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7 razões para Sandman ainda ser um dos melhores quadrinhos já feitos


O clássico cult dos quadrinhos, Sandman, é lembrado como uma das maiores obras da mídia há mais de 30 anos. Diferentemente de várias outras grandes HQs, Sandman não parece envelhecer. Enquanto várias histórias ficam datadas com o passar do tempo (não que fiquem ruins, apenas refletem técnicas narrativas e textuais hoje um pouco ultrapassadas), a história do Senhor dos Sonhos lançada no fim dos anos 80 parece ter sido feita ontem, o que é ótimo para novos leitores.



Na esteira de uma série de TV baseada na HQ, a qual será lançada pela Netflix nos próximos anos, hoje vamos falar de 7 motivos para Sandman ser um dos melhores quadrinhos já feitos!


Bom, antes de começar nossa lista, vamos a um pequeno guia para quem pouco sabe sobre Sandman. Publicada pela DC/Vertigo de 1988 até meados dos anos 90, trata-se de uma história em quadrinhos escrita por Neil Gaiman e ilustrada por diversos artistas. São mais de 70 capítulos ao todo. A trama gira em torno de Morpheus, o Senhor do Sonhar, o reino para o qual viajamos quando dormimos, retornando ao seu domínio após passar 70 anos capturado por uma seita de ocultistas. E isso é só o começo da história... eu pretendo deixar essa lista livre de spoilers (se você nunca leu a série, vai me agradecer).


Lorde Moldador/Sandman/Devaneio/Senhor dos Sonhos (ou qualquer outro nome pelo qual Morpheus é referido na história) é baseado em uma lenda/representação mística não muito comum aqui no Brasil. O Senhor dos Sonhos, conhecido por aqui como João Pestana, é uma entidade presente nas culturas portuguesa, norte-americana e galega que, segundo a crença, coloca “areia” no olho dos que dormem para levá-los ao reino dos sonhos. Daí o nome Sandman. Neil Gaiman se valeu dessa história antiga para basear seu personagem.


Na trama, Morpheus é um dos 7 Perpétuos, seres ditos como “mais poderosos que os deuses”. São eles: Morte, Destino, Desejo, Desespero, Delírio e Destruição, além do próprio Sonho, e cada um tem seu domínio ou influencia a vida no universo de alguma maneira.


Mas chega de enrolação, vamos lá para os 7 motivos dessa história em quadrinhos ser tão mágica!


1- Redefiniu a narrativa dos quadrinhos adultos


Não basta uma história ter uma boa trama (e não se engane, as tramas de Sandman são ótimas), a narrativa dela tem que estar à altura para que seja considerada um clássico. Pegue de exemplo Watchmen, A última caçada de Kraven, O Cavaleiro das Trevas e Dias de um Futuro Esquecido. Todas são histórias celebradas como marcos das HQs e, de alguma maneira, todas trouxeram uma novidade em como contar uma história (quem sabe novos textos sobre essas obras saiam em breve?). E é isso que Sandman fez.


A narrativa é aquilo que faz uma obra ser fluida e interessante. Por exemplo, eu sempre vou defender que o final de Game of Thrones poderia ser bom se aquela mesma história fosse bem contada. Ou seja, as ideias eram boas, mas foram muito mal desenvolvidas. E desenvolver uma trama de maneira instigante é aquilo que Neil Gaiman faz de melhor em Sandman.


Lá, Neil começa com um arco no tempo presente. Logo na primeira edição, há uma passagem de tempo de 70 anos e, em poucas páginas, a mudanças das décadas e os acontecimentos desse período são contados de maneira incrivelmente interessante. Mas depois do primeiro arco, vemos a história fluir de maneira menos linear. Temos flashbacks, histórias narradas apenas na lembrança e, em vários momentos, o protagonista Morpheus é apenas um mero coadjuvante fazendo uma ponta na trama de outro personagem.


Neil usa de arcos completos nos quais a história é contada em vários capítulos e, do nada, partimos para contos curtos, aparentemente não ligados à trama principal. Às vezes, no meio de um arco, uma história à parte se desenrola. Mas não se engane: de um jeito ou de outro, tudo está conectado. Às vezes vemos histórias novas e personagens místicos, e em outras vemos personagens e até super-heróis pertencentes à continuidade da DC (mas isso acontece pouco na série).


Provavelmente o maior trunfo narrativo de Sandman seja contar a história de Morpheus (e de outros que tiveram, de alguma maneira, a vida tocada pelo Senhor Moldador) de maneira livre, não necessariamente linear. E mesmo assim, o faz de maneira clara e coesa, sem causar nenhuma confusão no leitor. Isso é algo muito difícil de se fazer na escrita, acredite.


Além disso, por ser uma HQ da Vertigo, é voltada para um público adulto. Por isso, Sandman transformou a narrativa dos quadrinhos adultos e da fantasia lírica na mídia. Assim, podemos ver suas referências em diversas obras posteriores, como no outro clássico da Vertigo, Fábulas.


2 - Obra prima do Neil Gaiman


O grande escritor Stephen King já declarou ser fã da escrita de Neil Gaiman e ainda completou que nós, leitores, temos sorte de ter obras dele em diversas mídias, como quadrinhos e livros. Bom, Neil Gaiman é realmente um dos autores atuais mais respeitados no meio. Já escreveu em diversos gêneros literários, mas, prioritariamente, é famoso por sua escrita dentro do Realismo Fantástico. E ele já escreveu uma quantidade absurda de obras maravilhosas.


No acervo do escritor, encontramos quadrinhos como Orquídea Negra (DC) e 1602 (Marvel), livros como Deuses Americanos (adaptado em série para a Amazon Prime), Os Filhos de Anansi (adaptado em áudio/radionovela para a BBC), Oceano no Fim do Caminho, Coraline (adaptado como uma aclamada animação), Good Omens (escrita em conjunto com Terry Pratchett e adaptada em série pela Amazon Prime) e a série britânica Lugar Nenhum, também publicada posteriormente como livro.


Com um acervo como esse, nem preciso falar muito, né? São obras reconhecidas e aclamadas no mundo todo. Se você já teve contato com qualquer uma delas, sabe o quando Neil Gaiman é um escritor incrível. E apesar disso, Sandman continua sendo considerada sua obra-prima. Já deu pra ver o peso dela, certo?


Sonho de uma noite de Verão”, conto que faz parte de Sandman, por exemplo, foi a primeira história em quadrinhos a ganhar um prêmio literário, o World Fantasy Award. Isso quebrou um paradigma elitista dentro do “clube” dos autores de livros de que histórias em quadrinhos são inferiores (e não são). E para quem quer saber qual a relação da história com Shakespeare, eu só posso dizer: leia, você não vai se arrepender.


Particularmente, “A casa de Bonecas”, segundo arco de Sandman, é uma das melhores coisas que eu já li na vida, e “A noite de Mil Gatos” é o melhor conto do quadrinho.



3 - Arte à frente de seu tempo


Para quem não está acostumado com quadrinhos independentes, a arte de Sandman pode parecer estranha à primeira vista. Nada dos layouts limpos e poses dinâmicas dos quadrinhos de super-heróis. Em Sandman, a arte costuma ser muito mais “rabiscada” e fora dos padrões que conhecemos.


Isso é um reflexo da arte de quadrinhos independentes. Fora do eixo Marvel/DC, os quadrinhos tendem a experimentar mais nos padrões de arte, buscar layouts fora do padrão e estilos às vezes simplistas e longe de padrões acadêmicos. Ou seja, a arte não é “certinha” e, para um novato, pode parecer muito estranha.


Mas é disso que Sandman precisa: estranheza. E isso cai como uma luva no texto de Gaiman. O que chama a atenção é como isso foi à frente de seu tempo. Esses elementos artísticos de quadrinhos independentes só estão entrando nos quadrinhos Marvel/DC agora, no fim dos anos 2010, início dos 2020. Mas Sandman fez isso em 1988, o que mostra como o quadrinho é de vanguarda.


A bem da verdade, outras séries da Vertigo tentaram incluir esses elementos de quadrinhos alternativos em sua arte, como o título mensal do Constantine. Porém, é claro, poucos quadrinhos da época ousaram tanto.


No leque de artistas que trabalharam em Sandman, temos grandes e diversos nomes como P. Craig Russel, Chris Bachalo, Kelley Jones e Mike Dingenberg, sem falar nas incríveis capas de Dave Mckean que, de maneira quase surrealista, misturam pintura com fotografia e representam uma revolução à parte.


4 - Encontro da ficção com lendas reais e folclore clássico


Os personagens de Sandman fogem de um padrão comum às HQs até hoje. A história se mostra inovadora em todos os sentidos, desde as personalidades dos envolvidos (o protagonista não é totalmente bonzinho, por exemplo) até padrões sociais (com personagens transexuais em destaque, por exemplo). Sandman trabalha com um gama rica e complexas personalidades.


Todavia, um dos elementos mais marcantes da história é a mistura que só Neil Gaiman sabe fazer, unindo lendas do folclore de diversos locais do mundo com criações completamente novas. Ao mesmo tempo em que ele usa figuras como Lúcifer, Thor (em uma versão ligeiramente diferente do asgardiano da Marvel) e Orpheus, temos criaturas completamente originais. E isso deixa a história muito rica: temos uma homenagem à cultura de todo o mundo e uma criação de novas fantasias.


5 - Presença de figuras históricas


E falando em como Sandman trabalha com lendas e histórias da cultura de diversos povos (como ele fez também em Deuses Americanos), temos também personalidades que existiram no mundo real no meio da história.


Figuras como o explorador Marco Polo, o imperador romano Augusto Cesar, Joshua Abraham Norton (um homem conhecido como o primeiro e único imperador dos Estados Unidos) e Shakespeare aparecem na história, dando muita profundidade à ela.


6- Morte


Bom, separei um tópico para falar só dela: a Morte. A irmã mais velha de Sandman, Morte, tem um grande destaque na história. Ela é, como o próprio nome sugere, a representação da morte de todas as coisas: é ela que, no fim da vida de cada ser vivo, aparece para levar sua alma para o “outro lado”. Segundo a própria, ela está por aí desde o início de tudo e, no fim do universo, ainda vai estar presente para “apagar a luz e fechar a porta”.


Mas peraí... por que ela é tão importante a ponto de aparecer em um tópico só para ela? Que bom que perguntou!


A Morte é uma das melhores personagens da história (em minha opinião, a melhor). Apesar de representar algo do qual todos temos medo, a Morte de Sandman é extremamente alto-astral, bem-humorada e gentil. Nada de uma ceifadora sinistra e agourenta, aqui temos uma amiga que faz seu trabalho com carinho e tranquilidade.


A Morte se tornou tão icônica que é a personagem mais icônica da série, sempre sendo lembrada em fanarts, cosplays e tatuagens. A personagem chegou até a ganhar uma série spin-off após Sandman e é dona de algumas das frases mais memoráveis dos quadrinhos, sempre com tiradas inteligentes e profundas, apesar de divertidas.


Como ela mesmo disse, todo mundo se pergunta sobre a morte e sobre o que há depois da vida e, eventualmente, todos descobrem.


7- Já tem uma adaptação disponível!


Sandman é um dos quadrinhos mais profundos e emocionantes já feitos. Temas sobre redenção, paz, vida e morte, desejos e sonhos são colocados aqui de maneira intricada e poderosa.


Devido a isso, a HQ inspirou a minissérie em quadrinhos do Lúcifer (que, por sua vez, inspirou a série de TV homônima, apesar de não ser uma adaptação exatamente fiel) e também outros títulos em quadrinhos como The Dreaming, desenhada pela brasileira Bilquis Evely, que foi indicada ao prêmio Eisner (o Oscar dos quadrinhos) pelo seu trabalho na série. E mesmo não sendo escritas por Neil Gaiman, essas continuações da história são interessantes e valem muito a pena de serem conferidas.


Mas aquilo que todos queremos é a série da netflix baseada em Sandman! Neil Gaiman já disse que os roteiros da primeira temporada estão concluídos e que já está trabalhando na temporada dois! Todos os fãs da série estão ansiosos e torcem para que a adaptação faça jus ao quadrinho. E com Gaiman envolvido nos roteiros, provavelmente vem coisa boa por aí.


Mas enquanto a série não chega, já temos uma adaptação disponível: o áudio-livro de Sandman! Gravado por inúmeros atores de peso como James McAvoy (o professor Xavier dos últimos X-Men e protagonista de Fragmentado) como Morpheus, Kate Dennings (Thor, 2 Broke Girls) como Morte, Taron Egerton (o Elton John de Rocketman e o protagonista de Kingsman) como Constantine e Andy Serkis (o Gollum de O senhor dos Anéis e Cesar do Planeta dos Macacos) como o corvo Matthew (um dos principais ajudantes de Morpheus), o audiobook ainda conta com o próprio Neil Gaiman como o narrador da história.


Para quem entende inglês, vale muito a pena escutar a história. E fica a dica: se você puder, leia o quadrinho enquanto escuta a narração original para ter uma experiência completa e ficar no clima da série da Netflix. O audiobook de Sandman pode ser adquirido aqui.

Enfim, é isso! Esses foram os 7 motivos para te convencer a ler Sandman. Seja você leitor de HQs ou alguém que quer entrar nesse mundo, não irá se desapontar! Sandman pode ser encontrado para compra facilmente, seja em encadernados de luxo ou em versões mais baratas (que estão sendo publicados atualmente pela Panini), em que os volumes estão divididos em arcos.


Boa leitura e até o próximo texto!


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