A presença do negro em narrativas audiovisuais hollywoodianas e brasileiras

Atualizado: Ago 28


Há algumas semanas, em suas últimas palavras e suspiros, George Floyd é mais um negro que suplicou ao mundo: Vidas negras importam! Infelizmente, sua voz se calou para sempre. O ocorrido foi gravado e veiculado, o mundo assistiu.


Em diversos países e em vários âmbitos midiáticos (impressos, jornalísticos, redes sociais, etc.) houve debates, discussões e protestos nas ruas. Nas redes sociais, a hashtag #VidasNegrasImportam ganhou mais uma vez seu destaque, agora com mais força e repercussão, expondo à humanidade que muitas vezes finge não se importar ou ver o racismo.


“ O racismo não está piorando, está sendo filmado.” - Will Smith.

Novamente temos essa frase viralizando. Veja que ela implica em algumas vertentes de pensamento sobre o assunto, e talvez uma delas questione a nossa capacidade ou incapacidade de perceber como e o quanto o racismo ou traços dele estão sendo gravados e veiculados na mídia.

Antes de mais nada, é de suma importância que as pessoas tenham a noção mínima do imenso impacto que os meios midiáticos têm em nossas vidas: são diversos conteúdos produzidos e veiculados, que vão muito além de palavras, imagens, cenas, posts...


Todas estas informações carregam consigo pensamentos, culturas, realidades, opiniões, visões de mundo... elas influenciam e são influenciadas, tornando-se grandes desconstrutoras, construtoras ou reforçadoras de simbologias. Elas influenciam diretamente o modo como vemos e entendemos o outro e o local em que vive, como compreendemos e julgamos determinadas coisas, entre outros fatores, em particular o que será aqui comentado. Discutiremos o modo como são retratados e propagados assuntos que norteiam o racismo e como o enxergamos e identificamos, ou não, em nosso dia-a-dia.

Dentre os vários conteúdos disponíveis, serão retratados dois: as telenovelas e filmes brasileiros e os hollywoodianos. Logicamente, dificilmente o racismo é estimulado, contudo preserva-se nas narrativas fatores que contribuem para a visibilidade, naturalização e permanência do negro na marginalidade, inferioridade, invisibilidade, em trabalhos braçais, na objetificação do corpo e na dominação do branco sobre o negro.



Infelizmente, em pleno século XXI ainda há muito do que chamamos de estereótipos e rótulos fomentados na escravidão, que prevalecem em dias atuais e são muitas vezes reproduzidos em filmes, novelas e demais conteúdos midiáticos.


A “regra do negro único“

De forma bem simplória, a concepção da “regra do negro único” tem surgido de pesquisas, análises e estudos sobre a presença do negro no contexto midiático brasileiro, em particular na publicidade.

Acredito que já tenha observado que em campanhas publicitárias brasileiras (e isso não se restringe ao Brasil) os modelos utilizados geralmente são brancos, e em algum lugar podemos às vezes encontrar uma única pessoa negra. Essa situação também se repete em filmes, novelas, bancadas jornalísticas, programas de TV, entre outros.



No Brasil, essa “regra” é um fator extremamente agravante e de exclusão, considerando que, segundo os últimos dados do IBGE, a maior parte da população brasileira é constituída por pessoas negras e pardas, que são pouco e por vezes simploriamente representadas em conteúdos midiáticos. Essa mínima presença negra acaba por não suprir toda a necessidade de representatividade.


O negro nas novelas e filmes brasileiros


Encontram-se atores negros em grande número em um elenco no qual certamente a trama seja de época e aborde a escravidão, e em filmes ambientados em favelas e presídios. Todavia, em outros tipos de longas e dramaturgias, temos participações simplistas e, mesmo quando importantes, retratando em sua maioria, apenas personagens moradores de comunidade, empregados, marginais, criminosos, malandros, motoristas... Muitos trazem um corpo objetificado e hiper-sexualizado, em especial a mulher.


Malhação - Viva a Diferença (2017)
Personagens negros são minoria e coadjuvantes nas dramaturgias. Quando protagonistas ou pertencentes ao núcleo principal, limitam-se geralmente a uma única pessoa negra.

Dentre os vários estereótipos que poderiam ser aqui citados e exemplificados, será mostrado um bem persistente. Estudiosos e pesquisadores observaram que, ao longo da história brasileira, há três concepções de mulher: a branca, sinhá e esposa; a índia selvagem e a negra, o objeto de prazer, o "corpo quente", a amante.


1. Éramos seis (2020)- Lola e Shirley
2. Salve-se quem puder (2020)- Kyra e Renatinha
3. Amor de Mãe (2020)- Penha e Miriam
4. Aruanas (2019)- Natalie e Verônica 
São quatro tramas muito recentes da Rede Globo, e em todas as mulheres negras estão em posição de amante ou a "outra", que tenta retomar um relacionamento do passado.

Note também que existe um significativo número de diferentes atrizes e atores negros, que participaram de novelas e filmes distintos, mas realizaram os mesmos papéis. Como mostrado acima, todas essas mulheres negras estão em papéis que trazem a posição de amante, sendo esse apenas um dos exemplos.

Perceba como esses estereótipos, essas características atribuídas e o meio sociocultural no qual é ambientado a narrativa reforçam qual é seu lugar, sua posição como negro na sociedade. Mesmo que esteja em um papel de ascensão social, trazem na bagagem do personagem rótulos pejorativos fomentados e herdados da escravidão. Eles podem até não incentivar o telespectador ao racismo, e até mesmo enfatizar o sofrimento e a luta de uma pessoa negra, comovendo e chocando o público, entretanto, ao mesmo tempo influenciam e corroboram com a visão de como enxergar o mesmo na sociedade e qual sua posição nela.


Outro lado do Paraíso (2017)- Raquel poderia ser uma inspiradora personagem negra, contudo é tão carregada de estereótipos que, mesmo diante de todas as adversidades tornando-se juíza, traz no papel o lugar de amante, entre outros rótulos. 


O negro em filmes de Hollywood

Apesar da escravidão brasileira e norte-americana possuir particularidades, ainda assim o mesmo que ocorre no Brasil pode também ser aplicado aos filmes hollywoodianos, em particular os que premiaram atores negros ao Oscar.

E o vento levou (1939) e Ghost - outro lado da vida (1990)


A primeira afro-descendente a ganhar um Oscar na categoria melhor atriz coadjuvante, Hattie McDaniel, interpretou Mammy, a serva fiel, que vive em prol de seus senhores, sem vontade e vida própria. Pouco mais de meio século depois, Whoopi Goldberg conquistou a mesma categoria interpretando a vidente “malandra” Oda Mae Brown, que tirava proveito dos seus clientes.


Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016)


Um filme formado por um elenco negro, que conta a história de pessoas pobres em um contexto violento, imerso no mundo de drogas. O protagonista, uma pessoa negra e homossexual em total desamparo familiar e social, um futuro condenado à criminalidade. Juan, o traficante, é interpretado por Mahershala Ali, que conquistou o Oscar de melhor ator coadjuvante.


Um Limite entre nós (2016)


Um pai de família coletor de lixo que tinha grande sonhos, capacidade e garra para tentar realizá-los, mas é negro. Ele é marido de Rose, uma dona de casa e esposa submissa e sem voz, uma mulher sofredora conformada com as circunstâncias da sua vida. Viola Davis a interpreta e ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante.


Histórias cruzadas (2011)

O longa tem grande presença feminina, desde mulheres brancas em sua maioria casadas e com ascensão econômica, e mulheres negras que podem ser solteiras, casadas, novas, velhas, mães ou não, mas todas empregadas domésticas. Uma jornalista que almeja conquistar sucesso profissional decide então escrever sobre as empregadas, ouvir o que elas passam, o que tem a dizer e, posteriormente, divulgar isso ao mundo. Octavia Spencer conquistou o Oscar de melhor atriz coadjuvante nesse filme, interpretando Minny Jackson: empregada doméstica, humilhada constantemente pela patroa, mãe de 5 filhos e vítima constante de violência doméstica.


Há algo em comum em cada um desses personagens...


A escrava fiel, uma vidente golpista, a subalternidade e servidão de uma esposa sem voz ativa, o chefe de família que executa trabalhos braçais, sem o direito de lutar pelos sonhos por ser negro, a jornalista em posição de salvadora por ser a voz de ação, como se as mulheres negras dependessem de alguém para falar por elas e, por fim, jovens crescendo em meio à marginalidade e ao racismo cruel, sem acesso a oportunidades, condenados à criminalidade.

Repare que tanto atrizes quanto atores negros ganham destaque em papéis importantes de produções que focam no racismo, que retratam a violência de bairros marginalizados, e em longas sobre a escravidão ou a segregação racial.


Note que esses personagens trazem consigo estereótipos negativos de homens e mulheres negros, não quebram estereótipos, e representam e exprimem circunstâncias desgastadas, que não agregam ou inspiram muito a luta da população negra e nem mesmo a conscientização por parte da população branca sobre o assunto. Eles, pelo contrário, perpetuam e fortalecem sua condição de subalternidade, invisibilidade e não ascensão social.


Talvez o caro leitor diga que essa é a realidade do negro, que estão sendo retratados fatores históricos, e que essa análise estaria desmerecendo os premiados e suas atuações. Certamente há fragmentos históricos, bem como situações passadas que ainda persistem no cotidiano da população negra. Além disso, sendo papéis empoderados ou não, a atuação foi magnífica e a conquista do Oscar tem em especial grande importância para a causa negra. Todavia, a construção do personagem no quesito representatividade e quebra de rótulos peca lamentavelmente.


Isso fica evidente especialmente se considerarmos o filme Estrelas Além do Tempo (2016), no qual existe a segregação racial, as injustiças e preconceitos, e ainda assim as três mulheres, mesmo diante de todas as adversidades, não aceitaram a situação a qual eram condicionadas e conquistaram seu lugar de direito.


Temos o sofrimento, o racismo, a história, a luta, e por último mas não menos importante, certa vitória, a quebra da subalternidade e invisibilidade. Octavia Spencer interpretou Dorothy Vaughan, cientista e programadora da NASA, mulher negra, mãe e esposa. Ela foi indicada como melhor atriz coadjuvante, assim como Viola Davis, que interpretou Rose em "Um limite entre nós", papel que conquistou a estatueta naquela noite.



Reflita:
Qual dos últimos papéis citados acima trazem uma melhor representatividade, qual possibilita de forma mais evidente um pensamento que foge dos rótulos pejorativos? 
Agora avalie:
Na vida em sociedade, as pessoas, no universo midiáticos... como é mais "cômodo" ver o negro: sofrido, derrotado, subalterno, ou aquele que mesmo diante das adversidades luta e vence, é empoderado e exalta sua vitória? 
Um exemplo para ilustrar essa reflexão: 
Tratando-se dos dois participantes do BBB 20, Telma Regiana e Babu Santana, quais as críticas e aceitações que tiveram do público?

Partindo do que foi exposto acima, ambos os conteúdos brasileiro e norte americano, mesmo dando mais oportunidade e visibilidade negra, não denotam uma representatividade mais fiel, positiva e empoderada do negro, e que principalmente seja desvinculada de concepções racistas. Assim sendo, ao mesmo tempo em que tenta-se combater o racismo, o reproduz.


Como mudar essa realidade nas narrativas audiovisuais?

A resposta mais óbvia seria possivelmente mais diversidade negra nos elencos de filmes e novelas, que são predominantemente brancos. Mas isso é mais complexo do que se possa imaginar, e o ator brasileiro Ícaro Silva vai dizer o porquê:

Em menos de sete minutos, este vídeo fala o quanto atores negros são talentosos e capacitados, o quanto são estereotipados e, como o próprio Ícaro disse: "...se este personagem escrito na sinopse, se não tiver Fábio negro, não vão escalar um ator negro..."

Para um ator negro entrar em um elenco, a cor da pele do personagem deve estar evidenciada. É como se colocassem o branco como um padrão, ignorando a existência e invisibilizando o que está fora desta norma.


Em "OS dez Mandamentos"(2015) e "Segundo Sol"(2018), ambas as regiões onde são ambientadas as tramas possuem grande predomínio da população negra e parda. Entretanto, a maior parte do elenco, em especial o núcleo protogonista, é constituída por atores brancos. Infelizmente, mesmo quando a narrativa pede uma presença negra como maioria, é invisibilizado este fato, inclusive o trabalho e o talento de atores negros.

Assim sendo, para mudanças nesta visão de padrão, seria relevante que profissionais negros assumissem posições de direção e roteirização, para promover não só mais presença negra no elenco, como também personagens menos estereotipados.


Não obstante, a sociedade está acostumada a ver o negro em posições inferiores, especialmente no mercado de trabalho em vários tipos de empreendimentos, em especial em cargos de funções intelectuais de médio e alto nível, os quais são ocupados predominantemente por colaboradores brancos diversos. E isso é projetado nos conteúdos que permeiam a mídia, particularmente em narrativas audiovisuais, que vão se construindo e modelando de acordo com a sociedade. Isso posto, de que maneira serão dadas aos negros as oportunidades de alto nível em produções audiovisuais?


Ah! É bom sempre lembrar: há muitos profissionais negros qualificados e capacitados.


É, eu sei, a notícia não é animadora no que se refere ao racismo. As mudanças na vida cotidiana ainda são lentas, apesar de significativas. E como diz o ditado, " a arte imita a vida".


Mas se você, caro leitor que chegou até o final deste texto, não se conforma com esta realidade e sente a necessidade de mudanças, estamos juntos! Esta luta é nossa. Todos conta o racismo!


Seja um transformador em seu ambiente de trabalho, independentemente de qual segmento seja, gere estas e outras reflexões que permeiem a temática, estimule a contratação de profissionais negros... Mesmo pequenos atos em vários locais, juntos podem gerar uma grande conscientização e mobilização que provocarão mudanças na realidade da sociedade.


Então, assim, a arte como sempre irá imitar a vida e veremos mais igualdade nas narrativas audiovisuais, que proverão ainda mais mudanças sociais.



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