• Ian Paranhos

Análise sobre culpa - E Não Sobrou Nenhum

Atualizado: Abr 12

Agatha Christie foi uma escritora britânica que se popularizou no gênero de romance policial e em vida até recebeu o título de Rainha/Dama do Crime ao qual é utilizado para referir-se a ela até hoje. Agatha é a romancista que mais obteve sucesso da história, seus números de obras vendidas só ficam atrás de William Shakespeare e a Bíblia. Dentre os seus mais de 80 livros, hoje iremos falar sobre “O caso dos dez negrinhos” ou como foi lançado no Brasil “E não sobrou nenhum”.


“Dez soldadinhos saem para jantar, a fome os move;

Um deles se engasgou, e então sobraram nove.

Nove soldadinhos acordados até tarde, mas nenhum está afoito;

Um deles dormiu demais, e então sobraram oito.

Oito soldadinhos vão passear e comprar chiclete;

Um não quis mais voltar, e então sobraram sete.

Sete soldadinhos vão rachar lenha, mas eis

Que um deles cortou-se ao meio, e então sobraram seis.

Seis soldadinhos com a colmeia, brincando com afinco;

A abelha pica um, e então sobraram cinco.

Cinco soldadinhos vão ao tribunal, ver julgar o fato;

Um ficou em apuros, e então sobraram quatro.

Quatro soldadinhos vão ao mar; um não teve vez,

Foi engolido pelo arrenque defumado, e então sobraram três.

Três soldadinhos passeando no zoo, vendo leões e bois,

O urso abraçou um, e então sobraram dois.

Dois soldadinhos brincando ao sol, sem medo algum;

Um deles se queimou, e então sobrou só um.

Um soldadinho fica sozinho, só resta um;

Ele se enforcou,

E não sobrou nenhum.”



O livro conta a história de dez icônicos personagens que são convidados por uma pessoa misteriosa, o Sr. Owen, para passar alguns dias em uma ilha. Cada personagem foi pra lá por um motivo, convidado por uma razão diferente. Chegando lá se deparam com o icônico poema previamente apresentado que dá escopo a história inteira. Ao chegarem para o jantar, onde há exatas dez figuras de soldadinhos em cima da mesa, eles são surpreendidos quando um gravador é acionado ligando uma fita, com o interlocutor uma pessoa desconhecida, que revela todos os crimes que cada um dos 10 personagens cometeu e que, por alguma razão não houve julgamento ou não houve provas o bastante para julgá-los, na gravação a voz disse que cada um naquela sala iria pagar pelos crimes cometidos, com a própria vida. E então o medo se espalha e a história começa.

O livro inteiro é uma história incrível e cheia de plot twists é praticamente impossível descobrir o final. É um livro relativamente pequeno e ótimo para novos leitores já que o instiga a terminar rápido para saber como a história termina. Salve a recomendação do livro, que também tem diversas adaptações em séries e filmes, sendo a mais recente uma adaptação pra uma minissérie lançada pela BBC no final de 2015, agora iremos falar de um assunto bastante interessante que é abordado no livro, o conceito de culpa, não só na questão legal da culpa, mas também no sentimento de culpa e a negligência desse sentimento. Já aviso que, como iremos tratar assuntos que são apresentados no livro, o que vem a seguir está lotado de spoilers, então se você ainda não leu, recomendo que o leia primeiro antes de continuar.




Na história temos 10 personagens com diversas características diferentes, cada um tem sua moral, ética, seu modo de agir e de pensar. Na cena inicial onde estão todos juntos no primeiro jantar, vemos que tem um que age de forma diferente e essa atitude deixa os outros personagens com dúvidas, medo e olhares contrariados de desconfiança. Esse personagem é Phillip Lombard que desde o anúncio que expôs o crime dos 10 soldadinhos, confirmou que realmente cometeu o crime de deixar uma tribo de nativos para morrer de fome numa viagem. Lombard foi o único que disse a verdade desde o começo e, sua engenhosidade pode ser comparada aos detetives que comumente são corajosos, perceptivos e protagonistas de romances policiais. O que é interessante em Lombard é como ele desde o ínicio assumiu seus crimes e vendo a diferença dele para os outros personagens podemos abrir um parâmetro para entender o que é “mais errado” e o que é a culpa. Lombard, segundo o Sr. Owen é o segundo com crime mais grave, mais fora de alcance da lei, porém, é o menos hipócrita já que assumiu desde o início seu crime diferente, por exemplo, do Dr. Armstrong que desde o assassinato em uma cirurgia bêbado ficou transtornado e nunca mais bebeu, culpado e amargurado por uma vida inteira. São visões diferentes, jeitos diferentes. É interessante mostrar esse lado da história para abrir um pensamento sobre o que é mais errado, uma pessoa que comete um crime e é assombrado por aquele crime o resto da vida sozinho e apreensivo, sem assumir o crime e até negando que o fez podendo até o levar para a forca como Vera Claythorne ou uma pessoa que assume um crime doentio sem rancor ou peso na consciência? É complicado julgar se uma coisa é mais errada do que a outra, é até errado pensar dessa forma já que cada um tem um senso de justiça desnorteado pelas próprias convicções, mas, de certa forma é interessante analisar coisas como essa para até mesmo não virarmos um juiz maluco por justiça.

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