corpos semi-nus... isso acompanhados dos pais.


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Em um primeiro momento tais fatores não expressam nenhum risco físico ou mental, no entanto corroboram para fortalecer normas da heteronormatividade que futuramente trarão várias consequências negativas, como a não aceitação e o respeito a outras pessoas que não querem seguir esses padrões, como por exemplo o público LGBT. Inclusive, esse é um público que Tulli usa para quebrar os paradigmas da heteronarmatividade: na última cena, temos a celebração de um casamento homossexual.


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Pontos negativos da Obra


Acredito que o objetivo principal de Tulli era provocar reflexões nos telespectadores em relação à temática usada. Entretanto, apesar da abordagem da diretora ser muito válida e digna de reconhecimento, a forma como a mesma desenvolveu o documentário pode não ser de fácil compreensão para uma grande parte de telespectadores mais leigos. Muitos possuem pouco conhecimento crítico em relação à temática e dificilmente irão criar associações imediatas entre as referências visuais usadas e as concepções e complexidades do problema de gênero e da heterornomatividade.


Esse documentário faz parte do festival 8 ½ Festa do Cinema Italiano e está disponível totalmente gratuito e online de 28 de Agosto até 10 de Setembro. Para acessá-lo, basta ir até o site do festival e, por meio da plataforma Looke, realizar um cadastro gratuito.


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