• Yuro

50 anos do Quarto Mundo de Jack Kirby


A aclamada série em quadrinhos “O Quarto Mundo”, escrita e desenhada pelo Rei dos Quadrinhos, Jack Kirby, acaba de completar 50 anos. Então que tal aproveitar a oportunidade para falar sobre esse que foi o primeiro épico das HQs e sobre a importância dessa obra? Então bora!



Bom, vou tentar não estragar muito da trama, falando apenas dos detalhes que já são bem reconhecidos dentro do Universo DC, sem grandes spoilers.

Senhor Milagre. Órion. Grande Barda. Pai Celestial. Lightray. Parademônios. Darkseid.


Você consegue imaginar a DC sem esses personagens? É, eu também não. No início dos anos 70, o Rei introduziu-os na editora em O Quarto Mundo. A saga fala sobre uma guerra galáctica que acabou chegando na Terra.


Muitos elementos triviais estão ali: um ditador poderoso que quer controlar o universo, jovens heróis, uma luta do bem contra o mal, nosso planeta como campo de guerra... Poderia ser mais do mesmo, né?


Justamente... poderia. Mas não foi o caso. O Quarto Mundo segue como uma das histórias mais originais e importantes já feitas. Foi a primeira vez que uma HQ desconstruiu o gênero de super-heróis e que foi concebida para ser lida como um épico literário, no molde de O Senhor dos Anéis.


A história também é um marco quando se pensa que Kirby, o grande arquiteto visual de quase todos os personagens da Marvel, começou como também roteirista nessa saga. É a mente do Rei atuando livremente pela primeira vez.


Bom, ok, você já entendeu que a história se sobressaía perante outras da época em questão de qualidade. Apesar de possuir uma trama simples, provou-se inovadora em diversos aspectos e é considerada um divisor de águas da mídia.



Tá, mas vamos mais A fundo. Vamos voltar no tempo, antes da história ser publicada.


Jack Kirby já era considerado O Rei dos Quadrinhos. Há uns 30 anos ele trabalhava na indústria como desenhista, principalmente na Marvel, tendo sido o criador da maioria dos personagens da editora. Junto de Joe Simon, criou o Capitão América em 1941, quando tinha apenas 24 anos. Ele lutou na Segunda Guerra, combatendo a extrema-direita (naquela época personificada no Nazismo e Fascismo), o que moldou muito de sua percepção política e influenciou suas criações.



No mundo dos quadrinhos, Jack fez muitas coisas. Colaborou com Wally Wood nos anos 50 e, para a DC, criou a Legião Jovem ainda na Era de Ouro. A Legião, um grupo de 4 garotos, também influenciaria pra sempre a ficção. O arquétipo do grupo de adolescentes foi criado pelo Jack naquele momento. Pare pra pensar... a maioria das obras com quartetos de adolescentes segue um padrão: um é o líder, outro o forte/brigão, outro inteligente e o último engraçado.


Veja o exemplo de Stranger Things, na qual Mike é o líder, Lucas é o brigão, Will é o inteligente e Dustin o engraçado. Fez sentido? No clássico filme Conta Comigo existe esse padrão. Em Paper Girls também e até em Scooby-Doo. E esse tropo da ficção foi cunhado pelo rei, com a Legião Jovem lá nos anos 40!



Mas depois voltamos a falar na Legião, porque isso vai ser importante pro Quarto Mundo. Porém, a maioria do trabalho de Kirby era pra Marvel. Nos períodos de Atlas Comics (o nome da editora nos anos 50), ele trabalhou com ficção científica e espacial (algo que seria sua marca registrada) e com histórias de monstros.


Foi nesse período que desenvolveu seu estilo único, cheio de influências estéticas de povos latino-americanos (pra quem não conhece, Jack usava muitos padrões arquitetônicos ou de figurinos baseados na cultura Maia, Inca e Asteca, porém em uma versão hi-tech e futurista), o que definiu suas criações de tecnologia e o visual de personagens.


Além disso, foi com essas histórias de ficção que ele desenvolveu a famosa “Partícula Kirby” (a maneira como desenhava bolinhas para representar energia ou poderes cósmicos).



Isso era nos anos 50, mas no início dos anos rebeldes o quarentão Kirby se sentia desiludido. Isso até que ele e seu parceiro, um tal Stan Lee (você já deve ter ouvido falar dele), criaram o Quarteto Fantástico. O gênero de super-heróis vinha agonizando desde o fim da Segunda Guerra Mundial (originalmente, os supers eram vistos como escapismos para jovens no período da guerra) e, apesar de um up nos anos 50, no início da Era de Prata, com a reformulação do Flash e do Lanterna Verde, esse tipo de história não fazia mais sucesso como no início dos anos 40.


Todavia, os Quatro Fantásticos foram um sucesso estrondoso e mudaram essa realidade. A run do Stan e do Jack ainda é a melhor dos personagens (e olha que eu sou fanático pelo John Byrne, que também teve uma excelente passagem pelos personagens nos anos 80). Ao lado de Lee, Kirby criou personagens como os Inumanos, os X-Men, Pantera Negra, Doutor Destino, Galactus, Surfista Prateado, Homem-Formiga, Vespa, Thor e os Vingadores. Ele é pai de praticamente toda a Marvel.



E pode-se falar que a dupla Lee/Kirby salvou os quadrinhos da extinção. Como eu disse, os gibis de super-heróis (o tipo principal de HQ) estavam morrendo. As criações dos dois levaram as vendas novamente ao patamar de sucesso e mudaram a história da cultura pop. A visão artística de Jack transformou a Era de Prata na “Era Marvel”, pois a editora fazia muito mais sucesso que a concorrente nos anos 60 .


O curioso é que a arte de Kirby não era, teoricamente e seguindo os padrões da época, a melhor, ao menos quando se fala em traço mais realista ou acadêmico. Jack nunca desenhou nos moldes de gente como Alex Raymond, artista do Flash Gordon que, nos anos 30, criava ilustrações bastante realistas. Entretanto, mesmo assim, Jack era o melhor desenhista da época porque ele entendeu um conceito primordial: desenhos diferentes e inovadores são mais interessantes que o mais-do-mesmo do realismo.


Assim, com suas formas simplificadas e quase geométricas, traços limpos, poses dinâmicas e chamativas, experimentações artísticas fora do convencional, páginas duplas de encher os olhos, arquitetura intricada e detalhes em cenários e vestimentas, Jack Kirby se tornou o maior desenhista de seu tempo, aquele que todos queriam copiar.


As técnicas de impressão com cores reduzidas também contribuíram para criar o aspecto original pelo qual Kirby é reconhecido. Ademais, muito de sua arte foi influenciada pela quantidade de títulos mensais que o artista produzia, gerando a necessidade de simplificar e agilizar alguns desenhos.


Porém, isso é um trunfo: Jack sabia que uma expressão facial não precisava ser anatomicamente perfeita, mas sim expressiva e chamativa, e que um cenário não precisava ser geometricamente correto, apenas visualmente impactante. Isso ele fazia melhor que ninguém: criar uma arte explosiva, chamativa e bombástica. Aliás, afirmo que até hoje ninguém faz poses dinâmicas, com ângulos estranhos e chamativos, melhor que o Rei.



Contudo, apesar do sucesso estrondoso, Jack não estava satisfeito. Muito de suas ideias não iam pra frente por conta dos outros envolvidos. O autor, que gostava muito da HQ do Thor, queria se valer do apocalipse nórdico da mitologia, o Ragnarok, para matar o Deus do Trovão (e toda Asgard!) e, das cinzas, criar um novo panteão de deuses totalmente originais.


Muitos personagens, como Lightray e até Darkseid, foram criados em rascunhos desses novos deuses em questão. Imagine se o plano de Kirby tivesse dado certo... Thanos e Darkseid seriam “colegas de quarto”.



Mas o loirão Thor era um personagem querido e fundador dos Vingadores. A Marvel, apesar de flertar com o Ragnarok por anos (e só consumá-lo de fato nos anos 2000), não permitiu essa ideia.


Além dessa recusa, Kirby também se sentia irritado com as questões de direitos autorais e créditos para as histórias. Jack desenhava no “Método Marvel” (método desenvolvido por Stan Lee no qual ele escrevia apenas o plot vago da história e deixava o desenhista livre para crias os acontecimentos específicos). Após a arte pronta, Lee criaria as falas e o texto pros desenhos, o que o tornava também um autor da HQ, além de desenhista.


As brigas com a Marvel e Stan acerca de direitos autorais e créditos acabaram então por levar Kirby a deixar a editora. O ano era 1970 e ninguém imaginava que o Rei e o principal artista da principal editora do momento fosse, subitamente, trocar sua casa pela concorrente. Era um acontecimento gigantesco.


E qual a condição para ele entrar no lar do Superman? Que ele pudesse, finalmente, escrever e desenhar. Então ele trouxe aquela sua ideia recusada do novo panteão de deuses e criou aquilo que conhecemos como O Quarto Mundo, em especial alguns dos personagens mais importantes da DC, os Novos Deuses.


A saga começa!


A ideia do Quarto Mundo é simples: existem dois planetas opostos, compostos por seres quase divinos. Um é a bonita e calma Nova Gênese, liderada pelo Pai Celestial, e a outra é Apokolips, lar do tirano Darkseid e seus malignos seguidores. Os dois mundos surgiram após a hecatombe de um antigo mundo que continha um antigo panteão de deuses, no maior estilo Ragnarok (a própria página onde Kirby nos mostra isso é bem próxima de uma página que ele próprio fez na revista do Thor), por isso são os Novos Deuses.



Após anos de trégua (apenas conseguida após um misterioso pacto entre Darkseid e Pai Celestial), o tirano de Apokolips retorna à guerra e parte para outro mundo: a nossa Terra! Darkseid descobriu que o segredo da Equação Anti-Vida está dentro da mente de um terráqueo. Essa, por sua vez, é tudo aquilo que o vilão mais deseja: uma força irresistível que permite a seu portador controlar a mente, o espírito, a vontade e o livre-arbítrio de todos os outros seres vivos. É a arma de controle e poder perfeita!


Para impedir que o tirano consiga o segredo da Equação, o Pai Celestial então envia seu impetuoso filho Órion para nosso planeta, a fim de deter os planos do maligno. Órion é violento e nervoso, bem diferente de seus conterrâneos de Nova Gênese, e tem de se segurar para não ceder à violência que, no fundo, dá-lhe gosto.


Ele também é extremamente poderoso, sendo portador da Astroforça (algo bem próximo do Poder Cósmico que o próprio Kirby criou na Marvel), uma energia incrível que vem diretamente da Fonte, a reserva de poder dos 2 mundos opostos.



Enquanto isso, vemos os outros aspectos da história pela visão de outros personagens. Munidos de Caixas Maternas, um artefato tecnológico e vivo que protege e energiza seus usuários, além de permitir viagens espaciais por meio dos portais de “Tubos de Explosão”, um grupo de jovens vindo da Supercidade, em Nova Gênese, chega até a Terra.


Eles são chamados de O Povo da Eternidade (geralmente eu detesto falar os nomes dos personagens em inglês, mas convenhamos que Forever People é muito mais legal que Povo da Eternidade) e vieram atrás de uma amiga chamada Belos Sonhos, mantida prisioneira na Terra. Darkseid acha que a Equação Anti-Vida pode ser achada pela mesma devido aos seus poderes mentais.



É contra o Povo da Eternidade que Darkseid usa pela primeira vez nas histórias seu maior poder, a Sanção Ômega, um raio capaz de retirar qualquer ser da existência, ou até enviar o atingido para sofrer por infinitas realidades e linhas temporais (é confuso, eu sei, mas também é bem legal, né?).



Também vemos o jovem Scott Free, fugido de um orfanato liderado pela megera Vovó Bondade em Apokolips, chegando na Terra e assumindo o manto de Senhor Milagre. Ele é um grande escapista, capaz de fugir das mais complexas armadilhas.


Por alguma razão que só será revelada posteriormente (e vou manter isso aqui sem grandes spoilers), Scott é caçado pelo pessoal de Apokolips, aparentemente não apenas por ter fugido do planeta. Ele é apaixonado pela Grande Barda, uma forte e poderosa mulher que faz parte da própria guarda de Darkseid.


Por fim, também temos a visão do conflito pelos olhos dos terráqueos. Jimmy Olsen, o jornalista e amigo do Superman, partiu para investigar o grupo criminoso Intergangue em um misterioso lugar no subsolo, chamado Área Selvagem. Lá ele descobre que a Intergangue é um tipo de operação de logística de Darkseid na Terra.



É pelo título de Jimmy que vemos o vilão pela primeira vez. Superman aparece regularmente na história, assim como a Nova Legião Jovem (composta pelos filhos da Legião original, criada por Kirby nos anos 40) e o clone do Guardião (um herói da Era de Ouro, também criado por Kirby e Joe Simon em 1942). Nessa revista, ele conseguiu reviver muitas de suas criações antigas da DC.


O primeiro capítulo desse épico das HQs saiu originalmente em Outubro e Novembro daquele ano, 1970. No início, a série era bimestral e ocorria no título do Jimmy Olsen. Todavia, já na terceira edição, tornaria-se mensal e ainda ganharia a companhia dos títulos Novos Deuses, Senhor Milagre e Povo da Eternidade. Isso, inclusive, é algo que diferencia o Quarto Mundo.


Até então, não existiam histórias feitas dessa maneira: usando títulos variados para contar partes diferentes da mesma trama, as quais se completam quando lidas em conjunto. Você até poderia ler apenas um dos títulos, mas perderia o todo daquela história. Hoje isso é comum em megassagas e tie-ins, mas Kirby criou o conceito no início dos anos 70.


Aliás, o nome “O Quarto Mundo” não é um nome oficial, mas acabou sendo usado para se referir aos 4 gibis (e o quarto mundo em questão se refere à origem cósmica de Nova Gênese e Apokolips, mas não vou dar muito spoiler, vou deixar você ler!).


E a DC?


Muitas dessas questões editoriais também criam a aura única do Quarto Mundo. Jack queria escrever personagens novos, feitos para serem uma mistura de super-heróis e protagonistas de livros épicos como os criados por J. R. R. Tolkien.


Kirby pegou muita influência na Terra Média, pois O Senhor dos Anéis (publicado na década anterior) vinha conseguindo mais popularidade no fim dos anos 60. O movimento hippie e as bandas de rock (como o Led Zeppelin, que fala da saga em algumas músicas) levaram o livro para uma nova juventude.


A ideia de Kirby era, portanto, fazer isso nos quadrinhos: atingir um público fã de épicos e, após o fim da saga, publicar tudo em um livro só. Na época, não existiam encadernados que compilavam histórias em quadrinhos, então era Kirby, mais uma vez, pensando à frente.

Além disso, todas as ideias do Rei demonstravam seu respeito pela mídia: ele não via HQs como algo a ser descartado ou uma leitura rápida, e sim algo que deveria ser respeitado tanto quanto um livro. Mais uma vez, o Rei estava certo.


Porém, o cinquentão Jack Kirby, de casa nova, teve de aceitar decisões editoriais para começar sua história com um título já estabelecido e existente antes de iniciar com os gibis novos. E ele podia escolher qual título seria. Por isso Jimmy Olsen faz parte do Quarto Mundo: originalmente, existiriam apenas os 3 quadrinhos novos.


Reza a lenda que Jack pretendia pegar o título menos vendido da DC e transformá-lo num campeão de venda. Mas isso é mentira. Jimmy Olsen não era a revista menos vendida, e sim uma revista sem equipe criativa no momento, já que o escritor e desenhista anteriores estavam de saída.


O que Jack queria era não “roubar” o trabalho de ninguém. Como alguém que cresceu pobre durante a Grande Depressão, Kirby era preocupado com o bem-estar financeiro de seus colegas. Mais que um grande artista, Jack Kirby era uma grande pessoa.


Muitos esboços de personagens que ele criava aleatoriamente (mesmo os que não estavam planejados para participar da série) foram incluídos nos quadrinhos por pedido dos editores, pois eram incríveis. Alguns deles, como o Corredor Negro, têm o visual mais maluco e incrível das HQs, algo de um jeito que só Kirby poderia fazer.



Outra questão editorial importante sobre o Quarto Mundo é que, em alguns momentos, houve algumas mudanças na arte. A DC, até então, tinha um estilo muito mais definido que a Marvel.


Jack, apesar de ter ido para a nova casa, era um artista, como falamos, que arriscava e inovava bastante em sua arte, assim como muitos outros artistas da Casa de Ideias fora do convencional (como Jim Steranko e Steve Ditko). Entretanto, a DC apostava em artistas que trabalhavam mais dentro do convencional ou realista (não existe certo e errado aqui, eu gosto dos dois tipos de arte).


Por conta disso, a editora permitiu que ele trabalhasse em seus estilos para os personagens novos do Quarto Mundo, mas preferiu manter o estilo visual realista já estabelecido para os personagens prévios: Jimmy Olsen e Superman. Resultado: a DC pediu para outros artistas, já alinhados com o estilo clássico, redesenharem o rosto dos dois.


Desenhistas como Al Plastino e Murphy Anderson, clássicos ilustradores dos anos 50, modificaram o rosto de Jimmy e Clark em todas as edições que apareciam. Apesar de gostar do estilo de Al e Murphy, é uma pena: Jack merecia ter seu trabalho intocado.



No entanto, o próprio Kirby nunca se importou muito com isso. Por exemplo, o arte-finalista Vince Colletta é famoso por “estragar” a arte de Kirby, pois simplificava muitos de seus desenhos, mas o Rei nunca se irritou e até trabalhou com Vince por um longo tempo, incluindo muitas edições do Quarto Mundo. Em defesa de Colletta, ele não era um arte-finalista tão ruim quanto os críticos apontam.


Tá, a arte de Kirby é incrível, mas e seus roteiros?


Bom, vamos chegar lá. Kirby é uma de minhas maiores influências. Também sou artista (e se você não conhece meu trampo, é só clicar aqui!) e acho que até hoje ninguém conseguiu fazer poses dinâmicas melhor que ele. Sua arte estava no auge durante o Quarto Mundo. É uma página mais bonita que a outra, todas as composições eram incríveis e de encher os olhos.



Ele também inovou ao misturar colagens de fotografia em suas artes (a bem da verdade, ele já tinha feito isso em Quarteto Fantástico).



Fora isso, Jack era uma grande pessoa: era generoso com os colegas, respeitava os quadrinhos como eles deveriam ser respeitados, além de ser corajoso o suficiente para enfrentar neonazistas com metade de sua idade.


Sim... nos anos 60, um grupo de moleques de extrema-direita começou a fazer arruaça na porta da Marvel porque eles eram contra o Capitão América lutar com Nazistas. Jack, então, desceu as escadas para sentar o cacete nos nazistinhas, mas eles acabaram fugindo. Eu nunca consigo parar de achar essa história incrível.


Mas e seus roteiros? Sinceramente, acho que Jack é melhor tendo ideias do que escrevendo. Suas tramas são incríveis e todo o conceito do Quarto Mundo não me deixa mentir. Só de escrever esse texto, me deu vontade de ler tudo de novo. Mas talvez sua narrativa e diálogos não estejam no mesmo nível de seus desenhos e dos plots que ele criava para as histórias.


Basicamente, Jack era um grande escritor em se tratando da criação de personagens, tramas e acontecimentos. O pacto que gerou a paz entre Nova Gênese e Apokolips antes dos eventos do quadrinho é uma de minhas ideias preferidas da HQ. Tudo é muito bem pensado para ser um épico. O visual de cada um também combinava com aquilo que Kirby queria passar, o que era incrível. Mas a escrita em si, o texto e os diálogos, não são no mesmo nível.


Calma lá, isso não quer dizer que seja ruim, até porque estou elogiando essa HQ em todos os aspectos. Mas digo que Kirby é o Rei incontestável como desenhista, assim sendo, se ele estivesse no mesmo nível de escrita, não teria ninguém que chegasse aos seus pés. E te garanto que sua escrita estava sim quase no mesmo nível, por isso ele é tão gigante.


Particularmente, eu gosto muito do roteiro dos quadrinhos novos. Apenas Jimmy Olsen que situo em um nível mais fraco. Mas tudo bem, esse quadrinho só foi incluído por pedido editorial, então é de se esperar que Jack não estivesse preparado para entregar algo com a mesma qualidade. Isso não quer dizer que seja ruim, muito pelo contrário: a presença da Nova Legião Jovem deixa o quadrinho muito divertido de se ler, bem aventuresco.


Também é preciso lembrar que algumas histórias ficaram datadas com o tempo. Como foram escritas 50 anos atrás, a narrativa pode ser um pouco mais lenta do que estamos acostumados hoje em dia. Não que eu ache isso ruim: Jack tomou o tempo certo para fazer a história andar do jeito que ele queria.


E é quase impossível não fazer a comparação entre os roteiros de Jack e de Stan Lee. Stan escrevia diversos quadrinhos no mês, então, logicamente, nem tudo era épico igual a saga de estreia de Kirby. Claro que há momentos de primeira grandeza nas histórias de Lee (como a saga de Galactus ou Mangog, produzidas junto de Jack), mas acho que, ao contrário de Kirby, o que mais chama atenção com Stan é o diálogo e o texto em si, mais que os plots épicos.


A narrativa e escrita de Stan talvez sejam mais fluidas por conta dos anos a mais como roteirista. Algumas piadinhas de Stan parecem mais naturais do que as de Jack (mas, também, Kirby era uma pessoa bem mais séria). Juntos, os dois eram insuperáveis, mas Jack conseguiu (e muito bem) se virar sozinho.


O Quarto Mundo desconstrói o gênero de super-heróis porque trata a história como um épico literário, de uma forma nunca vista antes. Há quem defenda que a série marca o início da Era de Bronze dos quadrinhos, embora eu seja um dos que pensam nela como o fim da Era de Prata, uma preparação para o futuro. Bom, já tem um tempo que prometo, mas logo farei uma série de textos só pra falar sobre isso.


Não dá pra não falar em como lutar na Segunda Guerra Mundial influenciou o trabalho de Jack aqui. Darkseid é claramente uma referência ao Fascismo (e eu morro de medo de como o tal Snyder Cut vai trabalhar com isso, mas não vou entrar nesse mérito). E a forma como a Equação Anti-Vida, o controle absoluto, é tida como pior que a Sanção Ômega (o fim da existência) mostra como Jack levava a sério sua representação do Fascismo Galáctico.


Aliás, por curiosidade, Jack Kirby disse ter notado que muito de seu trabalho influenciou George Lucas em Star Wars. As similaridades vão desde as referências básicas entre Darkseid e Dark Side, até idéias da origem do Luke parecidas com uma trama da HQ (não vou dar spoilers aqui) e elementos antigos como claras referências entre o Doutor Destino e Darth Vader. O estranho é que o George Lucas sempre citou diversas referências para sua obra, como Flash Gordon, mas as criações de Jack nunca foram mencionadas. Enfim... isso é apenas um comentário.



Mas teve um problema...


... o Quarto Mundo não vendeu bem. Apesar de tudo, os gibis não despontaram nas vendas, até por serem algo diferente de tudo. Eles não tinha o apelo rápido que boa parte das HQs tinham e, após 3 anos de publicações, Carmine Infantino, editor-chefe da DC na época, cancelou a série. A história nunca teve um final publicado e nunca existiu o desfecho pretendido por Kirby.


Mas não fica a sensação de algo sem final. Se você ainda não leu a história, pode ler tranquilamente. Apesar de estar sem um final real, o Quarto Mundo continuou. Aquela história representou uma mudança ao universo DC e o final da HQ acontece toda vez que esses personagens aparecem nas histórias.


O fim do Quarto Mundo são os 50 anos de histórias da DC após essa publicação. Tudo que temos hoje de sagas cósmicas na editora bebe da Fonte de Nova Gênese e Apokolips. Em todos os filmes e animações com esses personagens, há o final da saga. E relevância não é o que mais importa?



Com os anos, a saga passou a ser merecidamente aclamada por fãs do mundo inteiro, sendo republicada inúmeras vezes em encadernados, como Jack queria. Atualmente, a Panini publica as histórias (pela primeira vez de maneira completa no Brasil!) e para comprar você pode clicar abaixo.



Novos Deuses x Eternos


Tempos depois, aconteceu o Retorno do Rei. Em 1976, Jack volta pra Marvel e faz uma história no mesmo estilo dos Novos Deuses, escrita e desenhada por ele, com personagens novos e contando a origem do Universo: os Eternos! Assim como na série irmã da DC, não houve também um final conclusivo para os Eternos. Porém, sua importância na editora continua, com um filme dos personagens saindo em breve.



E fica aqui a dúvida: qual é a melhor série, Eternos ou Quarto Mundo?


Particularmente, eu creio que Quarto Mundo seja mais impactante e acho a arte um pouco melhor. Os personagens do panteão dos Novos Deuses também são mais icônicos, além da história conter momentos absolutos, como o pacto de paz do Pai Celestial e Darkseid anos antes da história acontecer.


Entretanto, em 1976, a narrativa e escrita de Kirby estavam mais afiadas e ele estava mais confiante com seu roteiro. Também acho o plot principal de Eternos mais interessante (mas isso é assunto pra outro texto) e a origem desses personagens mais coesa e legal que no Quarto Mundo. No fim, são duas séries incríveis, as quais mereciam mais destaque e se complementam em aspectos diferentes. Ambas valem muito a pena serem lidas.


Contudo, no fim, só o Quarto Mundo é o Quarto Mundo.

O Quarto Mundo é o futuro da DC. Seus personagens estão em animações, em filmes, em jogos... A saga mudou a cara da DC e abriu um novo horizonte não só para a editora, mas para os quadrinhos em geral.


Além disso, Jack Kirby é o único Rei de direito quando se fala em quadrinhos.



Obrigado por lerem até aqui! Agora peguem sua Caixa Materna, liguem o Tubo de Explosão e entrem de cabeça no mundo dos quadrinhos!


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Até o próximo texto! Que o Pai Celestial o proteja!

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