A construção da relação entre Coringa e o público

Atualizado: Jun 2


Desde seu lançamento no final de 2019, o longa "Joker" tem sido um dos filmes mais comentados do universo cinematográfico. Além de conquistar vários prêmios, ele gerou inúmeros conteúdos no meio digital, desde críticas até teorias, análises, explicações fílmicas, psicanalíticas e sociais. Com inúmeros comentários vindos de youtubers, cinéfilos, profissionais do ramo, críticos, psicólogos e psiquiatras, e até participações em livros didáticos.


Infelizmente, a temática mais pesada também trouxe o receio e o medo de ataques em salas de cinema e de reações violentas por parte de alguns telespectadores.

De fato, Joker é um filme memorável e há muito o que se falar. Assim sendo, neste post tenho o propósito de questionar o caro leitor sobre uma sensação que quase pode ser considerada uma catarse coletiva, sentida por alguns de forma mais profunda do que outros: o sentimento de certo apreço por Arthur, uma compaixão, o desejo que tudo desse certo e ele não sofresse mais, e até mesmo uma pontinha de satisfação em algumas das cenas nas quais ele se vingou de quem o prejudicou.


E imersos na narrativa, talvez muitos tenham feito um auto-julgamento. Afinal, os fins não justificam os meios! E mesmo assim continuamos envolvidos e presos ao protagonista do início ao último segundo! Se você fez esta reflexão após ver o filme ou enquanto o assistia, acredite, não está sozinho nessa! E isso não te faz alguém ruim ou algo parecido.


justificativas plausíveis para esse sentimento de empatia para com o Arthur. Lembre-se que a linguagem cinematográfica tem como propósito te instigar e mantê-lo preso até o final da história, e para que isso seja possível serão usadas diversas técnicas narrativas e fílmicas, sendo uma delas a forma como o roteiro traça a relação entre público e personagem.


Vamos entender melhor: na construção de um roteiro são usados elementos narrativos que são desenvolvidos dentro do filme, e para o longa "Coringa" irei destacar três: incidente incitante, objeto de desejo e conflitos. Esses, em comunhão, nutrem a criação e desenvolvimento do protagonista na história, o tornando instigante e complexo e fazendo com que nós adentrássemos junto a ele a cada cena!


O Incidente incitante


O incidente incitante é o primeiro marco de qualquer narrativa, seja no cinema, em um livro ou série. Trata-se de um evento que acontece e remove o equilíbrio da vida do protagonista, podendo ser positivo ou negativo. Ele não só é importante como evento inicial, como também é fundamental para dar impulso à história. Geralmente o evento ocorre quando há conhecimento suficiente sobre o personagem e o mundo onde ele está inserido. Portanto, não deve acontecer muito no início, quando ainda não imergimos na história, nem muito depois, pois isso pode tornar a narrativa entediante.


Em "Coringa", esse fator é o assassinato no metrô. Contudo, devemos considerar que as cenas que antecederam este ocorrido foram muito bem orquestradas para que se atingisse um ponto em que o público sente certo alívio quando Arthur puxa o gatilho e se defende das agressões, tornando-se difícil e complexo condená-lo por esse ato.



Já nos primeiros segundos de filme, vemos Arthur Fleck se maquiando: um sorriso forçado e uma lágrima escorre. Apesar de em cenas posteriores Arthur demonstrar certa dedicação e apreço pelo trabalho, ele não o faz feliz.


Pertencente à classe social baixa, dependente de órgãos públicos para garantir seu tratamento psiquiátrico e os remédios controlados, em seu trabalho é humilhado e desacreditado.


Nas ruas, em meio à multidão, é invisível: nas poucas vezes em que é notado, torna-se alvo de agressões verbais e até mesmo físicas, durante as quais ninguém tenta ajudá-lo.


Possui uma certa ingenuidade, uma falta de maldade em relação às intenções alheias... e as pessoas usam isso para prejudicá-lo.


Ele não reage às agressões e humilhações, apenas guarda para si.


Possui uma crise de risos que não corresponde ao seu estado de espírito, que não somente incomoda todos a sua volta, como a si mesmo.


É menosprezado até quando tenta ser gentil.

Ao mais simples e frágil sinal de gentileza que recebe, torna a pessoa uma obsessão de conquista em suas alucinações.


“Eu sou o homem da casa desde que me entendo por gente. Eu cuido bem da minha mãe.” - Arthur Fleck

É o provedor da casa, e cuida da mãe com idade avançada.


“Eu abriria mão de tudo para ter um filho igual a você.” - Murray Franklin

Sofre com a ausência paterna, além de desejar ser uma presença aceitável e admirável pela sociedade, além de ser reconhecido: isso é evidenciado quando Arthur fantasia estar no programa de Murray Franklin.





Solitário, carente de atenção, carinho e conforto.






“Só espero que minha morte valha mais centavos que minha vida.” – Arthur Fleck.


Sua vida é tão miserável que pensamentos suicidas é o mínimo a se esperar. Como não sentir empatia e piedade por um ser tão menosprezado pela sociedade à qual pertence?

Depois de narrar esse carma de vida, em um dia no qual termina sendo demitido, nos é apresentado o incidente incitante: o assassinato no metrô.



Por que não considerar que foi em legítima defesa?

Ele teve um dia horrível!

Faria o mesmo na situação dele?!

Se ele não estivesse com a arma, seria mais um trauma a carregar…



Tenta-se encontrar justificativas para sua atitude, que parece ter sido tomada no calor do momento, por medo de morrer ou algo parecido. Não há condenação de imediato.


Mas de forma inesperada ele começa a dançar, como se tivesse se libertado, como se nunca tivesse se sentido tão em paz consigo mesmo.

É neste momento que você fica em cima do muro, ou melhor, sua empatia não sabe qual lado escolher. Mas independentemente de sua decisão, você anseia pelas próximas cenas e pelo bem de Arthur.



Objeto de desejo


Após o incidente incitante, o protagonista tenta buscar novamente o equilíbrio de sua vida e vai à procura de algo que o promova: é o que chamamos de objeto de desejo consciente, e este às vezes acompanha toda a narrativa até o final. É nesta fase também que o telespectador começa a se perguntar se faria o mesmo que o personagem ou se agiria diferente. Tentamos julgar se ele está ou não de acordo com a ética e a moral e responder a famosa indagação: os fins justificam os meios? Diante das ações que toma para alcançar seu propósito, vai se apresentando a personalidade do protagonista e podemos nos simpatizar, ser indiferentes ou até mesmo desprezar o mesmo.


Há também o que chamam de objeto de desejo inconsciente, que apesar de não ser regra e nem utilizado em todos os longas, sempre que está presente torna a personalidade do protagonista mais rica e complexa. Muitas vezes atrelado ao passado do personagem de forma direta ou indireta, ele não é apresentado de modo explícito, e nem mesmo revelado de forma evidente ao longo ou ao final da trama, sequer o próprio protagonista é capaz de assumi-lo a si mesmo, contudo ele é perceptível e instigante no que se refere à busca pelo objeto de desejo consciente. Os dois objetos frequentemente andam atrelados, podendo um impulsionar o outro ou serem contraditórios, o que leva o personagem a uma difícil escolha: qual desejo realizar, se é inviável realizar a ambos!


Entretanto, "Joker" não nos revela nenhum dos dois objetos de imediato, tudo está meio confuso e agoniante. Primeiramente, o roteiro se preocupou em nos mostrar com mais ênfase como os eventos externos e aspectos internos foram afetando a personalidade do personagem. A cena do metrô teve diversas consequências:


  • Arthur parece se encorajar e inicia um possível relacionamento com Sophie;

  • Ele tenta fazer sua primeira apresentação como humorista;

  • Nas ruas, muito se fala do palhaço que assassinou três homens e era visto pela população pobre como um herói. Pela primeira vez, Arthur se sente vivo.


“Durante toda minha vida, eu nem sabia se eu realmente existia. Mas eu existo. E as pessoas estão começando a perceber.” – Arthur Fleck/Coringa.


É neste momento que temos indícios do seu objeto de desejo consciente: ser reconhecido e admirado mesmo com uma conduta moralmente questionável, sentir-se visível e vivo.

Posteriormente há vestígios de algo mais sombrio: seu objeto de desejo inconsciente.

Para buscar seu primeiro desejo de ser admirado, notado enquanto passa nas ruas e sorrir porque se sente feliz, faz-se necessário antes de tudo punir quem mentiu, o humilhou, o machucou. Os responsáveis pela tragédia de sua vida, que talvez agora tenha se tornado uma comédia, afinal o humor é subjetivo, devem sofrer. Isso o satisfaz, lhe provoca risos de felicidade.


Conflitos


Por último mas não menos importante, os conflitos. Em um roteiro, estes têm o importante papel de gerar maior complexidade ao que o protagonista vive, pois personagens sempre felizes e que conseguem tudo sem esforço nenhum deixam a história sem emoção e entediante. Por isso são atrelados aos protagonista os conflitos, que dificultam a busca pelo objeto de desejo, tais são também chamadas de forças antagonistas. Elas são decorridas nas cenas das seguintes formas, podendo ser todas juntas ou não:


  • o conflito pessoal é entre o protagonista e os personagens secundários (pai, mãe, namorado(a), parentes, amigos etc;).

  • conflito interpessoal é algo exterior a ele, que esteja fora do seu alcance e que não depende dele para ser gerado, como por exemplo um câncer, uma guerra, uma instituição social, etc;

  • conflito interno é entre o protagonista e ele mesmo;


Em "Coringa", os conflitos também cumprem muito bem a função de gerar dualidade no público em relação a condenar ou não o protagonista. Veja como isso é apresentado nas cenas:


Conflito Pessoal


  • A relação entre Arthur e a mãe inicialmente aparentava ser ótima, mas havia vários segredos omitidos por ela, que ao final culminaram em sua morte. Não deve ser fácil para ninguém descobrir tanta coisa ruim sobre sua própria infância. Porém, isso não justifica matar a própria mãe, como se a mesma fosse a única responsável por todas as atrocidades que viveu ainda criança e que hoje podem ser umas das principais causas de tantos problemas psiquiátricos. Se a teoria dos transtornos mentais de Pene for de fato verídica, assim como Arthur ela não recebeu o suporte que necessitava e era vista como um estorvo, sendo também renegada pela sociedade. Onde estava sua empatia? Todo aquele cuidado para com a mãe? Simplesmente foi sucumbido por sua loucura?

  • Há também seu colega de trabalho Randall, que pelo que foi apresentado agira de má fé com Arthur, e mesmo quando foi visitá-lo estava mais preocupado em se desviar das investigações do que de fato dar apoio ao companheiro que havia perdido a mãe. Mas será que merecia esse fim tão cruel?


Conflito Interpessoal


  • No filme, podemos ver o descaso de órgãos públicos com os menos favorecidos em uma sociedade de disparidades sociais extremas. Toda a população mais pobre clamava para que os governantes olhassem para eles, pois o pouco que tinham lhes fora tirado, como o acesso à saúde. Isso era essencial para que Arthur continuasse seu tratamento;

  • O preconceito socioeconômico: a maneira como a alta classe enxerga os mais pobres, exemplificada pelo discurso de Thomas Wayne na mídia, a respeito do assassinato no metrô. Ele estava interessado em apenas um lado da história. Como não se revoltar com uma atitude dessas?

  • E como não se identificar com um contexto desses? Não somente no Brasil, mas em outros países, pessoas são condenadas e julgadas socialmente porque a mídia e pessoas influentes só expõem um lado dos acontecimentos;

  • A falta de empatia, solidariedade e compreensão para com o próximo.

“A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse.” – Arthur Fleck.


  • O abandono parental. Em pleno XXI, isso é um problema que eu me arriscaria a afirmar ser mundial, além de uma questão que envolve diversos fatores sociais e culturais. Inúmeras mulheres criam seus filhos sozinhas, e em situações significativas isso pode interferir diretamente no caráter e na personalidade do indivíduo. Ao saber da possibilidade de ter um pai ao seu alcance, Arthur em primeiro momento não se revoltou com o mesmo, apenas queria uma conversa amigável com seu suposto pai, talvez um abraço, mas acabou descobrindo coisas ainda mais obscuras sobre o seu passado e o de sua mãe.


Conflito Interno


  • Vemos, no decorrer da trama, Arthur se tornando o Coringa, o que expressa seus inúmeros conflitos internos. Esses provocados por fatores externos e aspectos internos citados acima.

Acredito que após este texto vocês gostariam de saber a minha opinião: ao final de tudo, o longa humanizou Coringa? Ele é culpado ou não pelos seus atos? Seria ele digno de nossa empatia? A sociedade é mesmo a maior vilã dessa história?


Tentarei ser o mais clara e objetiva possível, considerando todas as teorias sobre toda a história ser uma versão manipulada do Coringa, entre outras possibilidades discutidas por muitos.

O filme edifica a representação e trilha muito bem a trajetória de alguém com uma infância traumática, totalmente abandonado pelos órgãos públicos, visto como estorvo pela sociedade, sendo vítima de preconceitos e com pouca vida social, se resultando em um criminoso.

Em um universo paralelo cinematográfico, troque a história de Arthur pela de uma criança das favelas brasileiras, ou pela de um pequeno norte-americano que sofre bullying fora de casa e possui pais agressivos, ou, por que não, pela de uma criança pertencente aos países em guerra no oriente, que faz parte de uma família dos grupos terroristas.

Os conflitos seriam outros, os desejos e acontecimentos também, as instituições sociais, órgãos públicos e meio sociocultural seriam diferentes. Entretanto, as chances de ambos não se tornarem criminosos fatais é baixa, mesmo que existam outras oportunidades e caminhos a serem seguidos. As circunstâncias nas quais foram criados e o meio ao qual pertencem podem ser grandes obstáculos, além de tornarem essas possibilidades de seguirem o caminho moralmente correto quase inalcançáveis.


Acredito que o filme não tenha o objetivo de humanizar, depositar a culpa no personagem ou na sociedade, ou culpar a ambos. E sim, tenha como propósito maior de gerar uma profunda reflexão sobre como as sociedades atuais têm lidado com os problemas sociais, com os julgamentos pré-concebidos, e em especial com a empatia entre as pessoas, afinal são os cidadãos que edificam uma sociedade!

O longa é aberto a diversas interpretações, que vão de acordo com cada telespectador. Mas ao final de qualquer análise, é difícil não afirmar que Joker é um filme que ficará na história e também na memória de muitos.

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