• Lucas Almeida

Conhecendo o cinema "simples e saboroso" de Greta Gerwig

Atualizado: Mar 17


Nascida no dia 4 de agosto de 1983 nos EUA, Greta Celeste Gerwig ou apenas Greta Gerwig é atriz, roteirista e uma das jovens diretoras em ascensão em Hollywood. É defensora do movimento feminista e realiza obras de uma forma muito particular e natural, transitando pelo atual e clássico de um jeito muito pessoal. Ao dirigir “Lady Bird: A Hora de Voar” (2017), a diretora se tornou a quinta mulher a ser indicada ao Oscar de melhor direção do ano seguinte.


Greta iniciou seus estudos em uma escola católica apenas para meninas, mas seu primeiro diploma ocorreu na universidade de Barnard (NY), onde estudou Inglês e Filosofia. Porém, desde sempre se viu interessada em aprender e estar no mundo da arte. A até então estudante, sendo apaixonada por dança, pretendia se formar em teatro musical em Nova York, o que não ocorreu. Mas a partir dessa época, o seu interesse e amor por cinema começou. Após ter sido recusada em todos os programas de mestrado em dramaturgia, Greta deu início no meio pela atuação, estrelando filmes de baixo orçamento com seu futuro amigo e diretor Joe Swanberg.


O seu início como atriz ocorreu em “LOL” (2006), e logo a sua parceria com Swanberg cresceu, tendo ela atuado em vários outros filmes do diretor. Greta chegou a codirigir, coescrever e coproduzir um desses filmes, titulado “Nights and Weekends” (2008). Chegando a trabalhar com outros nomes da indústria, a até então atriz atuou em “A Casa do Diabo” (2006) de Ti West, em “Descobrindo o Amor” (2011) de Whit Stillman e em “Para Roma Com Amor” (2011) de Woody Allen.

Porém, o reconhecimento só veio no ano de 2013, quando Greta atuou e escreveu junto de Noah Baumbach a obra “Frances Ha”, dirigido por ele próprio. No longa, Greta entrega uma atuação carismática, desajeitada e incrivelmente viva, interpretando “Frances”.




Depois de dirigir junto de Swanberg “Nights and Weekends”, Greta deu início à promissória carreira de diretora. Em 2017, ela escreveu e dirigiu o prestigiado filme adolescente semi-autobiográfico “Lady Bird: Hora de Voar”. Com atores experientes como Laurie Metcalf e Tracy Letts e os jovens, mas de um prestígio gigantesco na indústria, Saoirse Ronan, Lucas Hedges e Timotheé Chalamet. O filme recebeu cinco indicações ao Oscar de 2018, nas categorias de Melhor Atriz, Melhor Filme, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original. Por conseguinte, levou Greta a ser a quinta mulher a ter uma indicação ao Oscar de melhor direção.


Em 2019, Greta adaptou para as telas e dirigiu o filme “Adoráveis Mulheres”. Essa foi a oitava adaptação da obra “Mulherzinhas” de Louisa May Alcott. Estrelado novamente por Saoirse Ronan e Timotheé Chalamet, o longa-metragem traz também outros grandes nomes do cinema como Meryl Streep, Emma Watson, Laura Dern, Florence Pugh e Eliza Scanlen. Acabou por render seis indicações no Oscar de 2020, nas categorias de Melhor Atriz, Melhor Filme, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Trilha Sonora Original, Melhor Roteiro Adaptado e na categoria da qual foi vencedor, Melhor Figurino.


Greta Gerwig se vale de um estilo muito particular e próximo a ela. No decorrer de seus filmes, seja na direção e principalmente no roteiro, Gerwig se baseia nas relações que as mulheres têm uma com a outra. Por exemplo, em “Frances Há”, temos uma relação muito forte de duas amigas, que devido às suas escolhas caminham para um enfraquecimento da amizade. Já em “Lady Bird: Hora de Voar”, temos a relação fortíssima e conturbada de mãe e filha que, por terem personalidades fortes e parecidas, se encontram constantemente em conflito. Em “Adoráveis Mulheres” não é diferente: o filme narra a relação das irmãs March, enquanto as quatro buscam viver seus próprios sonhos em suas próprias regras.



A diretora sempre busca contar quem são essas pessoas por meio também de suas relações externas com o mundo, isto é: emprego, dinheiro, família, amigos, relacionamentos, dentre muitos outros. E o lidar com essas relações sempre vem com altos e baixos, dor e alegria, vitória e derrota, sem nunca se esquecer de nos aprofundar nos personagens. Gerwig nos mostra personagens imperfeitas que passam por inúmeros problemas. Temos o medo da solidão, do tempo, da própria aceitação e do caminho à fase adulta. Dessa forma, essas personagens por muitas vezes são atropeladas pela vida, não sabendo lidar com o processo do amadurecimento feminino. Assim, ela traz essas personagens do jeito mais simples possível, buscando o mais próximo do real.


Em relação ao seu roteiro, podemos perceber diálogos que por vezes parecem totalmente improvisados. Isso ocorre devido à naturalidade de sua escrita. Ela é leve, precisa, como se fossem pessoas seguindo seus próprios instintos em cada cena. Isso se torna óbvio quando se trata de uma diretora querendo contar histórias de jovens que buscam encarar os desafios da vida. Desafios que podem dar certo, que podem dar errado, mas que de qualquer forma precisam ser encarados da forma mais verdadeira e real possível.


A diretora esbanja técnica ao construir a narrativa de seus filmes. Com um desenvolver de história fora do óbvio, Greta nos faz querer acompanhar os passos da protagonista sem nos preocupar onde e como ela chegará ao final da história. Isso se concretiza na naturalidade dos personagens em seus filmes. A diretora conduz seus atores de uma forma que por nenhum momento parece que eles estão atuando. Ou seja, eles usam e abusam da própria improvisação. É claro que muito se deve ao seu estilo de escrita, trazendo diálogos e situações corriqueiras do nosso dia-a-dia.


No processo de criação de “Lady Bird”, Greta juntou-se com Sam Levy (com quem já tinha trabalhado em “Frances Há” e “O Plano de Maggie”) a fim de descobrirem como poderiam transformar as ideias visuais quase abstratas de Gerwig em realidade – seu plano era brincar com as cores. Levy entrou em contato com o colorista Alex Bickel (que trabalhou em “Moonlight” (2016)) para desenvolverem uma técnica que carregaria a visão de Greta.


Em uma entrevista, Greta contou que queria que o filme se parecesse com uma memória: “O que eu continuava dizendo [Gerwig estica seu braço e coloca sua mão o mais longe possível de seu rosto] – Eu queria que o filme estivesse lá”. Sua vontade era que as cenas fossem sentidas e continuava insistindo que tinham de criar algo genuíno. Observando fotografias de Lisa Sarfati (fotógrafa e artista francesa), Greta, junto a seu time, chegou a um conceito de “simples e saboroso” – era assim que “Lady Bird” tinha de parecer.


A concepção de memória tinha conexão com fotografias impressas que eram desgastadas pelo tempo e pelas mãos e, como o filme seria gravado digitalmente, o desafio era não fazê-lo parecer digital. Filmado com a câmera ARRI Alexa Mini, com lentes Panavision antigas, a textura que se pode ver na fotografia da obra é a granulação da própria câmera – que foi alcançada após vários testes. Ou seja, ao invés de usarem granulação artificial, usufruíram da tecnologia de uma forma “feita à mão”.


Esta criatividade também pode ser notada em “Adoráveis mulheres”, no qual Greta usa as cores de forma sutil para separar o passado do presente. No passado – a adolescência – foram usadas cores mais quentes e vivas, pois se tratava de um período alegre e doce na vida das personagens. Já no presente – a vida adulta – tons escuros e frios tomam conta, pois se trata de uma época de dificuldades e melancolia. No final do filme, após as irmãs superarem todas as atribulações e continuarem unidas, as cores alegres voltam à cena.


Nesse pouco tempo como diretora em seus próprios filmes, Greta lançou duas obras que agradaram o público e a crítica. “Lady Bird” e “Adoráveis mulheres” proporcionaram a ela um reconhecimento que até então existia apenas em suas atuações e roteiros. Isso conduziu a inúmeras indicações ao Oscar de 2018 e 2020 por esses dois filmes. Além do mais, a diretora, junto de seu marido Noah Baumbach, estarão responsáveis pelo roteiro do Live-Action da “Barbie”, com grandes possibilidades de Greta assumir a direção do novo longa-metragem que ainda não tem data de estreia prevista.



*Texto referente a trabalho universitário em parceria com Isabelle Ferreira.

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