A quarta parede: muito mais que um recurso cinematográfico

Atualizado: Jun 11


Sabe aquele momento no qual o personagem simplesmente olha para a câmera e começa a falar diretamente com você no decorrer do filme, dando a entender que as ações, personagens e cenas não são reais? Quando ele age como se literalmente reconhecesse que está dentro de uma narrativa, e que tudo não passa de uma atuação ou algo do tipo?


Bom, o recurso cinematográfico usado neste contexto é conhecido como quebra da quarta parede. Possivelmente já deve ter ouvido falar sobre, entretanto, você também sabia que esta técnica deve ser muito bem executada? Isso ocorre pois, ao ser utilizada em um longa, afeta diretamente um fator essencial em uma narrativa cinematográfica: a diegese.



Oi?

Diegese? Como assim?


Calma, vamos à teoria...



A quarta parede


No teatro existem três paredes "sólidas ou opacas" que fazem parte do cenário: as laterais e o fundo. As pessoas assistem passivamente à peça em sua frente, e os personagens da mesma atuam ignorando por completo a existência de uma platéia a observá-los. Como se existissem dois mundos separados por uma “quarta parede sólida e impermeável" que, diferentemente das demais, é invisível.


Originada do teatro, a quarta parede funciona como uma divisória invisível entre o público e a história fictícia encenada, e atrás desta parede imaginária a plateia assiste de forma passiva à ação do “mundo encenado".


Posteriormente, este recurso passou a ser usado no cinema, no qual sua eficácia é maior: não há atores ou locais, a narrativa é projetada em uma tela e a trama é contada a partir de cores, movimentos e luz, que transmitem a crença de que no filme há um mundo particular.


Por conseguinte, ao assistir a obra cinematográfica, em certos momentos questiona-se a veracidade dos acontecimentos narrados, como e de que forma ocorreriam no mundo real. Mas ainda assim, sentado diante de uma tela para assistir o filme, você emerge na história, aceitando toda a realidade ficcional apresentada.



O que torna este contexto possível é o que chamamos diegese, termo que vem do grego - diègèsis - utilizado na linguagem cinematográfica para se referir a tudo aquilo que é apresentado na realidade do filme: a verdade do universo ficcional da história vivenciada pelos personagens.


A diegese é constituída por tudo o que acontece nesta ficção e o conjunto de elementos que a compõe, tais como o tempo, o espaço, os signos sonoros, as paisagens, os acontecimentos, entre outros elementos narrativos, que em seu estado literal fortalecem a veracidade fictícia da obra. Eles possibilitam ao telespectador ser transportado de sua realidade para a da narrativa, e convencem-no de que tudo o que é assistido poderia ser uma cena real, assim passando o efeito de realidade, e não a realidade em si.


Salienta-se que a diegese de um longa é regida por suas próprias normas de funcionamento interno, de acordo com o enredo e independentemente do mundo que está fora da obra. Entretanto, quando é quebrada a quarta parede e dá-se abertura para a interação com o público, que sai de uma posição de passivo para ativo. As normas da diegese são assim afetadas e ficam sujeitas a interferências e rompimentos que podem vir a ameaçar o efeito da realidade da trama ficcional


Por outro lado, se bem aplicada, o público tem sua participação convocada para interagir de forma mais ativa e passa a ter informações exclusivas sobre os acontecimentos, os quais lhe são mostrados pelo próprio personagem-narrador enquanto este dialoga com a plateia, geralmente em segunda pessoa.


Desta forma, a narrativa original, que era independente do mundo fora dela, agora passa a ser uma realidade paralela na qual o personagem-narrador passa a dar mais credibilidade ao mundo criado, o que favorece a interação direta com o público. Isso propicia ao telespectador a sensação não somente de assistir a história, como também de participar dela e ser um confidente, reforçando e intensificando laços de relacionamento entre ele e o personagem-narrador.




DEADPOOL


Assim que roda a vinheta tradicional da Marvel já sabemos que o filme irá tratar de um super-herói, ou talvez de um anti-herói. Deadpool, apesar de trazer aspectos comuns de outros longa do gênero, como um vilão e o romance, tem seu diferencial enfatizado nos primeiros minutos do filme: ele olha diretamente para câmera e dirige-se aos espectadores, possuindo plena consciência de que está em um filme de ação e é um dos personagens do mesmo. Além disso, Deadpool expressa esse fato de uma forma nada convencional, e eu diria até que inédita: critica seu próprio personagem, mexe com a câmera, faz diversas piadas e até mesmo comenta sobre o baixo orçamento do filme.



Com um humor extremamente ácido e referências satíricas e culturais, Deadpool retrata a narrativa conduzindo o espectador através de seus comentários nas cenas. Através dos mesmos ele compartilha diversas informações, incluindo algumas das quais somente ele e o público terão ciência. Essa postura dá ao espectador um espaço reservado e privilegiado em relação à diegese do filme, aumentando a sensação de cumplicidade e aproximação com o público.


Dentre as cenas em que conversa diretamente com os espectadores, destacamos a pós-créditos: além da quebra da quarta parede, o personagem faz uma Alusão por Referência ao filme “Curtindo a Vida Adoidado”, no qual o personagem principal, Ferris Bueller, também fala constantemente com o espectador.



CURTINDO A VIDA ADOIDADO


Trata-se de um clássico de mais de 30 anos que" bateu muito ponto" na sessão da tarde! Neste filme vemos o protagonista Ferris Bueller não somente tirar um dia para ficar totalmente despreocupado com suas responsabilidades, mas também pouco se importar em manter a realidade ficcional da obra: ele conversa diretamente com espectadores em inúmeras situações, seja sozinho ou com outros personagens.


Com a temática Day Off, ele mexe com os sentimentos do público, aumentando sua intimidade com o mesmo. Afinal, em circunstâncias normais e antes da pandemia, quem não gostaria de simplesmente acordar e tirar um dia de folga das obrigações diárias para se divertir?



Assim sendo, mesmo afetando diretamente a diegese diante da quebra da quarta parede, há uma certa união entre dois mundos, que foram unificados pelo próprio Ferris: ao interagir com o público, o personagem faz dele seu cúmplice e confidente, gerando uma aproximação coletiva.


Não obstante, no decorrer do longa essa interação constante é tão natural que acaba sendo vista como parte fundamental do filme, assim como de sua diegese. Desta forma, ela de certa maneira não é agredida em nenhum momento por tais interações .



A GRANDE APOSTA


O filme aborda como temática principal o colapso econômico de 2008, que afetou não só os Estados Unidos, mas o todo o mundo. Há muito o que se destacar no filme: um ótimo roteiro, um elenco de peso, além do uso do recurso cinematográfico de quebra da quarta parede, que e é feito de duas formas:



  • O ator Ryan Gosling interpreta Jared Vennett, que é o personagem narrador/guia o qual nos conta e conduz a maior parte da história, em situações significativas conversando diretamente conosco.

  • É bom lembrar que o filme usa vários termos e siglas referentes às nomenclaturas Wall Streetianas e do ramo da economia, do qual maior parte do público não entenderia. Assim, são inseridos no filme, "invadindo" a diegese, profissionais do ramo artístico como Selena Gomes e Margot Robbie, para que de formas mais simples e sarcásticas possam nos explanar tais conceitos.



Note que bem mais que gerar a aproximação com o espectador igualmente vista nas obras anteriores, o propósito maior do uso da quebra da quarta parede aqui é auxiliar a retratar e elucidar um contexto negativo que prejudicou várias pessoas, com a seriedade necessária muito bem misturada a um lado cômico, sarcástico e peculiar.



Por fim, após esse artigo, perceba que cada um dos filmes, mesmo contendo aspectos em comum como o humor e a interação com o público, a utilização do recurso da quebra da quarta parede não somente causa a aproximação com espectador, bem como é fundamental para gerar os seguintes efeitos ou resultados nas obras:

  • Em Dedpool, ao final do filme, pode-se concluir que o humor e a graça do longa são uma referência escrachada, que reflete a personalidade exacerbada e debochada do personagem.

  • Os diálogos de Ferris Bueller conosco, em suas artimanhas para ter seu Day Off, atingem nosso íntimo e nos geram sentimentos e vontades similares aos dele.

  • A linguagem e a própria abordagem em A Grande Aposta são um assunto delicado, confuso e chato se considerarmos os termos técnicos usados nos diálogos dos personagens. Porém, com o uso da quebra da quarta parede, o filme se tornou mais leve, cômico e de melhor entendimento.


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